Entrevista Zeinal
Bava
Imune à crise
| Divulgação
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"Da
mesma maneira que o celular pré-pago democratizou a telefonia no Brasil, o investimento
que vem sendo feito na rede de terceira geração vai popularizar significativamente
o acesso à internet" |
A
crise dos mercados financeiros mundiais não atinge o setor de telecomunicações
no Brasil. Ao menos não produz o mesmo efeito destruidor verificado em
outros períodos difíceis, como na desvalorização do
real em 1999 e na incerteza eleitoral de 2002. A análise é de Zeinal
Bava, presidente mundial da Portugal Telecom, empresa que obtém 40% de
seu faturamento do mercado brasileiro. Segundo Bava, trata-se de um setor naturalmente
imune à crise: "A comunicação faz parte do dia-a-dia
das pessoas, com ou sem crise". Bava, que assumiu a presidência da
empresa no início do ano passado, diz que o maior desafio do setor está
em adaptar os produtos ao avanço tecnológico e defender-se dos novos
competidores. "As fronteiras desse negócio esvaem-se muito rapidamente,
e as ameaças vêm de onde menos se imagina. Quem diria, alguns anos
atrás, que a Apple ou o Google disputariam parte do faturamento das empresas
de telefonia?", disse ele ao editor Giuliano Guandalini.
Como
a crise financeira afeta as empresas de telefonia?
O mundo não vai
parar de se comunicar. A comunicação faz parte do dia-a-dia das
pessoas, com ou sem crise. Por isso, nosso setor é naturalmente defensivo.
Suas empresas possuem uma base de clientes ampla, que permite uma fonte de receita
constante. Também temos a capacidade de ajustar o nível de investimentos
muito rapidamente ao contrário de outras indústrias, como
a de petróleo ou a siderúrgica. Nossos desafios, na verdade, vão
além da crise atual.
Quais
são esses desafios?
Nosso setor vive em constante mutação.
As fronteiras desse negócio esvaem-se muito rapidamente, e as ameaças
vêm de onde menos se imagina. Quem diria, alguns anos atrás, que
a Apple ou o Google disputariam parte do faturamento das empresas de telefonia?
Precisamos ser bastante ágeis, incorporando novas tecnologias rapidamente.
O fato de termos presença em mercados de rápido crescimento, como
o Brasil e a África, também ajuda muito. A diversificação
de nossos negócios reduz os riscos operacionais. Na África, a penetração
dos celulares não passa de 30% da população. Nossas grandes
apostas são Angola e Moçambique, que fazem no momento uma verdadeira
revolução econômica e na distribuição de renda.
Que peso tem o Brasil nos negócios
da empresa?
A economia brasileira é bastante robusta e vai contribuir
positivamente para nossos resultados. Hoje, 55% do faturamento da empresa vem
de Portugal e 40%, do Brasil. Quando chegamos ao Brasil, em 1998, apenas 5% da
população tinha celular. Hoje, o acesso chega a 70% das pessoas.
A maior parte delas possui uma linha pré-paga, sistema no qual a Portugal
Telecom foi pioneira no mundo.
Em
um momento de turbulência, como o atual, não seria lógico
que grandes companhias reduzissem seus investimentos?
Com relação
especificamente ao Brasil, nosso investimento é a longo prazo. Já
enfrentamos momentos mais difíceis no país, em 1999 e em 2002. Entramos
no Brasil em 1998, no leilão da Telesp Celular. Seis meses depois, houve
uma desvalorização expressiva do real, o que afetou bastante nossos
lucros. Em 2002, às vésperas da eleição do presidente
Lula, ocorreu uma nova crise severa no país. Passamos por bons e maus momentos.
Mas nunca deixamos de investir no Brasil.
Em
cinco anos, o Brasil vai se tornar um mercado maduro em telefonia celular. Qual
será a estratégia depois disso?
A disponibilidade de banda
larga de telefonia no Brasil ainda é restrita apenas 4% das linhas,
contra até 40% em países europeus. Da mesma maneira que o celular
pré-pago democratizou a telefonia no país, o investimento que vem
sendo feito na terceira geração vai democratizar significativamente
o acesso à internet. Os celulares são mais baratos do que os computadores
e mais fáceis de usar. Isso me leva a crer que a terceira geração
fará o Brasil dar um segundo salto no uso de transmissão de dados.
Mas os smartphones (aparelhos que permitem
usar a internet) ainda são muito caros. Quando os preços vão
diminuir?
Antes de popularizar esses aparelhos, é preciso fazê-los
funcionar adequadamente. Nada mais frustrante do que ter um ótimo celular
com sinal deficiente. Por esse motivo, acima de tudo, devemos assegurar uma boa
cobertura. Dito isso, os smartphones são realmente caros, e não
apenas no Brasil. Além do custo do aparelho, existem as tarifas. Isso faz
com que sejam produtos de elite. Mas essa situação tende a mudar
em breve. A partir de 2009, já deveremos ter na Europa smartphones a 200
dólares, sem considerar eventuais subsídios. Nessa faixa de preço,
já se consegue chegar à classe B e a parte da C. Mas, sem dúvida,
a popularização só será possível com a queda
dos preços.
O crédito
ficou mais caro em todo o mundo. Isso levará a Portugal Telecom a postergar
investimentos?
Temos uma dívida de longo prazo, com vencimento médio
de cinco anos, e um custo baixo no pagamento de juros. O resultado é que
dependemos pouco de financiamento de curto prazo e podemos preservar os investimentos
na Europa, no Brasil e na África. Por termos sido conservadores na gestão
financeira, podemos hoje aproveitar esse período de ameaça para
crescer e conquistar uma fatia maior do mercado. Mas, obviamente, ficamos mais
rigorosos na aprovação de novos projetos.
Quais
são os requisitos para o país continuar atraindo investimentos no
setor de telecomunicações?
Como no caso de qualquer outra
nação, há três condições absolutamente
essenciais para atrair capital estrangeiro: estabilidade política, previsibilidade
regulatória e potencial de crescimento. O Brasil está hoje numa
situação ímpar nesses três pontos e possui as condições
para atrair mais investimentos. Se o governo preservar esses aspectos, não
tenho dúvida de que os consumidores do país só terão
a se beneficiar.