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A família de 80 milhões

A primeira geração conquistou o mercado
sertanejo. A segunda, os adolescentes. Eles
são um fenômeno único na música brasileira

Sérgio Martins

 
Oscar Cabral
Sandy, Junior, Chitãozinho e Xororó: somente Roberto Carlos vendeu mais discos que eles

Na história da música brasileira, nunca houve uma família como a de Chitãozinho e Xororó, nomes artísticos dos paranaenses José e Durval Lima. Eles formavam na década de 70 uma dupla sertaneja tradicional, dessas que fazem a alegria dos puristas e são ignoradas pelo grande público. Nos anos 80, renderam-se à versão brasileira do country americano, uma caboclice em dose dupla que enraivecia os críticos e entusiasmava as multidões. Hoje, emprestam seus trinados ao filão conhecido por "popular romântico", invenção das gravadoras a respeito da qual os especialistas não se dão ao trabalho de ter opinião e que os fãs consomem feito pão quente. Em trinta anos de carreira – e metamorfoses –, Chitãozinho & Xororó venderam espantosos 30 milhões de discos. No mercado brasileiro, só Roberto Carlos vendeu mais: algo em torno de 70 milhões de cópias. O mais novo CD da dupla chegou às lojas na semana retrasada: Irmãos Coragem, gravado ao vivo para comemorar as suas três décadas de existência. Os filhos de Xororó também seguem a estrada da vitória. Desde 1991, Sandy & Junior já venderam 10 milhões de discos. De duo infantil acaipirado, com um repertório que incluía O que Você Foi Fazer no Mato, Maria Chiquinha?, eles se transformaram em ídolos dos adolescentes brasileiros, com versões de hits estrangeiros, como os da canadense Celine Dion. Até o final de 2001, a gravadora Universal pretende lançar Sandy & Junior no mercado mundial, cantando em inglês. Somando-se os dois & da família, chega-se à marca de 40 milhões de discos vendidos, 83 milhões de reais de faturamento bruto e um patrimônio estimado de 32 milhões de reais (veja quadro).

 

Marco Pinto

Sandy, em seu quarto: ela será a estrela da próxima novela das 6 da Globo. Ao lado, Chitãozinho no seu sítio de 1,5 milhão de reais, em Jaguariúna, com Xororó
Oscar Cabral

Os investimentos do clã concentram-se basicamente em imóveis e propriedades rurais. Chitãozinho tem duas fazendas em Goiás, que somam 600 alqueires, onde cria 3.000 cabeças de gado. Recém-separado, mora sozinho em um sítio avaliado em 1,5 milhão de reais, nos arredores de Jaguariúna, no interior de São Paulo. Xororó, por sua vez, tem quatro fazendas – uma em São Paulo e três em Mato Grosso –, que totalizam 4.000 alqueires e nas quais mantém 4.200 cabeças de gado, boa parte delas comprada em sociedade com Sandy e Junior. Ele, sua mulher, Noely, e os filhos famosos residem em uma casa de 800 metros quadrados de área construída, num condomínio em Campinas. Os sinais exteriores de riqueza, no entanto, são até que discretos. Nada de jatos particulares ou carrões de 300.000 dólares. Xororó, por exemplo, pode ser visto ao volante ora de um Passat, ora de uma caminhonete Mercedes. Ele, Chitãozinho, Sandy e Junior têm, cada um, dois seguranças, que os acompanham por todos os lados. Um esquema modesto se comparado ao de uma outra estrela do sertanejo-que-virou-popular romântico, o cantor Zezé Di Camargo. Não é raro que ele apareça em público cercado por mais de uma dezena de guarda-costas. Há cerca de um mês, Zezé Di Camargo compareceu a um show do seu amigo Daniel protegido por vinte parrudos. "Tem cantor que gosta de ostentar sua fortuna, mas esse não é o nosso caso", alfineta Xororó.

Os dois milionários da música brasileira começaram a vida artística apresentando-se num circo do interior. O show misturava canções e palhaçadas. No esquete que se repetia noite após noite, Chitãozinho fazia o papel de um galã e Xororó interpretava um bêbado trapalhão. Só no final eles entoavam baladas sobre amores perdidos. O público invariavelmente aplaudia mais a derradeira parte do espetáculo. Mesmo assim, não foi fácil convencer o dono do circo de dispensá-los das cenas de pastelão. No início dos anos 80, Chitãozinho & Xororó já tinham certo renome, mas nenhum grande sucesso no currículo. Foi quando cruzaram com o produtor paulista José Homero Bettio, que os ajudou a compor canções em que elementos regionais se combinavam a temas urbanos. Dessa fusão, surgiu o hit Fio de Cabelo, onipresente nas rádios em 1983. O vinil com a música vendeu 1,5 milhão de exemplares e inaugurou a onda sertaneja.


