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Especial
As
verdades
e as mentiras
O
que é preciso saber para
acompanhar a discussão sobre
os riscos da ingestão de alimentos
transgênicos sem se deixar levar
por ataques e defesas apaixonados

Diogo
Schelp
AFP
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O
PAVOR PROVOCADO PELA VACA LOUCA
As acusações feitas aos alimentos transgênicos
incluem uma comparação estapafúrdia entre
possíveis efeitos do grão modificado no corpo
humano e a doença da vaca louca |
Os
alimentos geneticamente modificados são uma realidade cotidiana.
Há grãos transgênicos usados no preparo de bolachas,
cereais, óleo de soja, pães, massas, maionese, mostarda
e papinhas para crianças. Além de ocupar prateleiras
dos supermercados, o transgênico ocupa também o noticiário
envolvido numa onda de acusações e defesas apaixonadas,
pouco apropriadas ao esclarecimento da opinião pública.
A lista de especulações a respeito dos riscos associados
à ingestão dos alimentos modificados é enorme,
e a resposta por parte da indústria não tem a isenção
suficiente para ser aceita como verdadeira. Para tirar as principais
dúvidas a respeito do assunto, VEJA procurou cientistas ligados
a alguns dos principais centros de pesquisa no Brasil, Estados Unidos,
Inglaterra e Itália. Todos têm em comum o fato de serem
pesquisadores independentes. Nenhum deles participa da produção
nem da pesquisa comercial de transgênicos.
1.
ALERGIA
A
ingestão do grão transgênico pode provocar mais
alergias do que a versão natural?
O corpo humano cria anticorpos contra elementos estranhos, como
bactérias, vírus e pó. Cerca de 2% dos adultos
e 7% das crianças desenvolvem anticorpos contra proteínas
presentes em alimentos, em geral soja, leite, ovos, peixes e frutos
do mar. A lista de alimentos apontados como fonte alergênica
contém mais de 180 itens não transgênicos. Como
a transgenia envolve a troca ou adição de proteínas,
os experimentos laboratoriais podem chegar a espécies que
provocam, sim, novas alergias. Justamente em função
disso, os fabricantes testam exaustivamente as sementes e destroem
as espécies que causam alergia após a aplicação
de testes. Recentemente, uma pesquisa com sementes de feijão
realizada no Brasil foi encerrada depois que o laboratório
descobriu e anunciou ter chegado a uma espécie
alergênica. Para analisar a possibilidade de falhas no processo,
cientistas independentes, não envolvidos com a produção
de transgênicos, estudaram a segurança dos alimentos
que, depois de testados e aprovados, foram colocados no mercado.
Não se identificou o surgimento de alergias adicionais. Detectaram-se
casos de alergia a grãos transgênicos apenas entre
alérgicos ao grão comum.
2.
FRACASSO
Qual
é o destino dos grãos experimentais quando as pesquisas
com transgênicos fracassam e resultam em espécies que
podem produzir alergias?
As experiências com genes são feitas sob rigorosa fiscalização,
e apenas as espécies seguras deixam o laboratório.
No caso dos clones, 97 de cada 100 experiências acabam abortadas
porque os animais gerados são deformados. O mesmo vale para
os transgênicos. Em meados dos anos 90, a Embrapa tentou produzir
um feijão que tinha o gene da castanha-do-pará. Esse
gene estimulava a produção de aminoácidos que
faltavam ao feijão, deixando o alimento mais nutritivo. No
entanto, descobriu-se que o gene podia causar alergia em quem o
ingerisse, e o experimento foi abandonado. No ano passado, tentativas
feitas na Inglaterra para tornar batatas resistentes a um determinado
inseto também fracassaram, porque a planta passou a ser vulnerável
a outros insetos. Em todos esses casos, a produção
dos laboratórios foi destruída, em geral incinerada.
3.
CÂNCER
Passaram-se
décadas até que se estabelecesse uma relação
de causa e efeito entre o cigarro e o câncer. Por que acreditar
que os transgênicos não oferecem risco nessa área?
A fumaça do cigarro contém quase 5.000
substâncias, das quais sessenta são consideradas cancerígenas.
