Cinema
A história que a foto não conta
O
documentário Procedimento Operacional Padrão mostra
como o exemplo sórdido veio de cima para baixo na prisão de Abu
Ghraib

Isabela Boscov
Fotos Reuters e divulgação
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UM
CONSTRANGIMENTO OU UMA SOLUÇÃO? A
soldada Lynndie England em uma das fotos de Abu Ghraib e no documentário
(foto maior): punição que serviu para isolar o comando |
Em 2003, quando vieram à
tona as imagens de tortura contra prisioneiros iraquianos no complexo de Abu Ghraib,
algo na reação popular americana intrigou o cineasta Errol Morris.
O choque inicial, naturalmente, se dirigiu à atitude dos militares nas
fotos: o sinal de positivo da soldada Sabrina Harman ao lado de um cadáver
com terríveis marcas de agressão, a indiferença da soldada
Lynndie England enquanto puxava um detento nu por uma corda, como se ele fosse
um cão. Mas, conforme ia se apurando, Sabrina nada tivera a ver com a morte
do prisioneiro, e Lynndie, uma pracinha de 20 anos, fazia qualquer coisa que lhe
mandassem fazer. Coube a elas e mais uns poucos outros praças e sargentos,
entretanto, passar à notoriedade como os monstros de Abu Ghraib. E aí,
na visão de Morris, a reação do público se esgotou:
na satisfação por os culpados terem sido condenados ainda
que as evidências apontassem haver outros culpados, e de patentes bem mais
altas. "Era como se as pessoas vissem nas fotos um criminoso, mas não
o crime em si", disse o diretor. A história que ficou de fora da moldura
dessas imagens é a que Morris conta no documentário Procedimento
Operacional Padrão (Standard Operating Procedure, Estados
Unidos, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país. O diretor
entrevista participantes do escândalo, analisa centenas de fotos tiradas
pelos próprios soldados (ainda mais chocantes do que as que se conhecem)
e reconstitui episódios. Oferece, assim, ampla oportunidade para que se
intua o clima infernal reinante na prisão tomada pelos americanos, na qual
o ditador Saddam Hussein antes executara algo como 30 000 desafetos.
O
título vem da classificação dada pelos investigadores militares
aos atos que se vêem nas fotos, se criminosos ou se parte dos métodos
aceitos para arrancar confissões. Aliás, cenas como a do preso equilibrado
sobre caixotes, com um capuz na cabeça e fios elétricos amarrados
ao corpo, caíram nessa última categoria: como os fios estavam desligados,
não havia crime, embora o preso achasse que seria eletrocutado. Antes de
chegar a essa explicação, porém, o diretor conta como o comando
de Abu Ghraib foi seqüestrado de sua responsável legítima,
a general-de-brigada Janis Karpinski (que faz um desabafo indignado), e mostra
como a soldadesca copiou o exemplo dos agentes de inteligência militar que
tomaram o controle da prisão. Narra, ainda, como essa soldadesca foi encarregada
de "amaciar" os presos para os interrogatórios. Isso é
o que se vê nas fotos. A violência mais extrema aconteceu longe de
qualquer câmera e foi perpetrada por outros que não os subalternos
cujas sentenças serviram para isolar os superiores de maiores investigações,
e de qualquer punição.
Muito
disso já se sabia. Mas Morris, um cineasta investigativo de imenso prestígio
(em um de seus filmes, identificou o verdadeiro autor de um crime e assim tirou
do corredor da morte um inocente), capta aqui as reações conflitantes
dos homens e mulheres retratados nas fotos ao drama do qual tomaram parte. Capta
também sua resignação. Falando longamente ao diretor, Lynndie
e Sabrina mostram entender que só num primeiro momento constituíram
de fato um embaraço: seu verdadeiro papel nessa história foi o de
solução.