Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os livros mais vendidos
 
 

Especial
O medo do novo

As pessoas já protestaram
contra a vacina,
a fluoretação
da água, a pasteurização
do
leite, o bebê de proveta, a pílula
anticoncepcional, a globalização,
o McDonald's e, agora, os transgênicos

 
AFP
INTRANSIGÊNCIA EM ESTADO BRUTO
Militantes antiglobalização provocam a polícia: alguns líderes da esquerda ainda pensam que o mundo só será um bom lugar quando as opções nas quais eles acreditam forem impostas a todos


Transgênicos, os grãos que assustam
As verdades e as mentiras

O novo assusta sempre. No caso dos transgênicos, repete-se um comportamento já observado durante toda a história da humanidade. O homem, por instinto de preservação, prefere o conforto daquilo que é conhecido ao stress que representa o embate com uma novidade. Embora a segurança dos alimentos modificados geneticamente seja assegurada por laboratórios de reputação indiscutível, algumas perguntas não estão 100% respondidas (veja reportagem). Seria assustador imaginar um cenário em que, daqui a vinte anos, as empresas que exploram a transgenia venham a público para pedir desculpa por alguma falha na avaliação das pesquisas. É natural, portanto, que as pessoas cobrem explicações. As próprias companhias estimulam a cobrança, pois não vão vender uma só espiga de milho se seus produtos chegarem ao mercado sob um manto de incerteza.

A história mostra que os protestos costumam ser mais fortes quando se suspeita que algo possa colocar em risco a segurança da família. No fim do século XIX, as pessoas se manifestaram contra a pasteurização, que livra o leite de micróbios e bactérias. Nas décadas de 1940 e 1950, registraram-se nos Estados Unidos protestos de consumidores contra a fluoretação da água, embora a medida seja tida como a maior arma conhecida ao combate às cáries. Observados a distância, protestos desse tipo soam exóticos e podem passar a impressão equivocada de que a população era menos racional no passado. Não se trata disso. Não foi a desconfiança a respeito do novo que diminuiu. Foi o avanço tecnológico que tornou certas crenças inconcebíveis no presente.

Tome-se o caso do sanitarista Oswaldo Cruz, que entrou para a história como o responsável pela primeira grande campanha de vacinação no Brasil, ocorrida em 1904. Seu nome é festejado no meio médico. Na época, contudo, a iniciativa deixou um saldo de 23 mortos e 67 feridos no episódio que ficou conhecido como a Revolta da Vacina. A população do Rio de Janeiro vivia numa cidade que cresceu de forma desordenada. Não havia saneamento básico, proliferavam cortiços sem condições de higiene satisfatórias e alastravam-se doenças contagiosas, como a peste bubônica, a cólera, a varíola e a febre amarela. Quase 1.000 pessoas morreram de febre amarela dois anos antes. Com o objetivo de erradicar doenças, o governo começou um programa de higienização da cidade e de vacinação compulsória. O presidente da República, Rodrigues Alves, deu carta branca para que Oswaldo Cruz, seu diretor de Saúde Pública, promovesse uma grande campanha. Em vez de apoio maciço, o que se viu foi a reação da população, que não queria ser vacinada. E a coisa acabou em pancadaria, como ocorre hoje quando multidões de ambientalistas azucrinam as reuniões de potentados do mundo globalizado com gritarias, pedradas e marchas, durante reuniões da Organização Mundial do Comércio ou do Fórum Mundial de Davos, na Suíça.

O processo de urbanização e o desenvolvimento das comunicações deram uma dimensão maior aos protestos contra o novo. A gritaria ocorre em ondas, ultrapassa fronteiras e se dá de forma globalizada. O Greenpeace atua como multinacional do grito em quarenta países, ocupando manchetes nos jornais de todo o mundo. As passeatas antiglobalização, que acabam em pancadaria quando os manifestantes tentam enfrentar os policiais, acontecem em diversas capitais. Seus integrantes ganharam até uniforme internacional, que inclui capacetes e escudos. O script da peça que encenam é conhecido. Falam mal de George W. Bush, reclamam do McDonald's, deitam-se no chão e esperam ser tirados pelos policiais.

As novas tecnologias são a maior fonte de protesto no mundo porque não se podem prever antecipadamente todos os seus efeitos. Durante a Revolução Industrial, a Inglaterra atravessou uma fase de grande avanço tecnológico com a introdução de máquinas e linhas de produção. As rocas de fiar desapareceram. Em 1813 havia pouco mais de 2.000 teares a vapor em funcionamento na Inglaterra. Vinte anos depois, o parque tinha se multiplicado cinqüenta vezes. Previsivelmente, surgiram as reações na forma de seguidos ataques às fábricas. Grupos armados com barras de ferro e pedaços de pau invadiam estabelecimentos e destruíam teares. Os líderes do movimento redigiam manifestos contra a tecnologia assinados por um personagem imaginário, o general Ludd. O episódio entrou para a história como o Movimento Ludita, encerrado depois que o Parlamento aprovou uma lei punindo com pena de morte quem destruísse máquinas. Alguns luditas chegaram a ser executados. Na cidade de York, um dos líderes subiu ao patíbulo com treze companheiros.

O novo incomoda em todas as esferas do conhecimento, nas artes plásticas, na política, na economia, no campo dos costumes e na ciência – e é principalmente nessa área que o homem expõe de forma mais explícita sua insegurança. Parte das pessoas protesta porque sente que o mundo está mudando e comprometendo valores que aprendeu a respeitar. Vive-se uma vida imaginando que a Terra é chata e de repente se descobre que ela é redonda. Aprende-se que a Terra é um planeta estático e que está no centro do universo. Vem alguém, um sábio incômodo, e diz que ela se move em torno do Sol. A reação é compreensível. Outra parte protesta porque não aceita mudanças, ainda que ela não seja obrigada a seguir a nova tendência. Em 1978, o nascimento de Louise Brown, na Inglaterra, representou um marco na evolução da reprodução humana. Ela foi o primeiro bebê concebido em laboratório. Como a mãe de Louise era estéril, o bebê foi fecundado num tubo de ensaio. Surgiram manifestações contrárias imediatamente após o anúncio do nascimento do primeiro bebê de proveta. Políticos conservadores chegaram a dizer que a técnica poderia ser usada para a criação de uma raça superior. Hoje, casais em todo o mundo recorrem à fertilização in vitro para realizar o sonho de ser pais. Como se vê, leva tempo até que a razão acabe prevalecendo.


Com reportagem de
Sandra Brasil

 
 
 
 
topo voltar