Marcelo Pontes
Junior toca bateria em sua casa: a estratégia agora é fazer com que o rapaz de 16 anos adquira luz própria e deixe de depender da irmã para fazer sucesso


O curioso é que, apesar do estouro de Chitãozinho & Xororó nas vendagens, o tipo de música que faziam continuou a ser visto com reservas. E não apenas pelos críticos de nariz empinado. Nos idos de 80, os donos das grandes casas de espetáculos de São Paulo e do Rio de Janeiro recusavam-se a abrir as portas de seus estabelecimentos para os cantores do gênero, com medo de ter seu prestígio arranhado junto ao público de classe média alta. Os barões do show biz demoraram a perceber que muitos endinheirados também compartilhavam o gosto pelo amor derramado e a nostalgia de um Brasil agrário, espelhados pelas canções de tais artistas. Somente em 1989 Chitãozinho & Xororó conseguiram furar o bloqueio. A dupla alugou o palco do Palace (atual DirecTV Music Hall), em São Paulo, para quatro apresentações. O sucesso foi estrondoso. "Os shows do Palace foram um divisor de águas na história da música sertaneja", diz Xororó. Hoje, além de lotar casas de espetáculos chiques, os artistas que nasceram nesse filão respondem por 15% do mercado fonográfico nacional. Tomados caso a caso, os números são impressionantes. Em dez anos de carreira, Zezé Di Camargo & Luciano já venderam 17 milhões de discos. Leandro & Leonardo deixaram a indústria de olhos arregalados, em 1991, ao vender perto de 3 milhões de unidades do CD que leva o nome da dupla e contém a inesquecível Pense em Mim, que virou mania nacional. Sozinho desde que seu irmão morreu, Leonardo saboreou a façanha de ser o maior vendedor de discos do país em 1999 – seus dois lançamentos, Tempo e Ao Vivo, bateram nos 2,8 milhões de cópias. Daniel, que recentemente passou a explorar a imagem de cantor sexy, forma no segundo escalão. Mas nem por isso tem do que reclamar: os três últimos trabalhos do rapaz atingiram a marca de 1,85 milhão de discos vendidos.

 
Margareth Abussamra
Cida Souza
Na foto da esquerda, Chitãozinho com a família na festa de debutante da filha. A separação do cantor e seu namoro com a bailarina Márcia Alves (à dir.) renderam um ataque furioso de Hebe Camargo

Sandy & Junior não pertencem a esse segmento. Na classificação das gravadoras, integram o gênero pop. Xororó e Noely controlam com mão de ferro a carreira dos filhos, uma verdadeira mina de ouro. Além dos 10 milhões de discos vendidos até o momento, a dupla já faturou 5 milhões de reais em shows e tem 320 produtos licenciados em seu nome, o que deve render-lhes 4,5 milhões de reais neste ano. Em meados do ano passado, Sandy & Junior renovaram contrato com a Universal, para fazer quatro discos. A quantia do adiantamento é estimada em 9 milhões de reais. Sandy, especialmente, tem um cacife e tanto. Com 17 anos, 1,56 metro de altura, 40 quilos, voz e carinha de anjo e uma gastrite crônica, sintoma mais visível do excesso de trabalho a que é submetida desde a infância, ela é considerada a nova namoradinha do Brasil. Mas não no sentido Regina Duarte da expressão. A marmanjada baba pela moça no sentido bíblico mesmo. Em abril, um internauta divulgou na rede mundial de computadores fotos forjadas da adolescente, em que ela aparecia ao natural. Xororó e o empresário de Sandy & Junior, Carlos Mamoni Júnior, acionaram a polícia e acabaram com a festa.


