|
|
|
![]() |
|
|||||||||||||
No ano passado, os cinco novos diretores da Funcef, o fundo de pensão de funcionários da Caixa Econômica Federal, assumiram seus cargos e quiseram saber o que os antecessores haviam feito no comando do fundo o quarto maior do país. Encomendaram uma auditoria a uma conceituada empresa do setor, a Deloitte Touche Tohmatsu. O resultado, consolidado em 103 páginas, é confidencial, mas uma cópia chegou ao gabinete do deputado Agnelo Queiroz (PCdoB-DF) no Congresso Nacional. A leitura do documento é de tirar o fôlego. Mostra que a Funcef, uma potência financeira cujo patrimônio chega a 6,8 bilhões de reais, foi administrada até 1998 como uma quitanda de esquina. "Nunca vi algo tão escandaloso", espanta-se o deputado Queiroz. "É urgente que se tomem providências concretas para que o patrimônio dos funcionários da Caixa não seja dilapidado de forma tão irresponsável", completa ele. Os auditores da Deloitte tiveram acesso a múltiplos negócios até 1998. Analisaram 951 operações de compra e venda de ações e constataram que um terço resultou em perda patrimonial. Só em 1998, o prejuízo da Funcef foi monumental. No início daquele ano, conforme mostra o balanço do fundo, seus diretores receberam 5,2 bilhões de reais para administrar. Conseguiram a proeza de fechar o ano com o patrimônio reduzido a 4,9 bilhões, num prejuízo total de 300 milhões de reais. Se os diretores da Funcef tivessem parado de trabalhar durante o ano de 1998 e colocado o capital do fundo na poupança, o investimento mais conservador, a Funcef teria lucrado 750 milhões de reais. Em vez disso, perdeu 300 milhões.
Quem vive fazendo negócios e apostando em ações está sujeito a ter prejuízo, e os fundos de pensão não constituem uma exceção. O caso da Funcef, porém, é pior. Seus investimentos, às vezes na casa dos 100 milhões de reais, são feitos com base em apenas um parecer cuidado que nem o consumidor que vai comprar geladeira deixa de tomar, pesquisando o preço em mais de uma loja. Os bancos com os quais o fundo trabalha são sempre os menores do mercado. Contrata as mais inexpressivas corretoras de valores. Ignora pareceres que desaconselham certos negócios. Acata, como se fosse imparcial, parecer até de empresa ligada ao próprio investimento. Superestima o retorno dos negócios. Esquece de analisar a situação financeira da empresa em que deseja despejar milhões de reais. Inexplicavelmente, compra ações por preços superiores aos praticados no mercado e depois ainda as vende por valores inferiores.
O relatório da Deloitte, que antes de ser finalizado foi submetido à revisão dos próprios diretores do fundo, não informa a que se deve esse desempenho desastroso se à extrema incompetência ou a coisas mais cabeludas. Em setembro de 1998, a Funcef decidiu comprar 20% da empresa Caesar Towers, que pertence à Blue Tree Hotels and Resorts. Pediu duas apreciações de quanto valeriam os 20%. Um parecer, do banco FonteCindam, indicou que o negócio era ótimo e avaliou que os 20% da empresa eram equivalentes a 10,5 milhões de reais. Outro, da consultoria Booz-Allen & Hamilton, foi bem menos otimista. Demonstrou que o retorno era modesto e calculou o valor dos 20% em apenas 3,5 milhões de reais. O que fez a Funcef? Pediu um terceiro parecer? Não, tirou uma média, assim meio por alto, dos dois pareceres e pagou 7 milhões de reais pelos 20% da empresa. Ignorou que um dos avaliadores, o FonteCindam, era contratado pela Caesar Towers para achar comprador na praça. Após dois meses, o investimento virara pó. Valia 137.000 reais. Amadorismo de botequim Os pareceres pedidos pela Funcef são um capítulo à parte. Em 1995, o fundo quis investir na empresa Serra Azul Water Park, que iria construir o parque aquático Wet'n Wild, em São Paulo. Recebeu um parecer dizendo que o negócio podia ser uma fria. Ao que parece, a diretoria não gostou. Seis meses depois, surgiu outro parecer, dessa vez da consultoria Engebê, de Porto Alegre, com números mais otimistas. A ata da reunião da Funcef que discutiu o investimento mostra que alguns diretores se opuseram ao negócio, mas acabaram sendo convencidos do contrário. Entre 1996 e 1998, o fundo enterrou 30 milhões de reais em títulos da Serra Azul. Até 1998, o investimento não rendera um centavo. Hoje, tem retorno inferior ao previsto. "A meu ver, a taxa de retorno não foi calculada profissionalmente", admite o atual presidente da Funcef, Edo Freitas.
