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Edição 2084

29 de outubro de 2008
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Pancada disfarçada, mas dura

O vilão do thriller político O Fantasma chama-se
Adam Lang – mas é uma caricatura óbvia do
ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair


Moacyr Scliar

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Trecho de O Fantasma

Ex-repórter e comentarista político, o inglês Robert Harris, 51 anos, tornou-se um escritor de sucesso com romances históricos sobre o Império Romano (Pompéia) ou a II Guerra Mundial (Enigma). Em O Fantasma (tradução de Fabiano Morais; Record, 322 páginas; 40 reais), recém-lançado no Brasil, Harris preferiu tratar dos bastidores do poder contemporâneo, que ele conheceu bem como jornalista – e como simpatizante do New Labour, ala que deu novos rumos ao Partido Trabalhista inglês com a eleição de Tony Blair, em 1997. O personagem central do livro é um caviloso ex-primeiro-ministro chamado Adam Lang, responsável pelo envolvimento da Inglaterra na invasão do Iraque. Trata-se obviamente de um roman à clef retratando Tony Blair. Harris desiludiu-se com o ex-primeiro-ministro por sua participação na Guerra do Iraque – e também porque, em 2001, Blair demitiu Peter Mandelson, amigo de Harris, do gabinete.

O título faz referência ao personagem que narra a história, um ghost writer (ghost é "fantasma" em inglês) contratado para escrever a autobiografia de Lang. Ele substitui outro ghost writer, Mike McAra, morto por afogamento. O novo escritor nutre suspeitas (fundamentadas, como depois se constata) sobre a morte de McAra. Ultrapassando as funções para as quais foi contratado, ele começa a investigar o passado de Lang. Vai desvendar uma trama que envolve a CIA e companhias privadas com negócios escusos no Iraque – enredo que Harris conduz em ritmo cada vez mais frenético, até o final imprevisível.

A pergunta que se impõe é: se Harris conhece tão bem os bastidores da política britânica, por que escreveu um romance, e não uma obra de jornalismo? As vantagens da ficção são várias: ela dispensa o trabalho de investigação rigoroso – e cria uma blindagem contra processos judiciais. Também permite que Harris se ampare em uma tradição na qual os escritores ingleses são mestres: o thriller político. Harris não alcança os píncaros do gênero – não é um John le Carré ou um Graham Greene –, mas sabe conduzir uma narrativa absorvente. O Fantasma segue a melhor receita do best-seller: intriga política, detalhes picantes e paixões escusas nas ante-salas do poder. E dá umas pauladas críticas disfarçadas (ainda que claras) em um político que começou com brilho, mas caiu em desgraça na opinião pública.

 



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