Retrospectiva 2007
| Brasil E ele ainda riu da nossa cara
Ailton de Freitas/PR
Por seis meses, Renan Calheiros
agarrou-se à cadeira da presidência do Senado
com a obstinação dos loucos e o cinismo dos
déspotas. Acusado de malfeitorias de toda ordem, reveladas
por VEJA e pelo Jornal Nacional (a saber: uso dos serviços
de um lobista para pagar, com dinheiro de origem incerta,
pensão à filha que teve fora do casamento; apresentação
de documentos irregulares para justificar a origem desses
recursos; favorecimento de empresa com dívidas junto
ao INSS em troca de benefício para o irmão;
grilagem de terras; uso de laranjas na compra de emissoras
de rádio; e intimidação de senadores
dispostos a aprofundar as investigações de todas
essas denúncias), o senador do PMDB manteve o semblante
impassível em público, enquanto, em privado,
dedicava-se a vasculhar sordidezas reais e forjadas
de seus pares, para chantageá-los e impedir
que cassassem seu mandato. Acabou conseguindo. Com a ajuda
do governo e da pusilanimidade de parte dos parlamentares,
foi absolvido duas vezes em votações
sempre secretas no plenário.
Renan Calheiros riu por último,
mas nunca mais voltará a ter o peso político
que ostentou enquanto ocupou a presidência do Senado.
Sua contribuição para a já desmoralizada
imagem do Congresso, no entanto, ficará para a história.
O furacão Mônica
Paulo Vitale
Começou como um problema
de casal, ou melhor, de ex-casal: ex-apresentadora de TV,
Mônica Veloso teve uma filha com o senador Renan Calheiros.
Separou-se dele e passou a pleitear, na Justiça, um
aumento de pensão para a criança. No meio da
confusão que a essa altura já havia virado
um problema familiar, visto que o senador é casado
há 28 anos com Verônica Calheiros , Mônica
contou a VEJA que o dinheiro da pensão lhe era entregue
por um lobista muitíssimo ligado a uma empreiteira.
O problema, que era de casal, e passou a ser de família,
tornou-se, então, nacional. Mônica provocou um
furacão em Brasília. Quando, afinal, ele cessou,
Renan havia virado ex-presidente do Congresso e ela, uma figura
tão pública quanto a tatuagem que enfeita o
seu derrière e que foi exibida, em todo o seu
contexto, em um ensaio publicado em outubro pela revista Playboy
(150 exemplares vendidos em quatro horas nas duas bancas do
Congresso Nacional).
Em 2008, Mônica, autodenominada
"a jornalista que virou notícia" título
das palestras que pretende dar pelo Brasil , espera
voltar à televisão, inaugurar um site, um blog
e continuar baseada em Belo Horizonte, onde voltou a morar
desde julho. "Brasília, por enquanto, está
fora da minha rota", diz ela. As vítimas do vendaval
respiram aliviadas.
Um segundo tempo melhor que
o primeiro
Ana Carolina Fernandes/Folha
Imagem
A oncinha segue bebendo água.
As pesquisas de opinião atestam que metade da população
considera o governo de Lula ótimo ou bom. Surpreendentemente,
seu desempenho atual é ainda melhor do que no primeiro
mandato algo raro na política mundial. A popularidade
do presidente alimenta-se não só de sua sintonia
com o povão, como pelo estado geral do país.
As estimativas indicam que a economia cresceu mais de 5% em
2007. Lula tem pouco do que reclamar. Seu único revés
ocorreu em dezembro, quando o Senado rejeitou a prorrogação
da CPMF, o imposto do cheque. Mas o presidente assimilou bem
o golpe. Não esperneou e, melhor, prometeu que não
baixará pacotes fiscais demasiado pesados, para compensar
a perda de receita. O céu é de brigadeiro, mas
o horizonte se turva um pouco quando o assunto é sucessão.
