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O rebelde de verdade

Tom Zé está de volta. Já não pensa
em fugir para Irará

 
Antonio Milena
Tom Zé e uma de suas geringonças: experimentação, ingenuidade política e depressão

Depois de quase três décadas sem tocar nas grandes casas de show brasileiras, o compositor baiano Tom Zé apresentou-se na semana passada no DirecTV Hall – um dos palcos "nobres" da capital paulista. Lançou o seu novo disco, Jogos de Armar (Faça Você Mesmo), o primeiro que produziu numa gravadora nacional em dezesseis anos. Tom Zé apareceu vestido com um traje de plástico transparente com enfeites coloridos, que fazia lembrar os parangolés do artista Hélio Oiticica. Atrás dele, além da banda com instrumentos normais, uma série de invenções malucas produzia sons. Coisas como o "enceroscópio", que arranca chiados de enceradeiras velhas, ou o "buzinório", um complexo de tubos de PVC acoplado a microfones e buzinas. Tudo isso para desconstruir clássicos do repertório popular, como Pisa na Fulô e Asa Branca, ou para dar vida às complexas criações do próprio músico. Tom Zé dançou, saltitou e fez gestos teatrais. Entoou canções de protesto contra o FMI e contra o que chama de "globarbarização" na letra de O PIB da PIB. Com o entusiasmo de um adolescente, proferiu uns tantos palavrões. E não se esqueceu, em nenhum momento, de divertir a platéia. Ao retornar ao "grande circuito" com 64 anos, Tom Zé deixou bem claro o que é ser um legítimo rebelde – e não somente fazer pose por aí.

O curioso é que essa rebeldia tem diversos matizes. Ela pode ser refinada ou totalmente pueril. Seu lado mais interessante é, de longe, o musical. Matuto do interior baiano, Tom Zé deixou sua cidade natal, Irará, no final dos anos 50. Foi para Salvador estudar história da música, caiu nas mãos de professores como Hans Joachim Kuellreutter e Ernest Widmer, e tornou-se um dos poucos artistas do panteão popular com sólida formação teórica. Durante o movimento tropicalista, do qual foi um dos protagonistas, Tom Zé se diferenciou por jamais precisar de maestros ou arranjadores. Ele mesmo dava forma a suas canções esquisitas. Pelos anos 70 afora, mergulhou sempre mais na experimentação. Nunca desistiu de vez da melodia, mas sempre deu um jeito de incluir dissonâncias, ruídos e cacofonias em tudo o que fez. Nunca abriu mão dos gêneros e ritmos tradicionais, como o baião, o samba e o choro, mas sempre deu um jeito de subvertê-los. É impossível imaginar Tom Zé fazendo o que fizeram recentemente seus antigos pares de travessuras tropicalistas, Caetano Veloso e Gilberto Gil – o primeiro cantou uma musiqueta romântica banal para funcionar como tema da novela Suave Veneno, o segundo lançou um disco de forró para servir de trilha sonora ao filme Eu Tu Eles. "Não é questão de preconceito", diz Tom Zé com certa ironia. "O problema é que eu sou incapaz de usar somente ingredientes fáceis."

O lado menos interessante da rebeldia do compositor está nas letras "engajadas". Tudo bem, o músico faz jus a uma longa tradição familiar. "Na minha infância, metade dos parentes era filiada à UDN e a outra metade ao PC do B", lembra ele. "Qualquer almoço de domingo era motivo para discussões políticas sem fim." Os ideais comunistas acabaram conquistando o coração do rapaz – embora ele nunca tenha requisitado sua carteirinha vermelha –, e isso muitas vezes se fez sentir em sua música. Assim como manteve intacto seu gosto juvenil pela experimentação, Tom Zé também preservou os hábitos de protesto que estavam no ar quando iniciou sua carreira. Hoje, no entanto, sua indignação quase sempre soa como piada: "A Prostituição Infantil Barata/ É a criança coitadinha do Nordeste/ Colaborando com o produto interno bruto/ E esse produto enterra bruto". Justiça seja feita, no entanto, Tom Zé não se leva tão a sério. "Eu sei que a parte mais radical do que eu faço está no formato das músicas, enquanto as letras têm algo de inócuo", diz ele. "Tudo bem. Não há nada de mau em cultivar algumas ilusões no campo social."

Tom Zé pagou caro a decisão de jamais "entrar nos eixos". O desprezo pelas regras da indústria fonográfica, por exemplo, teve impacto direto sobre sua carreira. Uma história típica: em 1973, quando estava no auge da popularidade, Tom Zé decidiu gravar o disco Todos os Olhos num estúdio caseiro, que tinha apenas dois canais e gerava um som abafado e sujo. O resultado foi que nenhuma de suas novas canções chegou até as rádios. "Hoje, depois de vinte anos de análise, acho que posso dizer que tive medo do sucesso", diz ele. "Eu mesmo me sabotei." Esse fracasso deu início a um período de quase duas décadas em que o compositor permaneceu no ostracismo. Nesse tempo, Tom Zé compôs obras-primas como o disco Estudando o Samba, e também fez suas primeiras brincadeiras com instrumentos inventados. O problema é que ninguém queria ouvi-lo, e o dinheiro foi ficando escasso. Para fabricar suas geringonças musicais, por exemplo, ele precisou vender uma casa. E, logo em seguida, afundou-se em depressão. Viciou-se em calmantes, contraiu doenças crônicas e duas ou três vezes julgou-se à beira da morte. Quando conseguiu curar-se, à custa de muita psicoterapia e muito arroz macrobiótico, achou que estava na hora de abrir mão de quaisquer pretensões. Chegou a pensar em retirar-se para sua cidade natal, onde trabalharia como frentista num posto de gasolina. Foi nessa altura que o músico americano David Byrne, ex-integrante da banda Talking Heads, entrou em contato com ele. Havia descoberto suas composições por acaso e ficou fascinado com elas. Ao longo dos anos 90, Byrne lançou discos de Tom Zé que fizeram sucesso nos Estados Unidos e na Europa. Graças a essa conexão internacional, o compositor recobrou o fôlego também no Brasil. No final do ano passado, voltou a ser contratado por uma gravadora nacional, a Trama, que lhe deu carta branca para levar adiante suas invencionices. Tom Zé já não pensa mais em fugir para Irará. É bom que esteja de volta.

 

Caminhos opostos

Gil, Gal, Caetano e Bethânia: fama e fortuna

Um dos pontos mais delicados na trajetória de Tom Zé é seu relacionamento com outros músicos baianos da mesma geração. Ele estreou, afinal de contas, juntamente com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa ou Maria Bethânia, mas seguiu em direção oposta: enquanto eles ganhavam fama, ele caía no ostracismo. "Hoje eu acho que eles estavam certos em não me dar a mão, porque talvez eu os tivesse arrastado junto comigo", diz Tom Zé. "Mas durante muito tempo não consegui pensar assim." As maiores dores, é claro, foram causadas por Caetano e Gil, que receberam os créditos pela invenção do tropicalismo, ao passo que a contribuição de Tom Zé deixava de ser mencionada. Mas a perda de contato com Gal e Bethânia também ilustra o isolamento do compositor. "Gal foi minha namorada, mas a vi pela última vez antes de ela tornar-se estrela", lembra ele. "Já Bethânia não encontro desde agosto de 1968."

 

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