A semana | Economia Inflação
em 2008 é ameaça séria
Julia
Duailibi
China
Photos/Getty Images
Festival
de comida tradicional na China: mais ricos, emergentes comem mais proteína
e elevam o preço de alimentos no mundo
Só
depois de concluir e mandar imprimir A Era da Turbulência, seu livro
de memórias e previsões, Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, o
banco central americano, observou uma ameaça nova pairando sobre a economia
global. Era maio de 2007 e, pela primeira vez desde a ascensão da China
como potência de mercado, o preço das exportações desse
país asiático para os EUA começava a aumentar. Em entrevista
a VEJA, em setembro, Greens- pan elegeu esse fenômeno e não
a perspectiva de um estouro da bolha imobiliária americana, como todos
imaginavam como o risco mais preocupante a rondar a economia global. É
de compreender. Durante os dezoito anos em que comandou o Fed, Greenspan viu sua
política antiinflacionária contar com a ajuda das importações
chinesas baratas. Sem essa força auxiliar, os EUA (e o resto do mundo,
diga-se) não teriam obtido as altas taxas de crescimento com juros baixos
e sem inflação. Surgem agora sinais de esmaecimento desse fenômeno
benigno. Dormida há anos, a brasa da inflação ameaça
arder de novo.
Os preços, principalmente
os de alimentos, sobem de forma preocupante não apenas na China, onde o
consumo de carne mais que duplicou em duas décadas, mas em todo o mundo.
Outros países emergentes, como Brasil, Índia e Rússia, registram
o mesmo fenômeno. O mundo, é verdade, produziu mais alimentos para
tentar equilibrar essa demanda crescente (a produção mundial de
cereais de 2007 será 4,6% maior que a de 2006). Mas em volume insuficiente.
A cotação mundial de milho, leite e oleaginosas atingiu o nível
mais alto em 2007, e a tendência permanece de forte alta. Há outro
complicador por trás dos alimentos mais caros. O estímulo concedido
pelo governo americano para a produção de etanol de milho elevou
o preço dos alimentos no país mais rico do mundo. Isso porque os
produtores americanos abandonaram outras culturas (que por esse motivo também
ficaram mais caras) e apostaram no milho para fazer etanol. O país ganhou
uma nova fonte de energia, mas caiu a área plantada de alimentos. O preço
do milho subiu 27%. O do trigo, 63%.
Dois
fatores, portanto, estão por trás da alta da inflação
de alimentos: mais bocas para alimentar e a procura por energia limpa, que abocanha
espaço das plantações. Seu impacto simultâneo nos preços
recebeu recentemente o nome de agflação (aglutinação
de agricultura e inflação). O Brasil não está imune
a esse fenômeno. Na quinta-feira passada, a Fundação Getulio
Vargas anunciou que, em 2007, o aumento de preços medido pelo IGP-M ficou
em 7,75%, o dobro do constatado no ano passado. No período, as matérias-primas
agropecuárias subiram 22%. "Problemas de oferta, como a queda na safra
do feijão, aliados à forte demanda mundial contribuíram para
aumentar a inflação dos alimentos", declarou Marcela Prada,
da Tendências Consultoria. Na China, a inflação em 2007 está
em 6,5%, enquanto o aumento do preço dos alimentos já atingiu 17,6%.
Na Argentina, eles subiram mais de 11%, levando a inflação a patamares
acima dos 8%.
Preços mais altos
impactam a economia de duas maneiras. Primeiro, desorganizam a produção
e inviabilizam o planejamento. Depois, impedem que bancos centrais injetem dinheiro
para estimular a atividade econômica quando há risco de recessão
como nos Estados Unidos atualmente. O que fazer para impedir que esse fenômeno
interrompa a fase de prosperidade mundial? Não há uma receita única.
A China divulgou, ainda na semana passada, o corte em algumas tarifas de importação
para aumentar a competição e conter a inflação local.
Já o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, sinalizou
um aumento das taxas de juro. Estima-se que o encarecimento dos alimentos fará
com que alguns países fechem o ano com uma taxa de inflação
de dois dígitos algo que se imaginava quase extinto da economia
mundial. "De maneira geral, os países emergentes terão de ser
mais tolerantes com a valorização de sua moeda", disse Alexandre
Maia, economista-chefe da GAP Asset Management. Isso será fundamental para
atenuar as pressões inflacionárias embora não seja
possível sufocá-las, pois as cotações de alimentos
são globais. Nos últimos anos, a economia brasileira obteve um aumento
extraordinário no superávit em conta-corrente, derrubou a cotação
do dólar em relação ao real e aumentou as importações.
Conseqüentemente, ajudou no controle dos preços. Isso funcionou enquanto
o vento da prosperidade com preços baixos soprou a nosso favor. Agora o
jogo é outro, e recomenda-se ao governo uma medida mais do que emergencial:
que controle os gastos públicos e ajude o país a conter a inflação.