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O estilo de Paulo Henrique

A última dos arapongas da Agência Brasileira
de Inteligência: eles se interessaram até pelo primogênito do presidente FHC

Policarpo Júnior e Consuelo Dieguez

Oscar Cabral

O empresário João Batista Vinhosa, que recebeu dois arapongas em sua casa: duas horas de conversa e 141 documentos em que atira para todo lado


É cada vez mais evidente que o presidente Fernando Henrique Cardoso, de fato, desconhece as peripécias dos arapongas da Agência Brasileira de Inteligência, que já andaram bisbilhotando a vida de um governador, um procurador e um jornalista. É impossível imaginar que o presidente tenha mandado arapongas xeretar a vida do próprio filho, o sociólogo Paulo Henrique Cardoso. Pois é isso que agentes da Abin estão fazendo há, pelo menos, três meses. Em agosto passado, dois deles foram à residência de um empresário no interior do Rio de Janeiro para colher detalhes de uma denúncia segundo a qual Paulo Henrique usara sua condição de filho do presidente para beneficiar uma multinacional. Em setembro, agentes da Abin estavam eletrizados com outra denúncia, a de que Paulo Henrique estaria comprando uma mansão de 2 milhões de reais em São Paulo. Arregaçaram as mangas para desvendar o caso, até descobrir que a tal mansão não passava de uma casa comum e não ficava em São Paulo, mas numa praia do sul da Bahia.

Em 17 de agosto, dois agentes da Abin, Marcelo e João Alberto, foram à casa do empresário João Batista Pereira Vinhosa em Itaperuna, no interior do Rio. Eles queriam saber que provas o empresário tinha para acusar o primogênito do presidente de ajudar a White Martins, uma multinacional que atua no ramo de materiais químicos. Cordiais, apresentaram-se como agentes da Abin, deram o nome e telefone de contato. O empresário, que há anos atribuiu a falência de sua empresa a práticas supostamente ilegais da White Martins, encheu-se de entusiasmo. Achou que, enfim, a investigação que tanto pedia estava começando. Falou com os arapongas por duas horas e lhes passou 141 documentos, nos quais atira para todos os lados, denuncia repartições e coloca até o nome do filho do presidente no bolo. A certa altura, um dos agentes explicou por que resolveram procurá-lo. "O senhor virou o canhão para o doutor Paulo Henrique."

Selmy Yassuda

Paulo Henrique, filho do presidente, com a revista de sua ONG, que tem anunciantes do governo: os arapongas quiseram saber sua relação com a multinacional White Martins e se interessaram até por uma suposta "operação imobiliária"


Os canhões do empresário foram acionados há muito tempo – mas só foram surtir efeito quando chegaram à agência da bisbilhotagem. Em 6 de janeiro de 1998, Pereira Vinhosa mandou uma carta com suas denúncias ao próprio presidente Fernando Henrique. Como não teve resposta, fez uma nova carta em julho de 1998. Em fevereiro deste ano, escreveu ao presidente pela terceira vez. Nunca recebeu resposta. Milhares de pessoas, pelos mais diferentes motivos, escrevem ao presidente, que não faria outra coisa caso se ocupasse com as reclamações de todo mundo que se acha injustiçado pelo país afora. Mas no mínimo os que o cercam tomaram conhecimento da reclamação. Como não obtivesse resposta, o empresário Pereira Vinhosa escreveu, em março de 2000, ao general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e da Abin. E aí as coisas começariam a andar. Em 17 de agosto, os agentes bateram à porta do empresário, que voltou a falar com eles duas vezes, por telefone. No último contato, sentiu que seu entusiasmo fora exagerado. "Encaminhamos os documentos a quem solicitou", limitou-se a informar o agente Marcelo.

O encarregado direto da Abin, coronel Ariel De Cunto, confirma a visita de seus agentes ao empresário em Itaperuna. "Temos um analista, que também é psicólogo, e ele foi lá apenas fazer uma entrevista." De Cunto ressalva que o agente-psicólogo encaminhou um relatório a Brasília no qual informou que o empresário estava muito revoltado com a injustiça de que se julgava vítima. "Nem levei ao conhecimento do general Alberto Cardoso", diz o diretor da agência de espionagem. O coronel também nega que a Abin tenha feito qualquer xeretagem sobre o filho do presidente. "Nem sabia que ele tinha sido citado nesse caso", afirma De Cunto.

Os fatos apontam em outra direção. Em setembro, agentes do departamento de operações da Abin, em Brasília, alvoroçaram-se com uma suposta denúncia envolvendo o mesmo Paulo Henrique Cardoso. Corria entre um grupo restrito de agentes a informação – nesses termos – sobre uma tal "operação imobiliária que o senhor Paulo Henrique Cardoso realizou recentemente, possivelmente em São Paulo". Era a história da mansão paulista de 2 milhões de reais. A "operação imobiliária" perdeu a graça para os agentes quando se soube que, na verdade, se tratava de um imóvel em nada excepcional na Praia de Trancoso, no litoral sul da Bahia. A casa, no valor estimado de 300.000 reais, está sendo erguida num terreno que Paulo Henrique comprou de frente para o mar, cerca de dez anos atrás. Quem está bancando a construção, até agora, é um amigo de juventude do filho do presidente, Carlos Eduardo Régis Bittencourt, que se mudou para Trancoso e lá se transformou num construtor de sucesso.

