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Edição 2084

29 de outubro de 2008
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Cinema
A história que a foto não conta

O documentário Procedimento Operacional Padrão mostra como o exemplo sórdido veio de cima para baixo na prisão de Abu Ghraib


Isabela Boscov

Fotos Reuters e divulgação
UM CONSTRANGIMENTO OU UMA SOLUÇÃO?
A soldada Lynndie England em uma das fotos de Abu Ghraib e no documentário (foto maior): punição que serviu para isolar o comando


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Em 2003, quando vieram à tona as imagens de tortura contra prisioneiros iraquianos no complexo de Abu Ghraib, algo na reação popular americana intrigou o cineasta Errol Morris. O choque inicial, naturalmente, se dirigiu à atitude dos militares nas fotos: o sinal de positivo da soldada Sabrina Harman ao lado de um cadáver com terríveis marcas de agressão, a indiferença da soldada Lynndie England enquanto puxava um detento nu por uma corda, como se ele fosse um cão. Mas, conforme ia se apurando, Sabrina nada tivera a ver com a morte do prisioneiro, e Lynndie, uma pracinha de 20 anos, fazia qualquer coisa que lhe mandassem fazer. Coube a elas e mais uns poucos outros praças e sargentos, entretanto, passar à notoriedade como os monstros de Abu Ghraib. E aí, na visão de Morris, a reação do público se esgotou: na satisfação por os culpados terem sido condenados – ainda que as evidências apontassem haver outros culpados, e de patentes bem mais altas. "Era como se as pessoas vissem nas fotos um criminoso, mas não o crime em si", disse o diretor. A história que ficou de fora da moldura dessas imagens é a que Morris conta no documentário Procedimento Operacional Padrão (Standard Operating Procedure, Estados Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país. O diretor entrevista participantes do escândalo, analisa centenas de fotos tiradas pelos próprios soldados (ainda mais chocantes do que as que se conhecem) e reconstitui episódios. Oferece, assim, ampla oportunidade para que se intua o clima infernal reinante na prisão tomada pelos americanos, na qual o ditador Saddam Hussein antes executara algo como 30 000 desafetos.

O título vem da classificação dada pelos investigadores militares aos atos que se vêem nas fotos, se criminosos ou se parte dos métodos aceitos para arrancar confissões. Aliás, cenas como a do preso equilibrado sobre caixotes, com um capuz na cabeça e fios elétricos amarrados ao corpo, caíram nessa última categoria: como os fios estavam desligados, não havia crime, embora o preso achasse que seria eletrocutado. Antes de chegar a essa explicação, porém, o diretor conta como o comando de Abu Ghraib foi seqüestrado de sua responsável legítima, a general-de-brigada Janis Karpinski (que faz um desabafo indignado), e mostra como a soldadesca copiou o exemplo dos agentes de inteligência militar que tomaram o controle da prisão. Narra, ainda, como essa soldadesca foi encarregada de "amaciar" os presos para os interrogatórios. Isso é o que se vê nas fotos. A violência mais extrema aconteceu longe de qualquer câmera e foi perpetrada por outros que não os subalternos cujas sentenças serviram para isolar os superiores de maiores investigações, e de qualquer punição.

Muito disso já se sabia. Mas Morris, um cineasta investigativo de imenso prestígio (em um de seus filmes, identificou o verdadeiro autor de um crime e assim tirou do corredor da morte um inocente), capta aqui as reações conflitantes dos homens e mulheres retratados nas fotos ao drama do qual tomaram parte. Capta também sua resignação. Falando longamente ao diretor, Lynndie e Sabrina mostram entender que só num primeiro momento constituíram de fato um embaraço: seu verdadeiro papel nessa história foi o de solução.



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