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Edição 2084

29 de outubro de 2008
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Diplomacia
Uma política externa sem dentes

Pesquisa revela que os brasileiros apóiam
a abertura econômica e defendem mais ênfase
nas negociações comerciais


Giuliano Guandalini

Andy Wong/AP

NOVA PASSARELA DO COMÉRCIO
Desfile de moda na Muralha da China: mercado estratégico para a política externa brasileira

O Brasil passou três décadas fechado ao mundo, entre os anos 60 e 90 do século passado. O objetivo era cortar a dependência em relação aos países desenvolvidos e incentivar o crescimento autóctone. A indústria nacional era protegida, e só se importava o estritamente necessário. Tal modelo, a despeito de alguma euforia inicial, ruiu estrepitosamente no início dos anos 80, lançando o país na tormenta da crise da dívida externa e no caos da hiperinflação. O resultado foi um refluxo da inserção internacional. A reabertura só veio após a redemocratização, o que atraiu investimentos e elevou a produtividade. O avanço, no entanto, foi e continua lento. O Brasil segue como um dos países mais fechados do mundo, segundo todos os rankings de abertura comercial disponíveis. Enquanto o resto do planeta ascende de elevador, o Brasil sobe de escadas, passo a passo. Isso, de uma forma ou de outra, já era conhecido. A novidade é que os brasileiros querem uma integração mais rápida com o mundo, e não encontra respaldo na diplomacia. "Consolidou-se a avaliação de que o Brasil possui competência para se internacionalizar e sair ganhando com isso", diz Amaury de Souza, autor do estudo "A agenda internacional do Brasil revisitada", que será divulgado na próxima semana.

O trabalho foi produzido para o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) com o patrocínio da Agência Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação. A pesquisa foi feita por meio de entrevistas, que colheram a opinião de aproximadamente 150 pessoas ligadas, de alguma maneira, à política externa brasileira – ministros, políticos, embaixadores, empresários, militares, economistas, negociadores e demais especialistas que trabalham nessa área. Todos responderam a questionários com perguntas sobre negociações comerciais, integração regional, segurança e meio ambiente. Os resultados são alvissareiros. Indagados em 2001 sobre os efeitos da abertura comercial, 67% dos pesquisados diziam que ela beneficiava o país. Hoje, essa é a opinião de nove em cada dez entrevistados (88%).

Segundo Amaury de Souza, a pesquisa expõe um rompimento da coalizão interna avessa ao mercado externo, revelando uma dicotomia entre uma população cada vez mais simpática à abertura e um governo incapaz de fazer uma nova rodada de redução de suas tarifas aduaneiras. "Temos uma diplomacia sem dentes, não condizente com o desejo da maioria da sociedade de integrar mais rapidamente a economia brasileira à mundial", diz ele. Nesse sentido, menos de um terço (31%) dos entrevistados apóia a estratégia do Itamaraty de priorizar as negociações com os países em desenvolvimento, entre eles os vizinhos da América do Sul, as nações africanas, a China e a Índia. Quatro em cada dez pessoas ouvidas (41%) consideram um falso dilema priorizar um grupo de países ou outro e preferem que o governo atue nas duas frentes. Já o Mercosul é avaliado com ceticismo crescente (78% o vêem como favorável ao país hoje, contra 91% sete anos atrás).

Reuters

OS BONS COMPANHEIROS
Chávez (à dir.) em reunião com Vladimir Putin na Rússia, para discutir a compra de armamentos: vizinho perigoso

A quase totalidade dos entrevistados (97%) considera que o Brasil deve se envolver mais em questões internacionais. Segundo Amaury de Souza, os entrevistados querem mais atenção às questões que envolvem a Amazônia, seja pelo fator da segurança de sua fronteira, seja por razões ambientais. No que se refere à segurança, a maioria dos entrevistados aponta o tráfico de drogas e o de armas como duas das maiores ameaças externas ao país. Afirma o cientista político: "O Brasil demorou muitos anos para reconhecer a sua fronteira norte como um ponto vulnerável e sob ameaça. Historicamente, todas as preocupações se concentravam na divisa com a Argentina, ao sul".

Nesse aspecto, preocupa, segundo os entrevistados, a militarização de países da região, sobretudo a Venezuela. O bufão Hugo Chávez, encharcado pelo dinheiro do petróleo, está investindo bilhões de dólares no fortalecimento militar e é hoje um dos principais clientes da indústria bélica russa. Recentemente, Chávez acertou a compra de 24 caças Sukhoi-30, por 4,4 bilhões de dólares. No coroamento dessa aproximação, a Marinha de ambos os países deve fazer uma operação conjunta em novembro, no Caribe, numa afronta clara aos Estados Unidos. A Rússia planeja enviar um dos maiores navios de combate do mundo, o cruzador nuclear Pedro, o Grande. Para Souza, essa escalada armamentista num país fronteiriço obriga o Brasil a se fortalecer militarmente e não perder sua hegemonia no bloco: "Trata-se de uma ilusão imaginar que todos os nossos vizinhos são pacíficos e não representam para nós nenhuma ameaça militar".

Sob o governo Lula, o Brasil atuou com uma voz histriônica no teatro das relações internacionais. Mas, deduz-se da pesquisa, o barulho não reverteu necessariamente em vantagens comerciais e políticas para o país. A política externa brasileira precisa ainda amadurecer. É o que se espera de um país que se pretende grande e que reivindica para si um papel de líder regional e internacional.

 



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