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Internacional Caiu
mais um Os adversários do russo Putin acabam
morrendo por tiro ou veneno. Para ele é só coincidência
Reuters
 | Alistair
Fuller/AP
 | | Litvinenko
no hospital, à esquerda, e antes de ser envenenado, à direita: o
veneno fez cair o cabelo |
A prática
de eliminar desafetos do regime comunista dentro e fora do país era uma
das marcas registradas da KGB, o serviço secreto da União Soviética.
Entre os métodos preferidos dos espiões russos estava o envenenamento,
porque garantia um assassinato discreto, sem deixar rastros. Quinze anos depois
do fim do império soviético, na Rússia do presidente Vladimir
Putin os inimigos do regime continuam vivendo perigosamente e morrendo cercados
de mistérios. Na semana passada, Alexander Litvinenko, um ex-espião
da FSB (novo nome da KGB desde 1991), morreu em um hospital de Londres, na Inglaterra,
por envenenamento. A agonia do russo durou três semanas. Pouco antes de
ele morrer, na quinta-feira, os médicos encontraram em seu corpo uma concentração
anormal do material radioativo polônio 210. O elemento químico existe
em pequena quantidade nos cigarros e em alguns alimentos. É altamente cancerígeno.
Se ingerido em doses elevadas, pode levar à morte em questão de
dias, como ocorreu com o russo. As suspeitas do envenenamento imediatamente se
voltaram para a FSB e o Kremlin. Litvinenko, exilado na Inglaterra havia seis
anos, era um inimigo declarado de Putin (também um ex-agente da KGB). O
espião caiu em desgraça na FSB quando, em 1998, acusou seus chefes
de ter ordenado que ele matasse o bilionário russo Boris Berezovsky, outro
desafeto do presidente. Litvinenko teria se negado a cumprir a missão.
Fyodor
Savintsev/AP
 | | Politkovskaia,
morta no mês passado: caça aos opositores |
A
tese de que Litvinenko foi morto por espiões russos ganhou credibilidade
porque seu assassinato repete com perfeição os métodos usados
pela KGB no passado. Um dos casos mais espetaculares foi o do jornalista búlgaro
Georgi Markov, morto em 1978 por envenenamento com ricina, em Londres, injetada
em seu corpo com a ponta de um guarda-chuva. Nos últimos anos, o envenenamento
de pessoas que criticam abertamente Putin tornou-se uma constante. O presidente
da Ucrânia, Viktor Yushchenko, teve o rosto desfigurado pela dioxina que,
suspeita-se, foi colocada em sua comida durante um jantar com o embaixador russo.
Corria a campanha eleitoral de 2004, e Yushchenko prometia peitar a Rússia.
No mesmo ano, a jornalista Anna Politkovskaia, outra desafeta de Putin, quase
morreu envenenada segundo ela, a mando da FSB. No mês passado, Anna
foi morta a tiros em Moscou, pouco antes de publicar uma reportagem em que denunciava
crimes de guerra na Chechênia.
O governo
de Putin nega o envolvimento com qualquer um desses casos. Atribui tudo à
coincidência e aos exageros da imprensa. Litvinenko morreu justamente quando
estava empenhado em investigar a morte de Anna Politkovskaia. No dia em que foi
envenenado, ele se encontrou com Mario Scaramella, consultor de segurança
italiano, que dizia ter pistas sobre o assassinato. Antes, tomou chá com
dois russos em um hotel londrino. Na semana passada, a polícia encontrou
indícios do veneno que matou Litvinenko tanto no restaurante japonês
onde o ex-espião se encontrou com Scaramella quanto no bar do hotel. Como
nos tempos da Guerra Fria, o culpado nunca será apontado. |