Lula não tem entre os petistas um candidato natural
para substituí-lo. Apreensivo com a possibilidade de
ter de ceder o poder, o PT tenta convencer o presidente a
buscar um terceiro mandato. Lula, contudo, nega com veemência
essa possibilidade. E nada leva a crer que ele esteja só
jogando para a platéia. Até agora, o craque
vem mostrando enorme disposição para ganhar
o jogo no tempo regulamentar, sem precisar apelar para uma
prorrogação.
A dama do PAC
Fabio Motta/AE
No governo, só deu ela.
Dilma Rousseff começou 2007 como gerente do PAC e terminou
como candidata a candidata à sucessão do presidente
Lula. À poderosa ministra-chefe da Casa Civil
substituta do ex-insubstituível José Dirceu
foi delegada, em janeiro, a tarefa de gerir o conjunto
de medidas que, montado para "destravar" a economia
e acelerar o crescimento econômico do país, pretende
também ser o grande trunfo do segundo mandato de Lula
e carro-chefe da campanha petista nas eleições
presidenciais de 2010, na hipótese de dar certo. O
desempenho da ministra tem agradado ao presidente, que a ungiu
porta-voz informal das boas notícias. Coube a Dilma
anunciar a descoberta do poço de petróleo Tupi
e o início das transmissões da TV digital (que,
dada a estréia desapontadora, não se mostrou
exatamente uma boa nova, mas isso já é outro
assunto). Como ainda faltam três anos para Lula ir assar
seu coelhinho em casa, é cedo para dizer se Dilma será
ou não convocada para defender as cores petistas nas
urnas. Antes disso, a gerente do PAC terá de continuar
matando um leão por dia.
Joaquim Barbosa, o gigante
do Supremo
Andre Dusek/AE
O Supremo Tribunal Federal levantou
o tapete da impunidade com o qual o governo e o Congresso
queriam cobrir a sujeira do mensalão. No fim de agosto,
a corte acolheu a denúncia do procurador-geral da República,
Antonio Fernando de Souza, e abriu processo contra os integrantes
da máfia que comprou apoio para o governo Lula com
dinheiro desviado dos cofres públicos. Com coragem
e precisão, o relator do caso, Joaquim Barbosa, descreveu
o papel de cada um dos quarenta integrantes da quadrilha e
os crimes por eles cometidos. Nas sessões que começaram
a definir a sorte dos mensaleiros, o ministro agigantou-se
aos olhos de todos os brasileiros que estudam e trabalham.
Sua atuação não foi ofuscada nem mesmo
quando emergiram, durante o julgamento, intrigas e inimizades
entre integrantes do Supremo. Soube-se, por exemplo, que Ricardo
Lewandowski e Eros Grau (na foto, atrás de Joaquim
Barbosa) não se bicam de jeito nenhum. Eles não
precisam se amar, é claro, basta que votem com responsabilidade.
Foi o que fizeram no caso dos mensaleiros.
O horror
Guilherme Pinto/Ag. O
Globo
Em fevereiro, o assassinato de
João Hélio Vieites, de 6 anos de idade, deixou
o país inteiro em estado de choque. Preso pelo cinto
de segurança do carro, o menino foi arrastado até
a morte, por ruas da Zona Norte do Rio, pelos bandidos que
haviam roubado o Corsa Sedan em que ele viajava com sua mãe,
Rosa, e a irmã, Aline. No enterro de João Hélio,
o país inteiro chorou com sua família. Passados
dez meses da tragédia, os assassinos do menino ainda
não foram condenados. A acusação de latrocínio
contra Carlos Eduardo Toledo Lima, de 24 anos (o assaltante
que guiou o carro e chegou a ziguezaguear com ele na tentativa
de livrar-se do corpo do menino), e Diego Nascimento da Silva,
seu comparsa de 19 anos, aguarda sentença judicial
desde o dia 31 de outubro. "Os pais me ligam todos os
dias para saber se a decisão saiu, não conseguem
nem trabalhar", diz Gilberto Fonseca, advogado da família.
