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Edição 2084

29 de outubro de 2008
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Economia
A meta é crescer pelo
menos 2,5% em 2009

O governo acorda para a crise, adota novas medidas
preventivas e admite rever a sua gastança. A ação coordenada
tem boas chances de garantir um PIB positivo no próximo ano


Cíntia Borsato


Fotos Celso Junior/AE e Marcelo Justo/Folha Imagem
TRABALHO CONJUNTO
Mantega, da Fazenda, e Henrique Meirelles, presidente do BC: ações para preservar a atividade econômica

Os mercados tiveram mais uma semana de sangria. No Brasil, a Bovespa recuou ao patamar mais baixo desde 2005 e a cotação do dólar permaneceu volátil, afetando a capacidade de planejamento das empresas. A evaporação do crédito internacional é agora a questão mais preocupante, pois nem mesmo um sistema bancário sólido e sadio como o brasileiro consegue suprir as necessidades de financiamento das empresas. A seguir, as questões fundamentais para entender a crise.

Por que o dólar se fortalece em todo o mundo? Desde que a turbulência se agravou, há mais de um mês, o dólar ganhou valor na comparação com praticamente todas as moedas. Isso ocorre porque os investidores americanos reduziram as suas posições nos mercados estrangeiros e repatriaram os seus dólares. Empresas e bancos precisam cobrir prejuízos, sacando os recursos de que dispõem ao redor do globo. Os investidores também optam por deixar o dinheiro estacionado nos seguros títulos do Tesouro americano. No Brasil, existe ainda outro fator a pesar sobre o câmbio: a queda nos preços das mercadorias básicas que exportamos, como o ferro e a soja. Quando esses preços sobem, as exportações geram bilhões de dólares e fortalecem o real. Agora o saldo da balança caiu. O Banco Central ganhou autorização para trocar reais por outras moedas diretamente com bancos centrais estrangeiros. É mais uma medida preventiva que evita sustos e mais volatilidade.

Se a crise é externa, por que a bolsa brasileira está em queda? Os fatores que explicam a desvalorização das ações são similares aos que levaram à alta do dólar. Os investidores estrangeiros, que respondem por um terço dos negócios na Bovespa, já venderam o equivalente a 10 bilhões de dólares neste ano. Ao mesmo tempo, o Brasil sente os efeitos da desvalorização no preço das mercadorias básicas. Metade do valor dos papéis negociados na Bovespa é de empresas relacionadas à produção dessas mercadorias – petróleo, minério de ferro, aço e grãos. A perspectiva de recessão mundial diminui a demanda por esses produtos, reduzindo as projeções de lucro das companhias. Um exemplo é o petróleo. Quando a cotação do barril havia atingido 140 dólares, as ações preferenciais da Petrobras chegaram a valer 40 reais; agora, com o barril abaixo de 70 dólares, os papéis da empresa caíram à metade disso.

Por que tantas empresas brasileiras perderam dinheiro com a alta do dólar? Cerca de 200 empresas tiveram perdas com apostas erradas no câmbio, um prejuízo estimado em 20 bilhões de dólares. Na fase de crédito farto e dólar barato, as exportadoras fizeram contratos com grandes bancos internacionais em que se efetuava uma transação dupla: elas tomavam dinheiro emprestado a juros baixos desde que fizessem, conjuntamente, uma operação de aposta no preço futuro do dólar. Se a cotação da moeda americana caísse, as empresas ganhariam. Mas, se o dólar disparasse, haveria o risco de perdas expressivas – muitas vezes superiores aos possíveis ganhos (veja o quadro). A crise externa fez o dólar subir, levando a cotação para mais de 2,30 reais. Vão se passar alguns meses até que todas as empresas que fizeram essa aposta errada voltem a se equilibrar.

A inflação subirá no próximo ano? Alimentos, minério de ferro e petróleo vão ficar mais baratos, e o consumo deve se desacelerar por causa do encarecimento no crédito. O resultado é que a economia deverá deixar de se expandir acima da capacidade produtiva do país, reduzindo a pressão sobre os preços. Diante dessa nova conjuntura, existe uma probabilidade elevada de o BC interromper, na reunião desta semana, a seqüência de aumentos na taxa básica de juros que vinha executando desde abril (a Selic está em 13,75% ao ano). Mas há um foco de incerteza: a cotação do dólar. Se a moeda americana continuar em alta, o preço dos insumos dolarizados ficará mais alto, o que pressionará a inflação.

Haverá recessão no Brasil? A demanda externa retraída tornou menor a encomenda de produtos exportados, e ocorre uma redução do ingresso de investimentos internacionais. O efeito prático é que a economia vai se desacelerar. A situação mais preocupante, no entanto, seria uma drástica diminuição na concessão de crédito, motivada por uma crise bancária. O governo vem adotando medidas para reduzir esse risco. Mas não se prevê uma recessão no Brasil, como em outros países. A maioria das estimativas indica que o PIB vai crescer de 2,5% a 3% em 2009.


Marcio Fernandes/AE
EUFORIA ABALADA
Os juros subiram e o crédito ficou mais difícil: freada no ritmo do PIB

Os bancos brasileiros correm perigo? O sistema financeiro brasileiro é mais sólido, sadio, racional e fiscalizado do que o americano. Um banco brasileiro pode emprestar no máximo nove vezes seu capital – uma exigência do BC que é mais rigorosa que a prescrita pelo BIS, o banco central dos bancos centrais. Os bancos comerciais americanos, antes da crise, emprestavam até vinte vezes seu capital. Nos bancos de investimento, entidades que eram menos controladas, esse indicador chegou à insustentável marca de quarenta vezes. No Brasil, o BC controla também os bancos de investimento. Mas muitos bancos brasileiros pequenos estão enfrentando problemas. Eles se fiaram demais nas linhas de crédito internacional e elas secaram. Para evitar o risco de uma crise, o governo autorizou a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil a comprar bancos privados em dificuldades incontornáveis.

Qual será o impacto no emprego? Até aqui, os empregos e os salários não foram afetados. Números divulgados na semana passada pelo IBGE revelaram que a taxa de desemprego ficou estável em 7,6% em setembro, nível historicamente baixo, e a renda média cresceu 6,4% em relação a igual período de 2007. As incertezas com relação ao futuro, no entanto, já fizeram com que empresas adiassem planos de investimento e contratações. O prolongamento da crise internacional por anos a fio pode ter impacto nos setores da economia mais dependentes do crédito, como a construção e a indústria automobilística – justamente dois dos que mais dão empregos.

Como o governo pode mitigar os efeitos da crise? O governo optou pela prevenção e pelo rápido aprendizado do que está sendo feito nos centros mais atingidos pela crise. De que maneira? Fazendo como qualquer família que passa por um momento de dificuldade financeira: revendo o orçamento e preservando somente os gastos essenciais. A boa notícia é que o governo parece ter entendido que, se ele é a solução, também faz parte dos problemas. Na semana passada, Lula acenou com um corte na gastança: "Não posso assumir o compromisso de que, se houver uma crise econômica que abale o Brasil, a gente vá manter todo o dinheiro de todos os ministérios como está hoje. Se a União arrecadar menos, vai ter menos dinheiro para todo mundo". É uma atitude adequada aos tempos que vivemos.



 
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