Sabe-se que o cigarro é responsável por 90% dos casos
de câncer de pulmão e por 35% dos vários outros
tipos. Tais dados foram produzidos em estudos variados preparados
pela comunidade científica. E é essa mesma comunidade
científica que informa que até o momento não
foram identificados casos de câncer provocados por transgênicos.
Entre o início das pesquisas de um grão transgênico
e o lançamento desse grão no mercado na forma de produto
são gastos em média seis anos em estudos equivalentes
ao tempo consumido na pesquisa de novos medicamentos. Cientistas
independentes garantem que o prazo é suficiente para estudar
detalhadamente as espécies, avaliar seus impactos no ambiente
e investigar eventuais riscos à saúde.
4.
DNA
Os
alimentos modificados são feitos com pedaços de DNA
que não pertencem à semente original, muitas vezes
retirados de vírus e bactérias. Tais "corpos estranhos"
não podem fazer mal ao homem?
Podem, mas a chance estatística é a que tem uma pessoa
de ser atingida por um raio ao atravessar um campo de futebol numa
tarde de chuva. Ou seja, trata-se de hipótese cientificamente
possível, mas estatisticamente improvável. Uma vez
ingerido, o DNA da planta transgênica é decomposto
no processo de digestão da mesma maneira que o DNA de uma
planta convencional. Se ele não for digerido, há a
possibilidade de que seja incorporado de alguma forma pelo corpo
humano e desenvolva alguma doença. A mesma possibilidade
de ser atingido por um raio, afirmam os estudiosos.
5.
ANTIBIÓTICO
Alguns
transgênicos recebem genes de bactérias resistentes
a antibióticos. Quando esses alimentos são ingeridos,
as bactérias presentes no corpo humano não vão
se tornar resistentes aos antibióticos e impedir o combate
a uma doença?
Avicultores e pecuaristas utilizam antibióticos regularmente
para evitar que os animais desenvolvam certas doenças que,
ao atingir o sistema imunológico, prejudicam o ritmo de engorda.
Há vários estudos mostrando o efeito no corpo humano
da ingestão de carne cujo animal foi tratado com antibiótico.
Calcula-se que as pessoas tenham no corpo 200 vezes mais bactérias
do que o total de seres humanos nascidos desde o surgimento do homem.
O que se sabe é que o antibiótico, se utilizado de
forma incorreta ou descontrolada, pode aumentar a resistência
de algumas dessas bactérias. Em caso de doença, reduz-se
a gama de antibióticos que atuem de forma eficaz contra a
bactéria causadora do mal. É diferente com os transgênicos.
Os grãos transgênicos possuem um gene resistente a
um antibiótico, e não o antibiótico em si.
É o contrário dos animais, cuja carne contém
os antibióticos que receberam durante o período de
engorda. O risco de as bactérias presentes no sistema digestivo
se tornarem mais resistentes ao se combinar com o gene da planta
transgênica é outra hipótese científica
de efeito estatístico irrelevante. Em sete anos de consumo
em larga escala de alimentos transgênicos, principalmente
soja, milho e canola, nunca foi registrado um só caso de
doença relacionada ao produto geneticamente modificado.
6.
MUTAÇÃO
Para
a produção de transgênicos são usadas
cadeias de DNA que não existem na natureza. A ingestão
de alimentos geneticamente modificados não pode alterar a
cadeia de DNA do próprio homem?
Os ecologistas muitas vezes se referem ao mal da vaca louca como
se fosse um caso pertinente à discussão a respeito
de alimentos modificados. Naquele episódio, o rebanho bovino,
exclusivamente vegetariano, foi alimentado por criadores europeus
com rações preparadas com restos de outros animais.
O uso de animais doentes para alimentar os sadios gerou uma epidemia
que levou à morte 200.000 animais
somente na Inglaterra. O causador seria uma proteína mutante
dos animais, capaz de provocar a degeneração do tecido
cerebral. Embora a história seja assustadora, não
há nenhuma relação entre uma coisa e outra.
Primeiro, a ração dos bois não era resultado
de modificação genética, mas de simples mistura.