Quanto ao muito que se disse e se prometeu no auge da comoção
causada pelo crime, muito pouco se fez no final. No Congresso,
que chegou a anunciar uma "guerra contra a bandidagem",
apenas duas leis foram aprovadas: uma que torna mais dura
a punição para quem comete crimes hediondos
(mas que, na verdade, é mais branda do que a que vigorava
em 1990) e outra que dobra a pena para bandidos que recrutam
menores de idade. É muito pouco diante da praga criminal
que assola o Brasil.
O inferno é aqui
Divulgação
Até janeiro deste ano,
o céu parecia ser o limite para Estevam e Sonia Hernandes,
líderes da igreja Renascer em Cristo. Fundada em 1986,
a Renascer ocupava um respeitável terceiro lugar no
ranking das maiores igrejas evangélicas do país,
tinha 120 000 fiéis no Brasil e cerca de 1 500 templos,
no país e no exterior. É verdade que seus fundadores
já andavam enrolados com a Justiça, mas, ainda
assim, a vida era só prosperidade para o autonomeado
"apóstolo" e a auto-intitulada "bispa".
Entre apartamentos, fazendas, haras, casa nos Estados Unidos,
quinze carros e depósitos em contas bancárias,
o patrimônio do casal já beirava os 130 milhões
de reais. Tudo começou a ruir depois que, no aeroporto
de Miami, os Hernandes foram flagrados em pecado mortal pela
alfândega americana. Os oficiais encontraram 56 000
dólares escondidos na mala, na mochila do filho e até
dentro de uma Bíblia. Para manter a tradição
brasileira, só faltava dólar na cueca. Julgados,
foram condenados a 140 dias de prisão cada um, a ser
cumpridos alternadamente primeiro ele, depois ela.
A temporada do apóstolo no xadrez americano termina
agora em janeiro quando começa a da bispa. Mas
o purgatório dos Hernandes não se encerra aí.
Caso não consigam revogar uma ordem de prisão
preventiva que vigora contra eles no Brasil (por estelionato
e lavagem de dinheiro), serão presos novamente tão
logo pisem em solo nacional. Para o casal Hernandes, não
resta mais dúvida: assim como o céu, o inferno
pode ser aqui.
Caos aéreo: mais um
aniversário
Alberto Takaoka/AE
Em 2006, a aviação
brasileira teve paralisação de controladores
de tráfego, atrasos generalizados nos vôos, filas
quilométricas nos aeroportos e pelo menos um grande
acidente, que matou 154 passageiros da Gol. E como foi a situação
em 2007? Bem... Os controladores desafiaram o governo com
uma sucessão de operações-padrão,
40% dos vôos em território nacional registraram
atrasos no primeiro semestre, 14 milhões de passageiros
foram prejudicados por demoras, cancelamentos ou overbooking
e outro grave acidente ocorreu, desta vez com um avião
da TAM (199 mortos). A única diferença é
que o saldo do ano incluiu a falência de uma empresa
aérea, a BRA, que deixou uma dívida de 170 milhões
de reais e 70 000 passageiros na mão clientes
que já haviam comprado seus bilhetes e não puderam
voar (a Anac, com sua habitual inoperância, foi pega
de surpresa pelo episódio). Na semana passada, às
vésperas dos feriados de fim de ano, um em cada quatro
vôos em território nacional já registrava
atraso superior a uma hora. Feliz 2008? Neste caso, pelo menos,
é difícil acreditar.
A maior tragédia da
aviação nacional
Evelson de Freitas/AE
Dezessete de julho, às
18h51. Um Airbus A320 da TAM, proveniente de Porto Alegre,
atravessou a pista do Aeroporto de Congonhas sem conseguir
frear. O avião saltou sobre o platô no qual o
aeroporto foi construído, passou por cima de uma avenida
e se espatifou contra um prédio que pertencia à
mesma companhia. As 187 pessoas que estavam a bordo e outras
doze que trabalhavam no edifício morreram no choque
e no incêndio que se seguiu. Foi o maior desastre da
história da aviação nacional. A tragédia
ocorreu apenas dez meses depois de um Boeing da Gol cair com
154 pessoas, no coração da Amazônia. Como
a maioria dos acidentes aéreos, o de São Paulo
teve muitas causas. A pista estava molhada, era curta demais,
não dispunha de área de escape nem de ranhuras
que facilitam a frenagem. O jato vinha muito pesado e um de
seus reversos estava travado. Mas o erro principal foi cometido
na cabine de comando. O comandante Kleyber Lima deveria ter
colocado a turbina que estava com o reverso quebrado em ponto
morto. Em vez disso, deixou-a na posição de
aceleração. Depois do desastre, a TAM e a Airbus
reorientaram os pilotos para casos de reverso travado e implantaram
nos aviões um sinal sonoro para evitar falhas como
essa. As medidas vieram tarde demais.
