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2007
| Carta do Editor: Roberto Civita O desafio
agora é não esmorecer
Janus,
o deus das portas e transições da mitologia romana, deu seu nome
ao mês de janeiro pela capacidade de simultaneamente ver passado e futuro.
Ele é uma inspiração para que a cada início de ano
façamos um balanço do que aconteceu e do que podemos esperar (e
desejar) dos próximos doze meses. Nesse
espírito, acredito que poucos discordem da avaliação de que
2007 foi um ano excepcionalmente bom para o Brasil, em especial na frente econômica,
em que a manutenção da estabilidade monetária e o acelerado
crescimento da prosperidade mundial contribuíram para um ano de recordes.
Foram criados
mais de 2 milhões de empregos formais e o crédito
cresceu mais de 50% em um ano. A combinação
desses fatores foi altamente benéfica para a economia.
Mais de 100 000 novos imóveis foram vendidos, 2,5 milhões
de carros novos saíram das revendedoras e ganharam
as ruas. Mais de 10 milhões de novos computadores abriram
as portas do universo digital a uma legião de usuários.
Entre janeiro e dezembro a bolsa cresceu 40%, e ingressaram
no país mais 35 bilhões de dólares em
investimentos estrangeiros diretos o dobro do ano passado.
Como resultado, o PIB deve fechar o ano com o auspicioso avanço
de mais de 5%.
Fomos,
portanto, bem nessa frente. Fomos bem apesar das óbvias barreiras ao crescimento,
como a infra-estrutura ainda em frangalhos, a legislação trabalhista
arcaica e uma estrutura tributária sufocante. O balanço é
positivo mesmo quando se constata que não avançamos nas reformas
sempre adiadas, desperdiçando assim um raro e oportuno momento para fazê-lo. Há
sinais encorajadores em duas outras frentes fundamentais. Embora os exames internacionais
mostrem que continuamos tendo um dos piores sistemas escolares do planeta, tudo
indica que tanto o governo como a sociedade estão por fim tomando consciência
de que não há futuro sem a melhora radical da educação.
O novo Plano de Desenvolvimento da Educação, anunciado pelo ministro
Fernando Haddad em abril, deixa claro que o governo finalmente passou a tratar
o assunto como prioridade. Essa primazia foi reafirmada pela criação
de um índice para acompanhar a evolução do ensino básico
ao longo dos anos. O rumo está traçado. O desafio a partir de agora
é não esquecer, não esmorecer e perseverar até alcançarmos
um nível de qualidade minimamente aceitável. Para dimensionar bem
a amplitude desse desafio, basta ter em mente que, mesmo se fizermos tudo certo,
algumas décadas ainda nos separam dos resultados e, tragicamente,
em termos educacionais, mais uma geração será sacrificada
no caminho. Obviamente,
temos múltiplos outros desafios pela frente, a começar pela necessidade
de melhorar (e muito) a qualidade de gestão da coisa pública. Mas
acredito que a moralidade pública continua sendo uma questão essencial.
Ao longo de 2007, assistimos mais uma vez a lamentáveis demonstrações
do desprezo que nossos representantes no Congresso têm pelo decoro, pelas
próprias normas de conduta e pela opinião pública. É
forçoso admitir que uma réstia de esperança se acendeu com
as enérgicas ações do Ministério Público e
da Polícia Federal e, em especial, com o belo exemplo do Supremo Tribunal
Federal ao acolher a denúncia contra os quarenta envolvidos no escândalo
do mensalão. Aqui
também é preciso obstinação. A exceção
tem de virar regra. Como já prescrevia Montesquieu no século XVIII,
"não se constrói uma sociedade baseada na virtude dos homens,
e sim na solidez das instituições". Nunca
é demais lembrar que o fortalecimento das instituições depende
acima de tudo de uma população bem educada, bem informada
por meios de comunicação responsáveis e empenhada na manutenção
da liberdade, da democracia e da justiça. Roberto
Civita é presidente da Editora Abril e editor de VEJA
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