Depois, o DNA das plantas transgênicas em geral não
é modificado de forma aleatória, mas controlada. No
processo digestivo, o DNA do transgênico é fragmentado,
da mesma forma que o DNA presente em pêlos de ratos e restos
de baratas identificados em diversos alimentos convencionais, até
mesmo em orgânicos.
7.
EBOLA
Qual
o risco de uma semente transgênica em fase de teste ser roubada
do laboratório e contaminar a natureza?
Na Inglaterra, em 1978, uma amostra do vírus da varíola
vazou no laboratório de uma universidade, contaminando uma
pesquisadora. Nos Estados Unidos, o Centro para Controle e Prevenção
de Doenças (CDC) é um órgão do governo
que estuda vírus e desenvolve vacinas. Na sede de Atlanta
estão guardados em cofres-fortes frascos com alguns dos mais
temíveis vírus, entre eles o da varíola e o
ebola. Muito já se escreveu sobre as terríveis conseqüências
para a humanidade se ocorresse ali um acidente ou um atentado. E
no caso dos laboratórios que pesquisam os transgênicos,
não é possível acontecer a mesma coisa? Uma
semente não pode escapar e contaminar a natureza? Na fase
em que as sementes são "batizadas" com genes de microrganismos,
o trabalho é interno, feito em laboratório. Elas são
inicialmente plantadas em ambientes fechados. Numa etapa seguinte,
após vários testes, as sementes são plantadas
em fazendas experimentais, totalmente monitoradas para evitar acidentes.
Elas são mantidas a uma distância muito grande de outra
plantação convencional ou de ambientes selvagens.
Em tese, uma dessas sementes ou o pólen podem se espalhar
pelo ambiente. Mas aqui novamente a estatística trabalha
a favor da ciência. A probabilidade de proliferação
de uma planta fora da lavoura é de 0,1%, segundo estudo divulgado
neste ano pelo governo inglês.
8.
VENTO
Se
o vento espalhar sementes de uma lavoura transgênica, outras
espécies naturais não podem sofrer mutações
perigosas?
O que se constatou até o momento é que, em alguns
casos, ervas daninhas se cruzam com as plantas transgênicas
e adquirem suas características, como a resistência
a um inseticida ou a herbicidas. No Canadá, onde há
liberdade total para o plantio de determinadas variedades de canola
tolerantes a herbicidas, há casos de ervas daninhas que adquiriram
a mesma característica. Os cientistas avisam que a capacidade
de gerar espécies resistentes a herbicidas não é
exclusiva dos transgênicos. Nos últimos quarenta anos,
surgiram em todo o mundo cerca de 120 espécies de plantas
não transgênicas resistentes a herbicidas. Todas proliferaram
apenas nas lavouras, não em ambiente selvagem.
9.
SOLO
As
plantas liberam DNA no solo, pelas raízes. Os cientistas
já pesquisaram qual é o efeito do acúmulo de
DNA modificado no solo?
A maior parte do DNA é destruída durante o processo
de decomposição natural da planta, mas há uma
pequena possibilidade de que seus genes sejam incorporados por microrganismos
que vivam ao redor de sua raiz. Ou seja, as bactérias que
habitam o solo podem adquirir os genes das plantas, sejam elas transgênicas
ou não transgênicas. No caso dos alimentos modificados,
que muitas vezes recebem o gene de uma bactéria, a dúvida
é o que poderia acontecer se os genes adquiridos pela bactéria
que mora no solo forem justamente aqueles que pertenciam a outra
bactéria. Os estudos realizados em lavouras sugerem que o
efeito desse processo tende a ser insignificante para o microrganismo,
mas os cientistas recomendam que o fenômeno deve ser analisado
com mais profundidade.
10.
FAUNA
Há
indício de que algum animal, seja ele grande ou pequeno,
como um inseto, possa sofrer em função dos transgênicos?
Os estudos sobre o efeito dos transgênicos na fauna apontaram
para duas conclusões. A primeira identificou que, em algumas
plantações de grãos modificados, a população
de minhocas, mariposas e outros insetos registrou uma pequena redução.
No que diz respeito a eventuais conseqüências em outros
animais que se alimentaram de sementes transgênicas, não
se descobriu até o momento nenhuma alteração
no mapa genético original nem mesmo a ocorrência de
alguma doença.
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