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Música
A ópera do falso profeta The
Who ataca a religião em seu novo disco. Mas é difícil
acreditar na pregação de Pete Townshend 
Sérgio Martins
Fabrice Coffrini/AFP  |
| Daltrey e Townshend: 24 anos sem lançar um disco de inéditas |
Nascido em 1964, o grupo inglês
The Who é o progenitor de todos os "desajustados" que empunharam
um microfone ou uma guitarra nos últimos quarenta anos. Nem sorridentes
como os beatles, nem manhosos como os rolling stones, seus integrantes eram agressivos
e esquisitões. Faziam um som barulhento e inventaram rituais roqueiros
como a quebra de instrumentos no fim do show. Quando berravam a plenos pulmões
"espero morrer antes de ficar velho", sua rebeldia tinha um toque amargo.
Esse toque se devia sobretudo ao compositor Pete Townshend, letrista acima da
média e dono, desde cedo, de uma visão de mundo desencantada. Pois
bem. Passados 24 anos desde o lançamento do seu último disco de
estúdio, o Who está de volta com o CD Endless Wire. O grupo se resume
agora ao cantor Roger Daltrey e ao próprio Townshend. A religião
é o tema central do disco e o veredicto é negativo: igrejas e livros
sagrados são mais fonte de discórdia do que de esperança.
Uma idéia provocadora, como seria de esperar. O problema é que o
tempo não foi gentil com o Who. A música envelheceu. E Townshend
tornou-se muito menos capaz de despertar simpatia do que nos primórdios
da banda. A rachadura na imagem de Townshend
decorre de sua prisão em 2004 por acessar sites de pedofilia na internet.
O cantor afirmou que os acessava para "fazer uma pesquisa" sobre a exploração
sexual de crianças e que o interesse nesse tema decorria do fato de ter
sofrido abuso na infância. As desculpas nunca soaram totalmente satisfatórias.
"Se queria pesquisar, por que não entrevistou crianças que
foram vítimas dessa monstruosidade em vez de olhar essas fotos humilhantes
às escondidas?", perguntou o indignado guitarrista mexicano Carlos
Santana. É uma boa pergunta. De repente, o velho Townshend, que fustigava
toda espécie de hipocrisia, pareceu ter uma face desagradavelmente cínica
ou, mais que isso, perversa. Mas nunca se comprovou que ele tivesse envolvimento
direto com os sites (pagando a eles, por exemplo), e o caso foi arquivado pela
Justiça. Endless Wire tem dezenove
faixas. Nove são "independentes" e as demais se combinam numa
"miniópera". O tema religioso aparece ao longo de todo o disco.
Man in a Purple Dress, por exemplo, põe em questão a autoridade
dos líderes religiosos, enquanto Two Thousand Years é uma
espécie de oração indignada dirigida a Jesus. A segunda parte
do CD se intitula Wire & Glass e teve origem numa novela que Townshend
mantém em seu blog. Ela narra a história de uma banda formada pelo
cristão Gabriel, o judeu Josh e a muçulmana Leila. O final é
trágico: Josh mata Gabriel. Não é, obviamente, a primeira
ópera-rock criada pelo The Who. Sob a tutela de Townshend, que sempre quis
fazer obras ambiciosas amarradas por um "conceito", eles inventaram
o gênero pomposo com Tommy, de 1968, e depois se exercitaram nele mais algumas
vezes. Como acontece com a maioria das óperas tradicionais, as óperas-rock
também costumam ter um ou dois bons momentos cercados por muita chatice.
Em Wire & Glass o bom momento é We Got a Hit. O resto
é resto. O Who foi uma banda formada
por músicos talentosos. Townshend é um bom guitarrista e Daltrey
é um vocalista versátil, capaz de incorporar personagens quando
canta. Mas os mais habilidosos eram o baterista Keith Moon e o baixista John Entwistle.
Moon era tão selvagem diante da bateria quanto na vida pessoal. Acompanhá-lo
era um desafio e ele nunca deixou herdeiros musicais. Morreu em 1978, depois de
misturar remédios para depressão com bebidas alcoólicas.
Entwistle ganhou o apelido de "boi" porque parecia ruminar em meio à
pancadaria sonora do Who. Foi um inovador no uso do baixo elétrico. Morreu
em 2002, numa festa com uísque, Viagra e garotas de programa. Entwistle
compunha e nunca se submeteu totalmente à liderança de Townshend.
Nas entrevistas de divulgação de Endless Wire, este último
disse que a morte do baixista foi um "presente" que o ajudou
a centrar o foco nas composições para o novo disco do Who.
| "George Bush é um bom
presidente" Pete Townshend, guitarrista e líder
da banda The Who, falou a VEJA sobre música e suas muitas polêmicas.
Scott Gries/Getty Images  |
| Townshend: pesquisa sobre pedofilia e gosto pelo dinheiro |
O senhor nega qualquer acusação
de pedofilia. Como se explica, então, que a polícia inglesa tenha
encontrado material pornográfico com crianças em seu computador?
Entrei em sites de pedofilia na internet apenas para fazer pesquisas. Fui
inocentado pela Justiça inglesa. Sou contra qualquer tipo de abuso e me
considero solidário a toda pessoa que tenha passado por essa experiência.
O
senhor já declarou que era bissexual, mas voltou atrás. Por quê?
Tive experiências homossexuais na década de 70, mas não
acho que isso faça de mim um típico homossexual. Sou casado, tenho
filhos, gosto muito de mulheres. E detesto rótulos. O
Who é famoso pela relação belicosa entre seus integrantes.
Como anda sua convivência com o vocalista Roger Daltrey? Somos
mais do que amigos. Somos irmãos. Mas prefiro que a gente mantenha uma
certa distância. Aliás, nem faço questão de que ele
apareça na minha casa. O baixista John
Entwistle morreu há quatro anos, depois de misturar cocaína, uísque
e Viagra. Morrer de overdose faz parte do livro de regras do rock? É
uma estupidez morrer dessa maneira. Todo mundo tem o direito de morrer de modo
digno, inclusive os roqueiros. Muitas letras
do Who são inspiradas em suas experiências pessoais. Alguma delas
foi dolorosa no momento da composição? Nunca usei minhas
músicas para confessar pecados ou expressar minha dor. Minhas letras são
pessoais, mas eu não quero que elas digam respeito só a mim. Considero
um trabalho perfeito quando alguém se identifica com o que falo numa canção. O
senhor não cedeu a canção We Wont Get Fooled Again
(Não Seremos Enganados de Novo) para um documentário de Michael
Moore, mas liberou três músicas para as séries de televisão
CSI. Qual o critério que o senhor utiliza nesses casos?
Michael Moore queria usar minha música para ilustrar uma cena com o presidente
americano George W. Bush. Bush se esforça para dar uma vida digna ao povo
dos Estados Unidos, e não tenho o direito de dizer como ele deve dirigir
o país. Quanto a CSI, eu gosto das séries e principalmente
do dinheiro que recebi para liberar as músicas. | |
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