|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O Muro da Vergonha
o retorno
Ironia
das ironias: é por iniciativa
de Israel, com o apoio dos EUA,
que o sinistro adereço volta à cena
A Assembléia-Geral das Nações Unidas aprovou
na semana passada, por 144 votos a 4, resolução que
condena Israel pela iniciativa de construir um muro separando seu
território dos territórios palestinos. Primeiro aspecto
a destacar é o resultado da votação, 144 contra
4 placar de jogo entre time de basquete americano e o Íbis,
o clube pernambucano que, se tem o pior time de futebol do mundo,
conforme alardeia, há de ter também o pior time de
basquete. Segundo aspecto é a identidade dos quatro que votaram
contra. Entre eles estavam, naturalmente, o próprio Israel
e seu aliado e patrocinador, os Estados Unidos. Os outros dois chamam
mais a atenção: Ilhas Marshall e Micronésia.
Sim, nada menos que as portentosas Ilhas Marshall (população:
52 mil habitantes) e Micronésia (população:
540 mil habitantes). O fato de Israel e EUA não terem encontrado
para a ocasião outros aliados senão os governos de
Dalap-Uliga-Darrit (a capital das Ilhas Marshall) e de Palikir (capital
da Micronésia) diz algo da popularidade de sua causa. Terceiro
aspecto da questão é o valor efetivo da resolução,
que o leitor já sabe qual é: zero. O vice-primeiro-ministro
de Israel, Ehud Olmert, ao lhe perguntarem se seu país cumpriria
a determinação da assembléia-geral, respondeu:
"Vocês têm senso de humor..."
Claro que Israel continuará a construir o muro. Uma resolução
da assembléia-geral desse teor, para ser efetiva, precisaria
ser aprovada pelo Conselho de Segurança. Ora, no Conselho
de Segurança os EUA têm poder de veto. Mesmo que, por
absurdo, os americanos deixassem a resolução passar,
ainda assim, pode-se apostar, Israel não obedeceria. Resoluções
do Conselho contra Israel foram desobedecidas no passado. E assim,
até onde a vista alcança, pode-se prever um futuro
sem impedimentos ao muro concebido por esse campeão da truculência,
entre os líderes contemporâneos, que é o primeiro-ministro
israelense Ariel Sharon um muro cuja construção
avança, de concreto em alguns pontos, em outros substituído
por cercas de arame farpado, freqüentemente invadindo o que
em tese é território palestino, às vezes separando
as pessoas do hospital mais próximo, outras seu lugar de
residência do local de trabalho.
Logo Israel foi fazer um muro, e logo os EUA foram apoiá-lo
nessa empreitada! Eis aí uma escandalosa ironia da história.
Muro é algo associado a gueto o espaço delimitado
onde, como bois num curral, os judeus eram confinados, em diferentes
cidades, por imposição do anti-semitismo que reinou
ao longo de tantos séculos de estupidez. Quem viu o mais
recente filme de Roman Polanski, O Pianista, teve noção
viva do que era o gueto, expressão mais física possível
de discriminação e sede de crueldades inomináveis
bem como do muro que o continha. Há algo de indecoroso
no fato de a idéia de muro, a sombria idéia de muro,
que não pode deixar de estar presente nos recônditos
mais sofridos da memória judaica, ter sido assacada como
solução para os atuais problemas israelenses. Para
quem ache forte demais o "indecoroso", desconte-se para "mau gosto".
É no mínimo de mau gosto um líder judeu usar,
contra outro povo, o recurso do confinamento, do isolamento, da
proibição de passagem, da exclusão.
Quanto aos EUA, comecemos por relativizar sua posição.
Não é que apóiem abertamente o muro. O presidente
George W. Bush já fez restrições à iniciativa.
Mas, como sempre, quando se trata de Israel, as condenações
americanas expressam-se de modo tão suave que soam antes
a encorajamento. Na votação na assembléia da
ONU, a empreitada israelense na prática acabou por receber
o aval do governo americano. Eis então os EUA investidos
da condição de defensores de um muro, eles que, até
outro dia, e ao longo de todos os anos da Guerra Fria, foram o adversário
número 1 do mais célebre muro então existente,
o de Berlim, também chamado de Muro da Vergonha. "Ponham
abaixo esse muro", dizia o presidente Ronald Reagan. Antes dele,
e num dos momentos em que a Guerra Fria ameaçou virar guerra
de verdade, talvez nuclear, envolvendo as duas superpotências
do período, o presidente John Kennedy organizou uma ponte
aérea para tirar Berlim do sufoco. Ironia suprema, os EUA
agora são a favor de um muro.
Restam duas constatações. A primeira é que
muros, além de ignominiosos, não resolvem. O de Berlim
veio abaixo como castelo de cartas. Muito antes a China construíra
toda uma muralha e nem por isso deixou de ser um dos países
mais invadidos e vilipendiados do mundo. A segunda constatação
é que nem os israelenses acabarão com os palestinos
nem os palestinos com os israelenses. Tampouco um conseguirá
obrigar o outro a mudar para longe. Os dois estão condenados
a conviver, e mais dia menos dia terão de se acertar para
que isso transcorra de forma pacífica. Por que então
não começar logo? Por que não erguer pontes,
abrir portas e rasgar janelas, em vez de investir nesse mais sinistro
dos adereços arquitetônicos, que é o muro?
|