Arquivo pessoal
Aline, filha de Chitãozinho, em ação: amazona competente, ela ocupa o terceiro lugar no ranking da Federação Nacional do Rodeio Completo. Uma carreira na TV está em seus planos


Depois de estrelar, ao lado de Junior, o seriado exibido aos domingos pela Rede Globo, Sandy aceitou o convite para ser a protagonista da próxima novela das 6, Estrela Guia. Com isso, seu salário saltará dos atuais 35.000 reais para 60.000 reais, cifra reservada aos grandes astros da emissora. Sandy fará par romântico com um homem mais velho, na faixa dos 30 anos. Ainda não está definido quem será o galã. Na vida real, ela teve apenas dois namoricos. O mais recente, com o ator Paulo Vilhena, durou oito meses e acabou no começo de agosto. Parece que a vigilância paterna atrapalhou o romance. Aliás, a diligência com que Noely e Xororó cuidam de todos os aspectos da vida da jovem pode estar perto de criar atritos. Não que a princesa vá virar rebelde. Mas, assim como prefere escutar a espevitada Mariah Carey a qualquer ídolo da música country, Sandy dá sinais de que gostaria de ter um pouco de autonomia.

Os problemas de Junior, 16 anos, são de ordem diferente. Ao contrário da irmã, ele tem liberdade para sair quando bem entende. O que o assombra é a pecha de ser um peso morto nos duetos com Sandy. Os críticos costumam dizer que o rapaz não tem fôlego para seguir sozinho, e volta e meia surge a notícia de que a dupla está para ser desfeita. Sandy, é claro, sempre sai em defesa do mano. Muitas vezes debulhando-se em lágrimas. "Se tiver de cantar sem o Junior, abandono a carreira", declarou mais de uma vez. Desde o lançamento do disco ao vivo As Quatro Estações, no início do mês, as vivandeiras do mercado fonográfico se aquietaram um pouco. Isso porque, nos shows de divulgação do CD, Junior se deu bem ao interpretar a canção Smooth, com a qual o guitarrista mexicano Carlos Santana ganhou um Grammy neste ano. Além disso, ele vem demonstrando capacidade para assumir tarefas de bastidores na produção dos discos e espetáculos. Também toca bateria e guitarra com relativa desenvoltura. A verdade, no entanto, é que chegará um dia em que os irmãos terão de se separar – dueto de casal adulto é um atalho para o mais rotundo fracasso comercial, como sabe qualquer executivo de gravadora. Por essa razão, já está em andamento uma estratégia para que Junior ganhe algum brilho próprio. Faz parte da operação arrumar uma namorada para o rapaz. Não é uma casualidade que ele tenha começado a falar em "achar um grande amor" nas revistas de fofocas.

 
Cida Souza
Divulgação
Os cantores Leonardo (à esq.) e Daniel: assim como a dupla Chitãozinho & Xororó, eles deixaram a música sertaneja pura e aderiram ao "popular romântico"

O script de Xororó se desenrola dentro do planejado, mas Chitãozinho enfrenta algumas turbulências. No final de 1999, ele se separou da mulher com quem estava casado havia dezoito anos: Adenair, uma ex-bailarina do programa Canta Viola, que era exibido pela Rede Record. A causa da separação foi outra dançarina, Márcia Regina Alves, integrante do grupo musical Banana Split. Adenair tem 41 anos, Márcia, 24. Essa história de contornos clássicos adquiriu ar de escândalo quando a apresentadora Hebe Camargo, do SBT, resolveu manifestar-se a respeito. Há menos de um mês, ela recebeu Adenair em seu programa e soltou o verbo contra Chitãozinho. Tomada de fúria, Hebe atacou os homens que "largam a família e os filhos porque pensam que estão apaixonados por uma Capitu", numa referência à prostituta da novela Laços de Família. A apresentadora ainda aproveitou a presença do casal de filhos de Adenair e Chitãozinho para perguntar o que eles achavam da atual namorada de seu pai. O menino Allison, de 14 anos, foi elegante. "Não tenho nada contra a moça", disse ele. "Só quero que meu pai seja feliz." Até pouco tempo atrás, Hebe era muito amiga de Chitãozinho. Amiga do peito.

A filha de Chitãozinho chama-se Aline e tem 16 anos. Ela é uma excelente amazona e ocupa atualmente o terceiro lugar no ranking da Federação Nacional do Rodeio Completo. Não é improvável que, em breve, Aline faça sua estréia diante das câmaras. Duas emissoras já demonstraram interesse em contratá-la como apresentadora. Realmente, nunca houve uma família como a de Chitãozinho e Xororó.

 

 

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