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Roberto
Pompeu de Toledo
Entre o riso
e as lágrimas
O
grotesco próprio da política da
América Latina seria muito engraçado
se não fosse tão triste
Houve
uma vez um presidente do Peru chamado Augusto Leguía. Um
certo Alberto Fujimori, setenta anos depois, seria às vezes
comparado a ele, pelo temperamento e pelos métodos. Um dos
momentos marcantes de Leguía foi quando tomou a piedosa resolução
de consagrar o Peru ao Coração de Jesus. Uma revolta
de estudantes, para os quais tal ato misturava indevidamente as
esferas do Estado e da Igreja, impediu-o de fazê-lo. O distante
discípulo Fujimori, em 1993, retomaria a idéia, e
a levaria a cabo. Leguía foi deposto, em 1930, por uma revolta
militar. Num primeiro momento do golpe julgou desnecessário
alterar a rotina e, como fazia toda semana, dirigiu-se ao hipódromo
para assistir às corridas. Causou tumulto e acabou preso.
Morreu um ano e meio depois, ainda privado da liberdade, abandonado
pelos amigos e seguidores.
Sucedeu-lhe
o chefe do golpe, comandante Luis Sanchez Cerro. Era jovem e destemido.
Chamaram-no de César, até de Júpiter, até
de Cristo. Uma vez, numa cerimônia em que desfilava numa carruagem,
os partidários desataram os cavalos e puseram-se a puxar
o veículo eles mesmos. Formou, claro, um tribunal para punir
a corrupção. Morreu assassinado, em 1933, por um militante
da Apra, o partido esquerdista de Victor Haya de la Torre.
Houve
outra vez um presidente chamado Manuel Prado. Hora de emoção
em seu mandato foi aquela em que conseguiu anular, junto à
Santa Sé, por "vício de forma", um casamento de quarenta
anos. Pôde então casar-se com a amante, em cerimônia
realizada no palácio presidencial. O escritor Vargas Llosa,
então uma criança, testemunhou a cena que se passou
do lado de fora. Passeando em silêncio pela Plaza de Armas,
onde fica o palácio, um grupo de distintas senhoras, mantilhas
à cabeça e rosário na mão, exibia um
cartaz onde se lia: "Viva a Indissolubilidade do Casamento Católico".
Houve
o presidente general Manuel Odría. Ele não respeitava
a Constituição e os direitos humanos, mas isso não
caracteriza originalidade alguma. O que o notabilizou foi uma frase:
"La democracia no se come". E houve o presidente Fernando Belaúnde
Terry, este um caso excepcional de democrata respeitoso das regras.
Numa noite de outubro de 1968, foi arrancado da cama e levado de
pijama ao aeroporto, onde os militares o embarcaram para o exílio.
Perdeu o poder e uma noite de sono.
Na
semana passada, mais um desses episódios que só
mesmo na América Latina voltou a acometer o Peru.
Assim como o marido da anedota que diz que vai até a esquina
comprar cigarros e não volta mais, o presidente Fujimori
partiu em viagem ao Japão e de lá avisou que não
voltaria tão cedo. Há uma notória vocação
para clown, entre os dirigentes de Nuestra América.
É um traço que complementa outros igualmente característicos,
como a prepotência e a cara dura. Mesmo assim, e mesmo se
sabendo tudo de ruim que já se sabia dele, Fujimori surpreendeu
pela indignidade com que coroou sua saída. Para culminar,
durante alguns dias ainda teve endereço sabido, em Tóquio
o hotel New Otani, onde deu declarações. Depois
deixou o hotel e desapareceu no turbilhão da capital japonesa.
É candidato a passar para a História como o presidente
que evaporou.
Tão
difícil de decidir se é para rir ou para chorar, em
ocasiões dessas, é escolher o que é pior, se
a saída ou a entrada de um novo ocupante do palácio,
se o fim ou o começo de uma nova etapa. O fim obedece com
freqüência ao padrão burlesco encenado por Fujimori.
O começo é anunciado com estrépito, e não
raro ganha um nome. Leguía chamou seu período de "La
Patria Nueva". Odría repicou com uma "Revolución Restauradora".
Velasco Alvarado, o general que derrubou Belaúnde Terry,
estreou com um "Dia de la dignidad nacional". Infeliz do país
que está precisando sempre reinaugurar-se.
Durante
a campanha presidencial de 1990, que opôs Fujimori e Vargas
Llosa, houve momentos em que a origem japonesa do primeiro foi aproveitada
pelos partidários do segundo para injúrias de cunho
racista. Uma vez, em casa, o próprio Vargas Llosa ouviu gente
gritando, lá fora: "Mario sí es peruano", "Queremos
um peruano". Ato contínuo, sacou de um megafone e passou
um sermão nos militantes. Fujimori, disse, era tão
peruano como ele próprio. Pode-se ser peruano sendo branco,
índio, negro ou japonês.
Agora
se ficou sabendo que Fujimori é japonês. Não
está claro se nasceu no Japão ou se foi registrado
no consulado em Lima, mas tem nacionalidade japonesa, além
da peruana. Se isso agora lhe traz a vantagem de poder permanecer
no país para onde fugiu, o fato, se revelado antes, lhe teria
impedido de ocupar a Presidência, pela Constituição
do Peru. O gesto de Vargas Llosa, megafone na mão, honra-lhe
o caráter. O de Fujimori, escondendo as origens, equipara-o
aos jogadores de futebol que falsificam os documentos para esconder
a idade. Não, é muito pior. Jogador de futebol é
um ser inocente, que não mexe com a vida dos outros. Não
lidera ninguém, nem governa nada.
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