A queda da charuteira
Dida Sampaio/AE
A leniência com o caos
aéreo ganhou uma imagem simbólica no ano que
passou: a de Denise Abreu, então diretora da Agência
Nacional de Aviação Civil (Anac), fumando charuto
numa festa de casamento em Salvador, enquanto o mundo caía
nos aeroportos brasileiros. A charuteira ocupava uma das quatro
diretorias da instituição. Mandava mais do que
o ex-presidente da agência Milton "Mala Perdida"
Zuanazzi. Ela entrou no governo pelas mãos do ex-ministro
da Casa Civil José Dirceu, seu amigo de faculdade.
No início do governo Lula, Dirceu a nomeou sua assessora
e a incumbiu de acompanhar a fracassada fusão da Varig
com a TAM. No setor aéreo, atribuía-se a indicação
de Denise para a Anac a essa experiência. Depois, soube-se
que tinha conexões mais íntimas com a aviação.
Seu irmão, Olten, advogava para a TAM na Suíça.
Também se descobriu que ela havia ludibriado a Justiça
paulista para favorecer as companhias aéreas. O caso
ocorreu em fevereiro. A corte julgava uma ação
que restringiria pousos em Congonhas durante chuva forte,
situação em que ocorreu o acidente com o avião
da TAM. Denise evitou a proibição com o argumento
de que a Anac já havia imposto regras semelhantes.
Para provar o que dizia, apresentou um simples estudo como
se fosse uma norma já em vigor. Demitiu-se quando a
artimanha veio à tona, mas não escapou de um
processo por improbidade administrativa. Sua passagem pela
Anac foi marcada, ainda, pela grosseria. "Vocês
são inteligentes. O avião caiu de 11 000 metros
de altura. O que vocês esperavam? Corpos?", disse
a charuteira aos parentes das vítimas do Boeing da
Gol abalroado pelo jato Legacy.
Marco Aurélio
mas pode me chamar de Top Top
Reprodução/Ag.
O Globo
Em meio à comoção
nacional, uma comemoração infame: ao saber que
uma falha mecânica no avião da TAM era a provável
causa do acidente que matou 199 pessoas em julho, em São
Paulo, o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio
Garcia, fez o gesto pelo qual por muito tempo será
lembrado. Marco Aurélio Top Top Garcia não notou
que estava sendo filmado pela Rede Globo quando reagiu de
forma grotesca à notícia que, a seu ver, livrava
inteiramente o governo da responsabilidade no acidente. O
gesto causou indignação inversamente proporcional
à punição recebida pelo assessor: uma
advertência da Comissão de Ética do governo
e só.
Velho amigo do presidente Lula,
Garcia divide com o chanceler Celso Amorim algumas missões
relacionadas à política externa. Ele nutre predileção
pelas que incluem caudilhos latino-americanos e outras obsolescências.
Até setembro, era o nome preferido do presidente para
comandar o PT. Não chegou nem a disputar as eleições.
O partido o considerou muito "palaciano", e Garcia
top, top teve a candidatura vetada.
Menos pirotecnia, mais verdades
Tony Gentile/Reuters
A visita do papa Bento XVI ao
Brasil era para ser um grandioso espetáculo da fé.
Seria a primeira viagem do pontífice para fora da Europa.
