Stephen
Kanitz
Democracia
brasileira
"Se
as eleições americanas
tivessem
seguido regras brasileiras, essa confusão
toda não teria acontecido. Nosso processo
eleitoral é superior ao americano"
Ilustração Ale Setti
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República de banana, uma ova. Se você tem um amigo,
vizinho ou chefe americano, que tal dar uma cutucada de leve,
sem ofender, e oferecer-lhe um pouco de know-how eleitoral,
made in Brazil?
Por
não terem aprimorado o processo eleitoral nos últimos
200 anos, como fizeram nossos legisladores e nosso Tribunal Eleitoral,
os americanos terão um presidente com sabor de ilegitimidade
o pior que pode acontecer com o líder de um país
e, especialmente, de uma democracia.
Se as eleições americanas tivessem seguido regras
brasileiras, nada disso teria acontecido. Nosso processo eleitoral
é superior ao americano em pelo menos cinco aspectos:
1. Segundo turno: os democratas alegam que Gore é a "vontade
da maioria do povo", apesar de ter obtido somente 48% dos votos.
No Brasil, Gore e Bush iriam para o segundo turno. Além
disso, Ralph Nader e Buchanan não poderiam ter sido excluídos
do debate público do primeiro turno, como aconteceu.
Em um segundo turno, então sem Ralph Nader, Gore provavelmente
teria obtido 52% contra 48% de Bush, já que Nader é
na realidade um dissidente democrata. Agora, sim, a maioria do
povo.
2. Voto obrigatório: nem Gore nem Bush obtiveram 48% da
vontade do povo, como dizem. Ambos conseguiram somente 24%, uma
vez que metade dos americanos simplesmente não votou. Essa
eleição dos Estados Unidos me leva a ficar a favor
da obrigatoriedade do voto, para que não haja o risco das
acusações de ilegitimidade que irão marcar
o próximo governo americano. Votar em todas as eleições,
mesmo que em branco, significa renovar seu contrato social com
a democracia do Brasil, algo que não acontece naquele país.
3. Maioria popular: nosso presidente não é eleito
por "maioria estadual ponderada pelo número de habitantes
do Estado". O colégio eleitoral poderia fazer sentido quando
o problema era achar um "representante" para treze Estados independentes
que haviam decidido se juntar tempos atrás. Em um mundo
globalizado, porém, o presidente da República representa
a nação como um todo, não um grupo de Estados.
4. Confirmação do voto: depois de digitado o número
do candidato, nossas urnas eletrônicas perguntam: "é
esse o nome e a foto de seu candidato?" Isso é auditoria
no ato. Nos Estados Unidos, milhares de americanos não
sabem com certeza em quem votaram. Tecnicamente, nós votamos
quando digitamos o número do candidato e, ao apertarmos
a tecla verde, estamos simplesmente confirmando nosso voto, já
dado anteriormente.
5. Erros graves de arredondamento: esse erro aparece quando se
tenta encaixar a população americana nas 538 vagas
do colégio eleitoral. Imaginem 100 milhões de habitantes
divididos em dois Estados e um colégio eleitoral com 100
vagas. O Estado "Nova Flórida" tem 49.444.444
moradores, e a "Velha York" tem 50.555.556.
Como não é possível cortar a cabeça
de nenhum delegado de colégio eleitoral, "Nova Flórida"
manda 49 delegados, e não 49,44, e "Velha York" terá
51 delegados em vez de 50,56. Nesse caso, 444.444
votos foram simplesmente transferidos para outro Estado. A situação
se complica quando o número de Estados aumenta para cinqüenta
e então os erros ficam ainda mais graves. Ninguém
comenta esse assunto, mas ser eleito por "erros de arredondamento"
é algo muito sério. No Brasil, cada voto vale um
voto e não cometemos esse tipo de erro, inadmissível
no mundo moderno.
Nosso sistema eleitoral só perde em marketing. Li diversos
comentaristas estrangeiros dizendo que, apesar de tudo, os americanos
deram um show de democracia. Discordo. Nosso sistema eleitoral
evoluiu com o passar dos anos. O deles parou no tempo.
Stephen
Kanitz é brasileiro (www.kanitz.com.br)