Robson Moreira
Eraldo Platz
O primeiro-filho Paulo Henrique com a ex-namorada Thereza Collor (à esq.) e com a atual, a elegantérrima Evangelina Seiler, a Van Van (à dir.): com exceção da fase com Thereza, Paulo Henrique é discreto

Nada há de ilegal nesse tipo de situação, mas ela é incomum e um pouco constrangedora. Pelo seu estilo de vida, Paulo Henrique talvez esteja despertando os instintos protetores dos leais funcionários da Abin, que começam a ver fantasmas na sombra das árvores. No caso de Paulo Henrique, estilo de vida não quer dizer exibição nem excesso. Ele é discreto. Foi casado por dezessete anos com Ana Lúcia Magalhães Pinto, com quem tem duas filhas e de quem se separou logo após a quebra do Banco Nacional, do qual era herdeira. Durante todo esse tempo, Paulo Henrique nem sequer era freqüentador de colunas sociais. Há dois anos, pela primeira vez na vida, começou a atrair a atenção dos fotógrafos quando iniciou um romance com Thereza Collor, a viúva de Pedro Collor. Hoje namora a carioca Evangelina Seiler, discreta como ele.

Nada em seu estilo social é ostensivo, mas há detalhes que não passam despercebidos aos que o conhecem. Paulo Henrique, único filho homem de Fernando Henrique, mantém, aos 46 anos, um padrão de vida superior ao que permitiria o salário de aproximadamente 18.000 reais que recebe como diretor do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), uma ONG formada por 430 grandes empresas. Só para morar de frente para o mar em São Conrado, um dos endereços mais nobres do Rio, ele teria de gastar 10.000 reais de aluguel, mais 1.000 reais de condomínio. Tem um BMW prata, ano 98. Freqüenta os melhores restaurantes do Rio e viaja bastante. Tem muito do que um rico herdeiro costuma ter. Menos a herança.

Mas não faltam amigos a Paulo Henrique, e a história da casa de Trancoso é apenas um exemplo. O apartamento onde mora em São Conrado pertence a Lúcia Almeida Braga, uma das herdeiras do grupo Icatu, que lhe aluga o imóvel por 4 000 reais – menos da metade do valor de mercado. Seu emprego no Cebds foi conseguido graças a empresários aliados do presidente Fernando Henrique Cardoso. O dono de um imóvel pode alugá-lo a quem quiser e por quanto bem entender. Também não há nenhuma questão ética envolvida na oferta de um emprego a alguém. Mas quando de um lado está o filho do presidente da República e, de outro, empresários cujos interesses passam por Brasília, começa a delinear-se uma situação pouco confortável, por mais inocente que possa ser na realidade. O Icatu, por exemplo, tem negócios com a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco do Brasil através da Icatu Hartford, seguradora do grupo. Agora mesmo, a Icatu Hartford é uma das quatro candidatas a comprar a Sasse, a seguradora da CEF. Tome-se também o exemplo do Cebds, poderosa ONG que tem em seus quadros até o vice-presidente, Marco Maciel. Ela faz lobby com o governo federal em nome de 430 empresas. No Cebds, o filho do presidente cuida das relações com o mercado, área de comunicação e contato com as empresas.

É um cartão de visitas invejável. Paulo Henrique convida pessoalmente empresas para participar da ONG e contribuir mensalmente com 2.000 reais. Só com isso já são quase 900.000 reais por mês. Ao captar associados para o Cebds, Paulo Henrique ajuda a engordar a receita da revista da entidade, Brasil Sempre, cujos anunciantes são principalmente os associados – inclusive a estatal Petrobras e a Petros, fundo de pensão de seus funcionários – e até ministérios, como o das Minas e Energia. Cada anúncio de página inteira custa 17.800 reais. Comercialmente, a publicação é um sucesso incomum. Paulo Henrique aparece no expediente da Brasil Sempre como diretor-geral.

Foi forte também a ligação entre Paulo Henrique e Benjamin Steinbruch, há alguns anos. O filho de FHC estava ao lado do empresário na época da privatização da Light, leiloada em maio de 1996. Steinbruch, um dos controladores da CSN, queria que o BNDES participasse do consórcio formado pela Electricité de France e dois grupos americanos, além da própria CSN. Pessoas que então conviviam com o empresário dizem que o filho do presidente contribuiu para que o banco realmente entrasse no grupo. Como se sabe, esse foi o consórcio vencedor. Nessa tempo, Paulo Henrique trabalhava na CSN como coordenador de comunicação. Com a Light privatizada, foi convidado a ir para lá. Nesse momento, empresários próximos ao tucanato resolveram, no entanto, que já era hora de tirá-lo "das garras de Steinbruch" (para usar a expressão de um grande empresário ligado ao PSDB) e levá-lo para o Cebds, comandado pelo ex-presidente da White Martins Félix de Bulhões.

A naturalidade com que o filho do presidente faz contatos com autoridades de Brasília é grande. "Ele não se dá conta de que isso não fica bem para alguém na sua posição, parece um pouco ingênuo", avalia um empresário importante que já foi levado por Paulo Henrique a se encontrar com um ministro. Chegando ao ministério, Paulo Henrique entrou sem se identificar e saiu abrindo pessoalmente todas as portas até chegar à sala do ministro.

O emprego no Cebds é aquele tipo de situação que pareceria um bilhete sorteado na loteria. Paulo Henrique não precisa ficar no trabalho por mais de quatro horas. Nem aparece todos os dias. E, como nos tempos da CSN e Light, só trabalha na parte da tarde. A partir das 10 da manhã, faça chuva ou faça sol, pode ser encontrado caminhando de sunga e camiseta no calçadão da Praia de São Conrado. Vida de príncipe.

 
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