|
|
Especial
O medo do novo
As pessoas já protestaram
contra a vacina, a
fluoretação
da água, a pasteurização
do
leite, o bebê de proveta, a pílula
anticoncepcional, a globalização,
o McDonald's e, agora, os transgênicos
AFP
 |
INTRANSIGÊNCIA
EM ESTADO BRUTO
Militantes antiglobalização provocam a polícia: alguns líderes
da esquerda ainda pensam que o mundo só será um bom lugar quando
as opções nas quais eles acreditam forem impostas a todos |
O
novo assusta sempre. No caso dos transgênicos, repete-se um
comportamento já observado durante toda a história
da humanidade. O homem, por instinto de preservação,
prefere o conforto daquilo que é conhecido ao stress que
representa o embate com uma novidade. Embora a segurança
dos alimentos modificados geneticamente seja assegurada por laboratórios
de reputação indiscutível, algumas perguntas
não estão 100% respondidas (veja
reportagem). Seria assustador imaginar um cenário
em que, daqui a vinte anos, as empresas que exploram a transgenia
venham a público para pedir desculpa por alguma falha na
avaliação das pesquisas. É natural, portanto,
que as pessoas cobrem explicações. As próprias
companhias estimulam a cobrança, pois não vão
vender uma só espiga de milho se seus produtos chegarem ao
mercado sob um manto de incerteza.
A história mostra que os protestos costumam ser mais fortes
quando se suspeita que algo possa colocar em risco a segurança
da família. No fim do século XIX, as pessoas se manifestaram
contra a pasteurização, que livra o leite de micróbios
e bactérias. Nas décadas de 1940 e 1950, registraram-se
nos Estados Unidos protestos de consumidores contra a fluoretação
da água, embora a medida seja tida como a maior arma conhecida
ao combate às cáries. Observados a distância,
protestos desse tipo soam exóticos e podem passar a impressão
equivocada de que a população era menos racional no
passado. Não se trata disso. Não foi a desconfiança
a respeito do novo que diminuiu. Foi o avanço tecnológico
que tornou certas crenças inconcebíveis no presente.
Tome-se o caso do sanitarista Oswaldo Cruz, que entrou para a história
como o responsável pela primeira grande campanha de vacinação
no Brasil, ocorrida em 1904. Seu nome é festejado no meio
médico. Na época, contudo, a iniciativa deixou um
saldo de 23 mortos e 67 feridos no episódio que ficou conhecido
como a Revolta da Vacina. A população do Rio de Janeiro
vivia numa cidade que cresceu de forma desordenada. Não havia
saneamento básico, proliferavam cortiços sem condições
de higiene satisfatórias e alastravam-se doenças contagiosas,
como a peste bubônica, a cólera, a varíola e
a febre amarela. Quase 1.000 pessoas morreram de febre amarela dois
anos antes. Com o objetivo de erradicar doenças, o governo
começou um programa de higienização da cidade
e de vacinação compulsória. O presidente da
República, Rodrigues Alves, deu carta branca para que Oswaldo
Cruz, seu diretor de Saúde Pública, promovesse uma
grande campanha. Em vez de apoio maciço, o que se viu foi
a reação da população, que não
queria ser vacinada. E a coisa acabou em pancadaria, como ocorre
hoje quando multidões de ambientalistas azucrinam as reuniões
de potentados do mundo globalizado com gritarias, pedradas e marchas,
durante reuniões da Organização Mundial do
Comércio ou do Fórum Mundial de Davos, na Suíça.
O processo de urbanização e o desenvolvimento das
comunicações deram uma dimensão maior aos protestos
contra o novo. A gritaria ocorre em ondas, ultrapassa fronteiras
e se dá de forma globalizada. O Greenpeace atua como multinacional
do grito em quarenta países, ocupando manchetes nos jornais
de todo o mundo. As passeatas antiglobalização, que
acabam em pancadaria quando os manifestantes tentam enfrentar os
policiais, acontecem em diversas capitais. Seus integrantes ganharam
até uniforme internacional, que inclui capacetes e escudos.
O script da peça que encenam é conhecido. Falam mal
de George W. Bush, reclamam do McDonald's, deitam-se no chão
e esperam ser tirados pelos policiais.
As novas tecnologias são a maior fonte de protesto no mundo
porque não se podem prever antecipadamente todos os seus
efeitos. Durante a Revolução Industrial, a Inglaterra
atravessou uma fase de grande avanço tecnológico com
a introdução de máquinas e linhas de produção.
As rocas de fiar desapareceram. Em 1813 havia pouco mais de 2.000
teares a vapor em funcionamento na Inglaterra. Vinte anos depois,
o parque tinha se multiplicado cinqüenta vezes. Previsivelmente,
surgiram as reações na forma de seguidos ataques às
fábricas. Grupos armados com barras de ferro e pedaços
de pau invadiam estabelecimentos e destruíam teares. Os líderes
do movimento redigiam manifestos contra a tecnologia assinados por
um personagem imaginário, o general Ludd. O episódio
entrou para a história como o Movimento Ludita, encerrado
depois que o Parlamento aprovou uma lei punindo com pena de morte
quem destruísse máquinas. Alguns luditas chegaram
a ser executados. Na cidade de York, um dos líderes subiu
ao patíbulo com treze companheiros.
O novo incomoda em todas as esferas do conhecimento, nas artes plásticas,
na política, na economia, no campo dos costumes e na ciência
e é principalmente nessa área que o homem expõe
de forma mais explícita sua insegurança. Parte das
pessoas protesta porque sente que o mundo está mudando e
comprometendo valores que aprendeu a respeitar. Vive-se uma vida
imaginando que a Terra é chata e de repente se descobre que
ela é redonda. Aprende-se que a Terra é um planeta
estático e que está no centro do universo. Vem alguém,
um sábio incômodo, e diz que ela se move em torno do
Sol. A reação é compreensível. Outra
parte protesta porque não aceita mudanças, ainda que
ela não seja obrigada a seguir a nova tendência. Em
1978, o nascimento de Louise Brown, na Inglaterra, representou um
marco na evolução da reprodução humana.
Ela foi o primeiro bebê concebido em laboratório. Como
a mãe de Louise era estéril, o bebê foi fecundado
num tubo de ensaio. Surgiram manifestações contrárias
imediatamente após o anúncio do nascimento do primeiro
bebê de proveta. Políticos conservadores chegaram a
dizer que a técnica poderia ser usada para a criação
de uma raça superior. Hoje, casais em todo o mundo recorrem
à fertilização in vitro para realizar o sonho
de ser pais. Como se vê, leva tempo até que a razão
acabe prevalecendo.
Com reportagem de Sandra Brasil
|