A mesma Engebê deu seu parecer sobre investimento em outro parque aquático, em Salvador, também da Wet'n Wild. Projetou uma rentabilidade inferior ao mínimo fixado pela própria Funcef, o que tornava o negócio ruim, mas mesmo assim a transação foi feita. Pouco depois, a Engebê produziu outros dois pareceres sobre o mesmo negócio, nos quais melhorou bastante a expectativa de rentabilidade do parque de Salvador e, assim, deu o respaldo técnico à operação já realizada. André Maciel Zeni, diretor da Engebê, isenta-se de responsabilidade na condução de negócios que viraram uma bomba. "Eles são mal geridos, operados por gente que não é do ramo. É o cunhado do fulano que opera", diz ele. Além dos pareceres, a Funcef ignorava até a realidade. Em 1998, decidiu continuar com ações da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), no Espírito Santo, apesar da queda que vinham tendo. Os papéis caíram 65% em 1998. Prejuízo no ano: 3 milhões de reais. Em meados de 1998, a diretoria resolveu comprar títulos da Ferropasa, holding da Ferronorte e Novoeste. A Funcef tinha ações da Ferronorte desde agosto do ano anterior, sabia que seu valor tinha caído à metade e, ainda assim, comprou mais ações da holding. Prejuízo acumulado até 1998: 27 milhões. No relatório, fica claro que a Funcef tinha incontida preferência por trabalhar com empresas obscuras. Para corretagem, por exemplo, usava os serviços da RMC, que nem aparece na lista das quarenta maiores corretoras do país. O único cartão de visita da empresa era ter entre seus sócios Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil afastado no escândalo das fitas do BNDES, nas quais comparece com um trecho sugestivo ao dizer que o BB agia no "limite da irresponsabilidade". A auditoria mostra que aplicações financeiras foram feitas com um amadorismo de botequim. Em qualquer instituição séria, as ordens de compra e venda de cotas em fundos de investimento costumam ser gravadas ou sacramentadas em papel. É um mecanismo de controle. Na Funcef, as ordens eram feitas verbalmente o que dificulta, mais tarde, a identificação de autores da operação e a apuração de responsabilidades. A Deloitte constatou que a Funcef não tinha normas para nortear seus investimentos. Não havia, também, a elementar análise dos papéis que compunham os fundos nos quais a Funcef apostava.
Cardápio de desastres
Há três casos célebres de negócios nebulosos
feitos pela Funcef. Sabe-se que o fundo enterrou 107 milhões
de reais nas mãos do empresário Ricardo Mansur, que
levou à falência Mappin, Mesbla e Crefisul. Também
se sabe que a Funcef teve prejuízo de 22 milhões em
negócios com o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, que foi dono
do banco Marka. É conhecida a participação
do fundo no hotel Renaissance, em São Paulo, no qual se associou
à construtora Encol, que quebrou dois anos depois. Nesses
casos, a novidade da auditoria é trazer à luz detalhes
desses negócios. Fica-se sabendo, por exemplo, que a Funcef
se associou num negócio de Cacciola baseada nas boas projeções.
E quem fez as projeções? O banco Marka, de Cacciola.
Descobre-se, no relatório, que a Funcef apostou 130 milhões
de reais no hotel Renaissance sem sequer avaliar a saúde
financeira do sócio Encol, no caso. Isso era rotineiro.
Em nove negócios imobiliários, que, somados, chegaram
a quase 300 milhões de reais entre 1994 e 1998, a Funcef
deixou de pedir análise sobre a situação financeira
dos parceiros. É desleixo equivalente ao de duas pessoas
decidirem dividir um apartamento e uma não se preocupar em
saber se a outra terá dinheiro para pagar sua parte no aluguel.
Com esse cardápio de desastres, é até natural que a Funcef esteja, neste momento, batendo à porta dos contribuintes para arrancar 1,6 bilhão de reais. Quer que a Caixa, sua patrocinadora, desembolse essa quantia para cobrir três rombos. Dois foram provocados por mudança nos planos de benefício dos fundos de previdência. O terceiro diz respeito a um acerto antigo reivindicado pela Funcef, que a Caixa concordou em pagar em 1993, mas que foi considerado ilegal pelo Tribunal de Contas da União e hoje está na Justiça. Dos três rombos que a Caixa está disposta a cobrir, VEJA quis saber qual o valor de cada um deles. Questionadas, a direção da Caixa e a da Funcef levaram três dias para responder e informaram apenas que o montante, na verdade, era de 1,8 bilhão de reais, e não 1,6 bilhão. Perguntadas, de novo, sobre o tamanho de cada rombo, não responderam. O desembolso de 1,6 ou 1,8 bilhão de reais chegou a ser discutido numa reunião no dia 13 de novembro, mas a decisão foi adiada para a próxima reunião, talvez em dezembro. Será uma bela oportunidade para analisar o relatório da Deloitte. Lendo-o, talvez Caixa e Funcef descubram alguma forma de cobrir os rombos sem mexer mais uma vez no bolso do contribuinte. Até agora, a única providência que a atual diretoria da Funcef tomou diante do relatório foi enviá-lo para a análise de um jurista criminal. "Preciso que alguém me diga que o que está nos documentos é crime, desvio de conduta, desídia ou nada", diz o presidente Edo Freitas. Pela aparência, pode ser qualquer coisa, menos nada.
Com reportagem de Ana d'Angelo, de Brasília
|
||||||||||||||||||||||
| Copyright
2000 Editora Abril S.A. |
VEJA
on-line | Veja
São Paulo | Veja
Rio | Veja
Recife | Guias
Regionais Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco |