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Eleições
Paz,
amor e guerra
Há
um ano, Lula venceu a eleição com um
estilo "paz e amor", mas, nos bastidores,
uma equipe do PT trabalhou noite e dia
desencavando denúncias e dossiês e
promovendo blefes e negociações sigilosas
para enfraquecer seus adversários

Policarpo
Junior
Montagem sobre fotos Antonio Milena/Robson
Fernandges-AE/Ed Ferreira-AE/Leonardo Colosso-Folha Imagem/Claudio
Rossi e Elza Fiuza-divulgação
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LULA
E A TROPA DE GUERRILHA
Com seu QG em São Paulo, a soldadesca de Lula atuou em
sigilo durante quase um ano e, numa das operações
mais ousadas, acessou até um cofre do BB
1. CARLOS ALBERTO GRANA - O
logístico
2. OSVALDO BARGAS - O elo
3. JOÃO PIZA - O coordenador
4. WAGNER CINCHETTO - O
operador
5. RICARDO BERZOINI -
O político |
Em
agosto de 2002, dias depois da estréia do horário
eleitoral, o tucano José Serra exibiu em seu programa imagens
de Ciro Gomes xingando um eleitor de "burro". Ciro reagiu acusando
Serra de adotar um "comportamento de marginal". O petista Luiz Inácio
Lula da Silva, então líder das pesquisas com 37% das
intenções de voto, assistiu à briga de longe.
Indagado sobre as desavenças dos rivais, Lula saiu-se com
um gracejo cuja repercussão foi tal que se tornou marca de
sua campanha: "Lulinha não quer briga. Lulinha quer paz e
amor". Foi de fato com paz e amor que Lula conduziu sua campanha
presidencial e obteve uma portentosa vitória, cujo primeiro
aniversário é comemorado nesta segunda-feira, 27.
O que não se sabia é que, nos subterrâneos de
sua campanha, não havia paz nem amor havia guerra.
Guerra de defesa, com batalhões prontos para salvar Lula
de ataques destruidores, e principalmente guerra de ataque, com
tropas entrincheiradas para estraçalhar candidaturas adversárias.
Nas
últimas quatro semanas, VEJA entrevistou dezessete personagens
para recuperar os bastidores da campanha do PT e encontrou um intenso
contraste entre a leve imagem pública do candidato e o pesado
trabalho sigiloso de seus assessores. A criação do
bunker começou no fim de 2001, quando o advogado João
Roberto Egydio Piza Fontes, que trabalha para Lula há quase
dez anos, teve uma conversa decisiva com o líder petista.
Os dois encontraram-se na sede do Instituto Cidadania, em São
Paulo. Calejado militante, João Piza, como é conhecido,
queria convencer Lula a montar uma célula guerrilheira para
atuar em duas funções: protegê-lo das armadilhas
de campanhas passadas e, ao mesmo tempo, espalhar minas terrestres
no campo dos adversários. Seria um trabalho secreto e pesado.
Faltava ainda quase um ano para a convenção do PT
que oficializaria o candidato presidencial, mas Lula deu luz verde
ao advogado e pediu cautela. "Seja inteligente. Não faça
nada de manoel ou joaquim nessa história", disse. E tudo
foi feito como Lula queria.
Domingos Peixoto/RI
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Milton Michida/AE
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CARGA
NO CAIXA
Serra (à esq.) e seu ex-caixa de campanha
Ricardo Sérgio (à dir.) foram alvo constante
da guerrilha petista: papelada no cofre |
"Sou
advogado, amigo e companheiro de Lula há décadas.
Trabalhei, é óbvio, como militante petista para sua
eleição", diz Piza. O bunker guerrilheiro era formado
por pessoas da confiança de Lula e sindicalistas ligados
à Central Única dos Trabalhadores. João Piza
era o coordenador-geral. Ricardo Berzoini, hoje ministro da Previdência,
era o orientador político e, a partir de pesquisas reservadas,
instruía o grupo sobre os alvos que mais interessavam atacar.
O sindicalista Osvaldo Bargas, velho amigo de Lula, fazia a ligação
entre o grupo e o candidato, passando as informações
mais relevantes. Outro sindicalista, Carlos Alberto Grana, então
secretário-geral da CUT, cuidava da logística do grupo
carros, celulares, passagens, dinheiro. "Há muitos
imprevistos que vão aparecendo e que nem sempre a parte oficial
da campanha pode enfrentar", diz Grana. Os encarregados de colher
informações que pudessem eventualmente prejudicar
os candidatos rivais de Lula eram militantes da base do PT ou aliados
acomodados em sindicatos ou movimentos sociais. O grupo trabalhou
quase um ano, com QG num escritório na Rua Haddock Lobo,
nos Jardins, em São Paulo. No campo de batalha, desencavou
denúncias e dossiês, promoveu blefes e acordos sigilosos
e lançou petardos certeiros contra Serra, Ciro e Anthony
Garotinho.
