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Edição 2041

29 de dezembro de 2007
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2007 | Carta do Editor: Roberto Civita
O desafio agora
é não esmorecer

Janus, o deus das portas e transições da mitologia romana, deu seu nome ao mês de janeiro pela capacidade de simultaneamente ver passado e futuro. Ele é uma inspiração para que a cada início de ano façamos um balanço do que aconteceu e do que podemos esperar (e desejar) dos próximos doze meses.

Nesse espírito, acredito que poucos discordem da avaliação de que 2007 foi um ano excepcionalmente bom para o Brasil, em especial na frente econômica, em que a manutenção da estabilidade monetária e o acelerado crescimento da prosperidade mundial contribuíram para um ano de recordes.

Foram criados mais de 2 milhões de empregos formais e o crédito cresceu mais de 50% em um ano. A combinação desses fatores foi altamente benéfica para a economia. Mais de 100 000 novos imóveis foram vendidos, 2,5 milhões de carros novos saíram das revendedoras e ganharam as ruas. Mais de 10 milhões de novos computadores abriram as portas do universo digital a uma legião de usuários. Entre janeiro e dezembro a bolsa cresceu 40%, e ingressaram no país mais 35 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros diretos – o dobro do ano passado. Como resultado, o PIB deve fechar o ano com o auspicioso avanço de mais de 5%.

Fomos, portanto, bem nessa frente. Fomos bem apesar das óbvias barreiras ao crescimento, como a infra-estrutura ainda em frangalhos, a legislação trabalhista arcaica e uma estrutura tributária sufocante. O balanço é positivo mesmo quando se constata que não avançamos nas reformas sempre adiadas, desperdiçando assim um raro e oportuno momento para fazê-lo.

Há sinais encorajadores em duas outras frentes fundamentais. Embora os exames internacionais mostrem que continuamos tendo um dos piores sistemas escolares do planeta, tudo indica que tanto o governo como a sociedade estão por fim tomando consciência de que não há futuro sem a melhora radical da educação. O novo Plano de Desenvolvimento da Educação, anunciado pelo ministro Fernando Haddad em abril, deixa claro que o governo finalmente passou a tratar o assunto como prioridade. Essa primazia foi reafirmada pela criação de um índice para acompanhar a evolução do ensino básico ao longo dos anos. O rumo está traçado. O desafio a partir de agora é não esquecer, não esmorecer e perseverar até alcançarmos um nível de qualidade minimamente aceitável. Para dimensionar bem a amplitude desse desafio, basta ter em mente que, mesmo se fizermos tudo certo, algumas décadas ainda nos separam dos resultados – e, tragicamente, em termos educacionais, mais uma geração será sacrificada no caminho.

Obviamente, temos múltiplos outros desafios pela frente, a começar pela necessidade de melhorar (e muito) a qualidade de gestão da coisa pública.

Mas acredito que a moralidade pública continua sendo uma questão essencial. Ao longo de 2007, assistimos – mais uma vez – a lamentáveis demonstrações do desprezo que nossos representantes no Congresso têm pelo decoro, pelas próprias normas de conduta e pela opinião pública. É forçoso admitir que uma réstia de esperança se acendeu com as enérgicas ações do Ministério Público e da Polícia Federal e, em especial, com o belo exemplo do Supremo Tribunal Federal ao acolher a denúncia contra os quarenta envolvidos no escândalo do mensalão.

Aqui também é preciso obstinação. A exceção tem de virar regra. Como já prescrevia Montesquieu no século XVIII, "não se constrói uma sociedade baseada na virtude dos homens, e sim na solidez das instituições".

Nunca é demais lembrar que o fortalecimento das instituições depende – acima de tudo – de uma população bem educada, bem informada por meios de comunicação responsáveis e empenhada na manutenção da liberdade, da democracia e da justiça.

Roberto Civita é presidente da Editora Abril e editor de VEJA




 

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