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Mulata de ouro

Tela de Di Cavalcanti é arrematada por
886 000 dólares num leilão em Nova York

 

O pintor carioca Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976) tinha fixação por mulatas sestrosas. Em seus quadros, retratou-as sob a influência das mais variadas tendências modernistas: fez mulatas expressionistas, mulatas surrealistas, mulatas cubistas. Na quarta-feira passada, uma tela que bebe principalmente desta última vertente colocou o velho Di de novo na ordem do dia. Pintada em 1956, Mulher Deitada com Peixes e Frutas foi leiloada pela Christie's, em Nova York, por 886.000 dólares. O comprador preferiu ficar no anonimato, mas sabe-se que se trata de um grande colecionador latino-americano. Com essa transação, Mulher Deitada com Peixes e Frutas passa a ocupar o segundo posto entre os quadros mais valorizados da arte brasileira. O primeiro no ranking continua sendo Abaporu, de Tarsila do Amaral, comprado por 1,43 milhão de dólares, em 1995, pelo colecionador argentino Eduardo Costantini. O quadro que foi desbancado do segundo lugar e agora ocupa o terceiro é Vaso de Flores, do modernista Guignard, adquirido por 761 500 dólares, no ano passado, pelo deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, do Rio de Janeiro.


Divulgação MAM-RJ
Abaporu, de Tarsila, obra nacional mais valorizada: 1,43 milhão de dólares


Mas nem só pela venda de Di Cavalcanti a semana foi lucrativa para a arte nacional. No leilão da Christie's, obras de artistas contemporâneos como Antonio Dias e Ernesto Neto, ambos vivos, alcançaram boas cotações. E, na segunda 20, a Sotheby's vendeu por 830.000 dólares um quadro pintado no Brasil no início do século XIX: Panorama da Cidade de São Paulo, do francês Pallière. É uma obra importante por ser uma das raras representações a óleo da cidade realizada nesse período – e o comprador foi um brasileiro não identificado. O único vexame da semana ficou por conta de Mulher Penteando o Cabelo, criada por Cândido Portinari nos anos 40. Exibida em destaque na capa do catálogo da Christie's, a tela não foi vendida porque nenhum comprador se dispôs a pagar o preço mínimo de 800.000 dólares. Não é difícil entender a razão. Apesar de a casa de leilões ter anunciado a obra como sendo um óleo sobre tela, trata-se na verdade de uma têmpera, técnica bem menos valorizada no mercado.


Di Cavalcanti: ao menos no martelo, o pintor carioca levou a melhor sobre o rival Portinari

Os atores principais desses leilões, Portinari e Di Cavalcanti, eram dados a trocar farpas. "Eles se odiavam cordialmente", diz Denise Mattar, curadora da última grande exposição da obra de Di. O rei das mulatas, um artista festivo e ligado à temática popular, costumava dizer que seu colega não passava de um artista metido. Portinari, por sua vez, achava que o rival encarava a carreira artística de forma indisciplinada demais, sem fazer da pintura um ofício sério e a serviço da justiça social. Ao menos por enquanto, é Di quem está rindo por último. O curioso é que muitos críticos torciam o nariz para sua obra enquanto estava vivo. Acusavam-no de não ser original. Sua contribuição à arte nacional, segundo seus detratores, era mínima. Ele apenas teria transposto para os trópicos conceitos da arte moderna européia. Ou seja, seria um diluidor, mais do que um criador.

Di não ligava para esses comentários. "Não quero nunca realizar obras-primas como o quiseram o Brecheret, o Villa-Lobos", escreveu ao escritor Mário de Andrade. E alfinetou: "Eles amam a arte como a um mito. Eu amo sobretudo a vida, esta vida que vem como os calores sexuais, de baixo para cima". Essa forma despretensiosa de encarar a profissão contribuiu para que o pintor vivesse em condições relativamente humildes. Até pouco antes de completar 60 anos, morava num apartamento quarto-e-sala bem simplesinho em Copacabana. No fundo, era um romântico sem grandes ideais.

 
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