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O mundo está McFrito

Ilustração Pepe Casals


Fui jantar com um sujeito que, algumas semanas atrás, de madrugada, com uma meia de seda sobre o rosto, vandalizou um restaurante McDonald's em Veneza, escrevendo frases de protesto em sua fachada com uma latinha de spray vermelho. Se ele tivesse 20 anos, ainda vá lá. O problema é que tem 40. O McDonald's de Veneza contamina as redondezas com um forte odor de fritura. A prefeitura da cidade já chegou a interditá-lo. Parece que tem algo a ver com a dificuldade de instalar exaustores eficientes em edifícios do século XVI. Mas não foi por causa do odor de fritura que meu conhecido vandalizou o restaurante. Ele estava se manifestando contra a globalização. É sempre assim: o agricultor francês quer manter os subsídios estatais? Destrói um McDonald's. O ecologista quer combater o efeito estufa? Destrói um McDonald's. O estudante universitário quer reclamar do FMI? Destrói um McDonald's. Descobri que existe até um Dia Mundial Anti-McDonald's, o 16 de outubro, quando se organizam piquetes diante dos restaurantes da rede. O McDonald's substituiu a Coca-Cola e a banana da American Fruit Company como símbolo do poder americano. Para se ter uma idéia, um panfleto do Greenpeace, difundido pela internet, acusa-o pela fome no mundo, pelo desmatamento na Amazônia e por todas as doenças cardíacas.

Outra paranóia alimentar do momento é a vaca louca. Primeiro, atingiu a Inglaterra. Agora é a vez da França. As autoridades sanitárias francesas retiraram a carne de vaca do lanche escolar. E os pecuaristas italianos bloquearam as fronteiras para impedir a entrada de carne francesa. Entre as vacas e os humanos, eu torço pelas vacas. Como se sabe, a doença só se espalhou porque, para economizar dinheiro, elas eram alimentadas com farinha animal, feita com restos de outras vacas: cérebro, tripas, ossos. Isso significa que os pecuaristas europeus, ao mesmo tempo que protestavam contra a globalização, transformavam suas vacas em carnívoras. Pior: em canibais, já que elas eram obrigadas a comer membros de sua própria espécie. O governo italiano, para evitar a epidemia da vaca louca, recomenda que se coma carne de vitelo ou de outros animais, como frango, carneiro ou cavalo. Os brasileiros se escandalizam com o fato de que, na Itália, se coma carne de cavalo. Mas é um produto típico da culinária do país. Um produto não-globalizado. O oposto de um Big Mac, por exemplo.

Se a carne de cavalo ajuda a combater os riscos da vaca louca, sempre resta a ameaça do novo Unabomber. Esse novo Unabomber apareceu perto de Veneza. Inicialmente, instalou uma bomba dentro de um ovo e colocou-o de volta na prateleira de um supermercado. O ovo, por sorte, não explodiu. A seguir, o Unabomber minou um tubo de extrato de tomate, que amputou os dedos de uma freguesa. Seu último atentado foi contra um tubo de maionese, desativado a tempo. Comer virou uma espécie de aventura. O maior problema não é esse, porém. O maior problema é que a comida voltou a ser o principal tema de debate político. Não só no Piauí, onde ainda faz algum sentido, mas na Europa também. A humanidade está>

 

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