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As fotos acima, por si só, contam uma história extraordinária. Em 1993, data da foto menor, o cantor Zezé Di Camargo e a mulher, Zilú, começavam a desfrutar das benesses do sucesso. Com a música É o Amor já grudada na memória coletiva das massas e rendendo infindáveis direitos, Zezé tinha tosado a franjinha do início da carreira, morava com a família numa casa em condomínio paulistano com cortinas de babado e espelho no teto do quarto e cruzava o país fazendo shows com o irmão, Luciano. Uma beleza para o filho de lavrador e a ex-balconista, que chegou a dar a aliança de casada em pagamento ao quitandeiro para sustentar o sonho artístico do marido e ao mesmo tempo alimentar a família. Muito pouco, porém, se comparado ao salto qualitativo registrado na foto maior, tirada no começo de novembro. A transformação por que passaram Zezé e, principalmente, Zilú retrata a espetacular ascensão social e o estilo de vida peculiar dos astros da música sertaneja. Zezé e Zilú andam de Mercedes, em terra, e de jatinho Citation II de 2,3 milhões de dólares, no ar. Vestem-se de Versace, a grife predileta dos sertanejos, têm casa na Flórida e fazendas em Goiás e no Mato Grosso, só vão às próprias festas, compartilham lipoaspirações. Continuam casados, casadíssimos uma proeza em qualquer circunstância, um milagre no meio artístico. Ele a cobre de jóias (só um dos colares vale 250.000 dólares). Ela virou outra mulher, literalmente, por obra de um abrangente conjunto de cirurgias e intervenções estéticas. O casal 20 da música sertaneja relembra até com orgulho os apertos do passado, empunhados como bandeira que justifica a gastança do presente. Zezé e Zilú gastam muito, sem culpa (veja entrevista) mas não sem controle. A esbelta, loira e repaginada senhora Camargo transmutou-se também em administradora da fortuna familiar e, hoje, só não entende mais de finanças porque o marido, como todo bom sertanejo, confia mais em gado no pasto do que em ação na bolsa. O patrimônio sob a mão fechada de Zilú até recentemente, o cantor nem sequer tinha talão de cheques não é coisa pouca. Nos últimos nove anos, a dupla Zezé Di Camargo & Luciano vendeu 17 milhões de discos, 3 milhões a mais que o rei Roberto Carlos. Eles fazem em média oitenta shows por ano, a 75.000 reais cada um. O último contrato que os irmãos assinaram com a gravadora Sony Music rendeu, só de luvas, 10 milhões de reais. Foi provavelmente o maior negócio do gênero no Brasil. Zezé Di Camargo, Mirosmar na certidão, hoje com 38 anos, conquistou o sucesso com voz de cristal, talento de compositor romântico, perfil de galã e obstinação de vencedor. Tinha 9 anos e sete irmãos quando pediu uma sanfona ao pai. Morava na zona rural de Pirenópolis, a 150 quilômetros de Brasília. Recebeu uma lata de feijão, um lote de terra e a proposta: se lavrasse e capinasse direito, poderia colher o produto, vendê-lo e comprar o instrumento. "Cuidei daquele feijão como se fosse a minha vida", rememora. Comprou a sanfona, mas continuou gramando. Aos 19, violeiro e pobre, casou-se com Zilú, contra a vontade dos pais dela entre desacatar a opinião da família e perder o moreninho bonito, ela cravou na primeira opção. Ele passava os dias escondendo-se dos cobradores, enquanto ela trabalhava como balconista numa loja de tecidos e, nos intervalos, vendia bijuterias de porta em porta. Zilú passou a gravidez da filha mais velha, Wanessa, alternando os dois únicos vestidinhos com espaço para barriga que tinha (hoje ostenta uma das maiores coleções de Versace do país: entre trajes de noite e roupas de uso diário, são mais de 100 peças). Apoiado pela mulher, dotado de ambição e autoconfiança inversamente proporcionais à estatura diminuta, Zezé nunca transigiu no sonho de ser cantor. A maior concessão que fez às necessidades materiais foi cantar em inferninhos. Em 1991, tentando a sorte em São Paulo, tirou do emprego de office-boy em Goiânia o irmão Welson, transformou-o em Luciano, a segunda voz da dupla. Em três meses, a sorte grande bateu à porta: duas gravadoras, a Copacabana e a Continental, fizeram-lhes propostas. Zilú aconselhou que optassem pela primeira. Embora menor, não contava com concorrentes do porte de Leandro e Leonardo, como a Continental. A primeira faixa do CD gravado pela Copacabana tinha um refrão que começava: "É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim..." Nem um brasileiro que tenha passado os últimos dez anos mergulhado nos confins da selva amazônica deixou de ouvir a canção. O CD vendeu 1,1 milhão de cópias, um espanto para os iniciantes.
Enquanto Zezé subia como rojão, Zilú despencava em crise, derrubada pela insegurança, a distância e, sobretudo, pelo assédio implacável das fãs. "O Zezé andava pelo Brasil, eu ficava com as crianças. Cada vez que ligava para os hotéis e não o encontrava, tinha ataques de ciúme", conta. Amigos lembram que, nessa época, ela costumava confiscar os números de telefone deixados por fãs no bolso do cantor. Depois, ligava para as assanhadas e, aos brados, comunicava que o músico era casado. Zilú começou a reagir como muitas donas-de-casa de classe média que vêem o casamento ameaçado pela concorrência: com umas roupinhas novas e uma cirurgia plástica. A diferença é que ela não parou mais. Um implante de silicone feito às escondidas deu início à transformação. Zilú colocou 220 milímetros nos seios que o marido jurava serem mais que perfeitos. À primeira cirurgia seguiram-se outras muitas outras. Em estrelada clínica paulistana, para onde corre atualmente "até para tirar uma espinha", ela afilou o nariz, limou o queixo, enxugou as gordurinhas das costas e removeu a cicatriz dos seios, aquela da primeira plástica. Com dermatologistas renomados, fez bronzeamento artificial, depilação definitiva, tratamento a laser para remoção de manchas do rosto e aplicações de botox na testa. Por fim, emagreceu mais de 10 quilos, fez-se loira e agora comemora o fim do tratamento para correção dos dentes, prova máxima da sua determinação e toque final na metamorfose. "Ficava cinco horas sentada na cadeira com a boca aberta", conta.
O figurino também mudou. Os vestidos rodados e os bustiês
de oncinha aos poucos foram indo para o fundo do armário.
Orgulhosa, Zilú diz que dispensou ajuda profissional de um
personal stylist, como se chamam os especialistas que ajudam os
ricos indecisos a turbinar o guarda-roupa. Na busca pela elegância,
copiou modelos de celebridades, testou combinações,
foi às lojas que as famosas diziam freqüentar. Lembra-se
de que, numa delas sofisticadíssimo local de peregrinação
em São Paulo de dez entre dez abonadas do país ,
passou mais de uma hora aguardando em vão que uma vendedora
lhe dirigisse a palavra. Ignorada, decidiu recolher uma montanha
de peças das prateleiras, colocou tudo sobre o balcão,
pagou à vista e nunca mais apareceu. Hoje, além dos
onipresentes Versace, abastece o guarda-roupa com grifes como Dior,
Gucci e Escada. De seu porta-jóias, transbordam diamantes
e esmeraldas da Tiffany e Bulgari; no closet, enfileiram-se mais
de oitenta bolsas e incontáveis vidros de perfume
ela calcula que tem quase 1.000. Em matéria de viagens, segue
o roteiro padrão do turista emergente. Desde que ficou rica,
Zilú esquiou em Aspen, assistiu a rodeios em Dallas, fez
compras em Nova York e visitou seis vezes a Disney, uma referência
permanente no mundo sertanejo, em que a vida é tão
mais glamourosa quanto mais se assemelha a um parque de diversões.