Na Basílica de Aparecida, no interior paulista, ele
abriria a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano
e do Caribe. Sua passagem seria coroada pela cerimônia
de canonização de frei Galvão, o primeiro
santo nascido no Brasil. Tudo ocorreu como o esperado, exceto
pela ausência do grandioso espetáculo da fé
que caracterizou as três visitas de João Paulo
II ao Brasil. A Igreja esperava que 70 000 jovens acorressem
para ver o papa no Estádio do Pacaembu, em São
Paulo. Foram apenas 40 000. Dias depois, 350 000 fiéis
deveriam acompanhar sua missa em Aparecida. Só apareceram
150 000. O motivo principal parece ser mesmo a falta de carisma
de Bento XVI. Ele dá a impressão de se sentir
deslocado em meio a multidões ou sob a luz dos holofotes.
Faltou grandiosidade ao espetáculo, mas não
firmeza. Em momento nenhum o papa arrefeceu a defesa dos princípios
morais. No final das contas, a visita ao Brasil foi um bom
resumo dos objetivos do seu pontificado: menos pirotecnia
e mais verdades da Igreja ditas a poucos e bons católicos.
A cara do Senado (antes da
CPMF)
Celso Junior/AE
Com sua vasta cabeleira em desalinho,
a voz rouca e o estilo histriônico, o senador Wellington
Salgado (PMDB-MG) encarnou melhor do que ninguém o
espírito da pantomima encenada no Congresso ao longo
do interminável escândalo Renan Calheiros. Salgado
nunca apresentou nenhum projeto de lei relevante nem jamais
foi agraciado com um mísero voto (era suplente do hoje
ministro Hélio Costa, cuja campanha para o Senado foi
quase toda financiada pela sua família). Mesmo assim,
ganhou os holofotes e dominou os debates no plenário
na qualidade de um dos mais ardorosos defensores de Renan
na sua luta contra o decoro e a ética. Ao longo dessa
atuação, criou, além de muitos constrangimentos,
também uma expressão. Graças a Salgado,
a palavra "chinelinho" doravante poderá ser
usada para se referir aos "presentinhos", "agradinhos"
e outras indecenciazinhas que, na opinião do senador,
o governo deve oferecer aos parlamentares em troca de votos
quando o assunto o interessa. Não fosse pela votação
redentora que extinguiu a CPMF, o Senado teria chegado ao
fim de 2007 com a cara de Wellington Salgado.
Uma pororoca de escândalos
Ed Ferreira/AE
Catorze novos governadores assumiram
o cargo em 2007. Muitos ganharam o noticiário nacional
ao implementar boas medidas administrativas. A governadora
do Pará, Ana Júlia Carepa, foi uma das que mais
marcaram presença na imprensa. Mas por outros motivos.
Não houve um mês sequer em que ela não
figurasse em algum escândalo de maior ou menor
magnitude. Ao tomar posse, ela empregou os irmãos e
um primo no governo. Flagrada, teve de demiti-los. Depois,
nomeou sua cabeleireira como assessora. Ana Júlia usou
um jatinho do estado para ir à formatura do filho em
Minas Gerais. Descansou na Semana Santa com os assessores
mais chegados na casa de praia do governo e pagou diárias
de trabalho para todo mundo. Incansável, beneficiou
seu namorado, presidente do aeroclube do Pará, com
um contrato de 3,7 milhões de reais para treinamento
de pilotos de helicóptero. Gastaria três vezes
menos se treinasse todos em São Paulo. Suas estripulias
deveriam ficar apenas no folclore que tanto preza a
governadora adora saracotear ao som do carimbó. Mas,
em novembro, o país estarrecido tomou conhecimento
de que as coisas no seu estado andam piores do que se imaginava.
Descobriu-se que uma menina de 15 anos havia sido presa com
trinta homens em uma delegacia do interior. Durante 24 dias,
ela foi estuprada e torturada. Depois que o caso veio à
tona, soube-se que, no Pará, tão comum quanto
o carimbó é prender menores e trancafiar mulheres
junto com homens. Enquanto Ana Júlia requebra, os paraenses
dançam em mais de um sentido.