Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O Muro da Vergonha
– o retorno

Ironia das ironias: é por iniciativa
de Israel, com o apoio dos EUA,
que o sinistro adereço volta à cena

A Assembléia-Geral das Nações Unidas aprovou na semana passada, por 144 votos a 4, resolução que condena Israel pela iniciativa de construir um muro separando seu território dos territórios palestinos. Primeiro aspecto a destacar é o resultado da votação, 144 contra 4 – placar de jogo entre time de basquete americano e o Íbis, o clube pernambucano que, se tem o pior time de futebol do mundo, conforme alardeia, há de ter também o pior time de basquete. Segundo aspecto é a identidade dos quatro que votaram contra. Entre eles estavam, naturalmente, o próprio Israel e seu aliado e patrocinador, os Estados Unidos. Os outros dois chamam mais a atenção: Ilhas Marshall e Micronésia. Sim, nada menos que as portentosas Ilhas Marshall (população: 52 mil habitantes) e Micronésia (população: 540 mil habitantes). O fato de Israel e EUA não terem encontrado para a ocasião outros aliados senão os governos de Dalap-Uliga-Darrit (a capital das Ilhas Marshall) e de Palikir (capital da Micronésia) diz algo da popularidade de sua causa. Terceiro aspecto da questão é o valor efetivo da resolução, que o leitor já sabe qual é: zero. O vice-primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, ao lhe perguntarem se seu país cumpriria a determinação da assembléia-geral, respondeu: "Vocês têm senso de humor..."

Claro que Israel continuará a construir o muro. Uma resolução da assembléia-geral desse teor, para ser efetiva, precisaria ser aprovada pelo Conselho de Segurança. Ora, no Conselho de Segurança os EUA têm poder de veto. Mesmo que, por absurdo, os americanos deixassem a resolução passar, ainda assim, pode-se apostar, Israel não obedeceria. Resoluções do Conselho contra Israel foram desobedecidas no passado. E assim, até onde a vista alcança, pode-se prever um futuro sem impedimentos ao muro concebido por esse campeão da truculência, entre os líderes contemporâneos, que é o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon – um muro cuja construção avança, de concreto em alguns pontos, em outros substituído por cercas de arame farpado, freqüentemente invadindo o que em tese é território palestino, às vezes separando as pessoas do hospital mais próximo, outras seu lugar de residência do local de trabalho.

Logo Israel foi fazer um muro, e logo os EUA foram apoiá-lo nessa empreitada! Eis aí uma escandalosa ironia da história. Muro é algo associado a gueto – o espaço delimitado onde, como bois num curral, os judeus eram confinados, em diferentes cidades, por imposição do anti-semitismo que reinou ao longo de tantos séculos de estupidez. Quem viu o mais recente filme de Roman Polanski, O Pianista, teve noção viva do que era o gueto, expressão mais física possível de discriminação e sede de crueldades inomináveis – bem como do muro que o continha. Há algo de indecoroso no fato de a idéia de muro, a sombria idéia de muro, que não pode deixar de estar presente nos recônditos mais sofridos da memória judaica, ter sido assacada como solução para os atuais problemas israelenses. Para quem ache forte demais o "indecoroso", desconte-se para "mau gosto". É no mínimo de mau gosto um líder judeu usar, contra outro povo, o recurso do confinamento, do isolamento, da proibição de passagem, da exclusão.

Quanto aos EUA, comecemos por relativizar sua posição. Não é que apóiem abertamente o muro. O presidente George W. Bush já fez restrições à iniciativa. Mas, como sempre, quando se trata de Israel, as condenações americanas expressam-se de modo tão suave que soam antes a encorajamento. Na votação na assembléia da ONU, a empreitada israelense na prática acabou por receber o aval do governo americano. Eis então os EUA investidos da condição de defensores de um muro, eles que, até outro dia, e ao longo de todos os anos da Guerra Fria, foram o adversário número 1 do mais célebre muro então existente, o de Berlim, também chamado de Muro da Vergonha. "Ponham abaixo esse muro", dizia o presidente Ronald Reagan. Antes dele, e num dos momentos em que a Guerra Fria ameaçou virar guerra de verdade, talvez nuclear, envolvendo as duas superpotências do período, o presidente John Kennedy organizou uma ponte aérea para tirar Berlim do sufoco. Ironia suprema, os EUA agora são a favor de um muro.

Restam duas constatações. A primeira é que muros, além de ignominiosos, não resolvem. O de Berlim veio abaixo como castelo de cartas. Muito antes a China construíra toda uma muralha e nem por isso deixou de ser um dos países mais invadidos e vilipendiados do mundo. A segunda constatação é que nem os israelenses acabarão com os palestinos nem os palestinos com os israelenses. Tampouco um conseguirá obrigar o outro a mudar para longe. Os dois estão condenados a conviver, e mais dia menos dia terão de se acertar para que isso transcorra de forma pacífica. Por que então não começar logo? Por que não erguer pontes, abrir portas e rasgar janelas, em vez de investir nesse mais sinistro dos adereços arquitetônicos, que é o muro?

 
 
 
 
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