A festa foi uma espécie de reencontro com o Brasil, depois da saída precipitada, rumo à segurança dos Estados Unidos, por causa do seqüestro de Wellington, irmão de Zezé e Luciano, em dezembro de 1998. Paraplégico, Wellington passou três meses em poder dos criminosos, teve uma orelha cortada e só foi solto mediante o pagamento de um resgate de 500.000 reais. Além do trauma causado por tanta brutalidade, Zezé e Zilú apavoraram-se ao saber que o alvo inicial dos bandidos era a filha Wanessa. Por causa disso, três meses depois da libertação do cunhado, Zilú juntou a prole Wanessa, Camilla e o caçula Igor e mudou-se para Plantation, na Flórida, numa casa comprada por 600.000 dólares. Embora dourado, o exílio americano doeu. Zilú sofreu por não dominar o inglês e, principalmente, por ter de ouvir a todo instante que o marido se divertia à larga na noite paulistana enquanto ela amargava a saudade. A mudança radical na fachada não esconde o fato de que, por dentro, Zilú continua igual: tão ciumenta quanto antes. A tática para lidar com o inimigo, porém, ficou mais sutil, com a dissimulação entrando no lugar do confronto direto. Em festa recente, realizada em famoso camarote de cerveja, percebeu que uma certa bailarina-modelo-atriz da Globo se mostrava decidida a encantar o músico. Furiosa, mas elegante, Zilú deu um jeito de aproximar-se dela. Entabulou conversa comprida e fez-se tão simpática que marcou dois tentos de uma vez: tomou o tempo que a concorrente poderia usar tentando surrupiar-lhe o marido e criou um tal clima de cordialidade entre as duas que a curvilínea criatura, constrangida, resolveu cantar em outra freguesia. Zezé Di Camargo não costuma ser flagrado ao lado de talentos femininos emergentes, como é praxe, por exemplo, no mundo do futebol em tantos aspectos semelhante ao universo sertanejo. Mas certamente o cantor nunca teve fama de santo. Sobre suas propaladas escapadas, Zilú, na nova fase contida, tem resposta na ponta da língua: "Se existem garotas que aceitam ser mulheres de uma noite, azar o delas, que estão sendo usadas. A mulher que ele escolheu para terminar os seu dias sou eu". Verdade. Zezé tem um pacto de cumplicidade e um dever de lealdade com a mulher. "Mesmo na época mais dura, ela nunca deixou que eu desistisse da carreira", elogia. Além disso, para os sertanejos, da mesma forma que o gado é a escora da riqueza, a família constituída, sólida e composta de peças originais é a célula mater de todo o resto. Que o diga o músico Chitão, ex-amigo do casal. Desde a separação da primeira mulher, Adenair, substituída pela dançarina Márcia Alves, o parceiro de Xororó passou a ser cuidadosamente ignorado pelos Camargo. Zilú não confirma o rompimento. Diz apenas que tanto ela quanto Zezé continuam "muito amigos da Adenair". Contente com a volta ao Brasil, Zilú agora se prepara para ocupar a mansão que está sendo terminada em Alphaville, condomínio perto de São Paulo. Não economizou na obra. Para erguer seu palácio, mandou trazer dois contêineres de mármore da Itália: o material cobre cada centímetro dos 1.300 metros quadrados de área construída do terreno e enfeita do piso às paredes, incluindo a churrasqueira e até a tampa do bueiro da calçada. Só de colunas e pilares são quase sessenta, todos esculpidos um a um. Lustres de cristal com 3 metros de altura pendem do teto com acabamento em gesso trabalhado, e o ouro folheia das torneiras aos ralos dos banheiros o da suíte do casal é um espanto, inteirinho recoberto de ônix, um tipo de pedra mais requintado ainda que o mármore. Na sala principal, de onde se avista o jardim enfeitado com palmeiras Phoenix importadas dos Estados Unidos, reluz o brinquedo preferido de Zilú: uma cascata artificial que jorra água colorida e termina numa espécie de banheira romana. "Tenho um gosto clássico", justifica. Com a casa quase pronta, a carreira do marido indo de vento em popa e nenhuma outra lipoaspiração em vista, Zilú dedica-se agora a outra atividade característica do mundo sertanejo: a perpetuação da dinastia musical. Na linhagem dos Camargo ela se dá através da primogênita Wanessa, 17 anos, cabelos de Jennifer Lopez, luxos de menina mimada, vontade afiada e voz afinada herdadas do pai. Mais decotada que Sandy, com quem detesta ser comparada apesar das similaridades gritantes, Wanessa está se lançando na carreira com pleno apoio da família. Nesta fase de arranque, Zilú tornou-se sua sombra. É empresária, divulgadora e conselheira da filha. Se depender do empenho da dama de ferro sertaneja, a concorrência pode tremer nas bases: a mais nova representante da dinastia já estréia a um passo da glória.
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