Janeiro:
a defesa A primeira missão foi no flanco de defesa,
quando estourou o escândalo de Santo André. A partir
de janeiro de 2002, com o seqüestro e morte do prefeito da
cidade, o petista Celso Daniel, as investigações do
caso esbarraram num esquema de propina montado na prefeitura e num
festival de petistas grampeados. O primeiro alerta chegou ao grupo
pelo empresário Antônio Celso Cipriani, da TransBrasil,
que contratara os serviços de Piza no processo de falência
de sua empresa. "Estão fazendo uma armação
contra o PT", avisou. "Os telefones do Lula e de pessoas próximas
a ele estão grampeados." O grupo saiu a campo em duas frentes:
evitar que o escândalo respingasse em cardeais do PT e impedir
a divulgação do conteúdo dos grampos. No desdobramento
do caso, o então procurador-geral da República, Geraldo
Brindeiro, chegou a pedir a abertura de um inquérito para
investigar José Dirceu, que presidia o partido e coordenava
a campanha, mas o ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal Federal,
não aceitou a denúncia por escassez de provas.
Ed Ferreira/AE
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CEDENDO
MUNIÇÃO
Antonio Carlos, procurado pelo PT, abriu seu farto arquivo |
A
tarefa de manter os grampos na toca exigiu mais artimanha. Gilberto
Carvalho, ex-secretário da prefeitura de Santo André
e um dos grampeados, foi convocado para avaliar o caso. Disse que,
se divulgado, o conteúdo dos telefonemas poderia gerar constrangimento,
mas não escândalo. "Pode ser que existam coisas complicadas,
mas são coisas de política. Não tem nada de
corrupção", garantiu. Ainda assim, não convinha
a divulgação. O bunker, então, preparou a estratégia:
retirar as fitas das mãos da Polícia Federal e dos
promotores paulistas, identificados como excessivamente "tucanos".
Como fazer? Apelou-se ao procurador Luiz Francisco de Souza, usina
de denúncias contra tucanos em Brasília. Sabendo que
o grampo fora ilegalmente instalado pela polícia, Luiz Francisco
acionou a controladoria de atividades policiais do Ministério
Público, que intervém nos casos em que há abuso
policial. Deu certo. A controladoria acionou a Justiça paulista,
que, diante das evidências da ilegalidade da escuta, mandou
apreender as quarenta fitas. "Tudo o que fiz foi falar com um procurador
do grupo de controle que aquilo parecia armação",
explica Luiz Francisco.
Maio:
a rasteira Anthony Garotinho, que concorreu pelo PSB,
foi o primeiro alvo da soldadesca petista. O advogado João
Piza convidou Paulo Costa Leite, candidato a vice de Garotinho,
para uma conversa. Tentou convencê-lo a renunciar em favor
de Lula, fortalecendo o petista e deixando Garotinho na chuva. Em
6 de maio de 2002, haveria uma segunda reunião entre Piza
e Costa Leite, na qual já pretendiam acertar os termos da
renúncia, caso Lula disparasse e Garotinho empacasse nas
pesquisas. "Naquele momento, a renúncia era apenas uma hipótese.
O Lula tinha como adversário só o candidato do governo.
Os demais não empolgavam e havia a chance de vitória
no primeiro turno", relembra Costa Leite. "E o doutor João
trazia credenciais de amigo de Lula." Nada aconteceu, porém.
Costa Leite foi levado à renúncia com a revelação
de que, no passado, pertencera ao SNI, agência de bisbilhotagem
do regime militar. E, com isso, era até bom que se mantivesse
bem longe de Lula.
Julho:
a armadilha No fim de julho de 2002, a campanha esquentava,
o movimento nos bastidores já era intenso e o deputado Ricardo
Berzoini chegou com uma notícia extraída de uma pesquisa.
"No segundo turno, a gente perde feio para o Ciro", disse. O bunker
petista, então, acionou o sindicalista Wagner Cinchetto,
um arquivo vivo das malandragens que precederam a criação
da Força Sindical, central de onde vinha Paulo Pereira da
Silva, o vice de Ciro. Um ano antes, a guerrilha do PT já
usara os serviços de Cinchetto, que apresentou uma série
de denúncias sobre as peripécias de Luiz Antonio de
Medeiros na Força Sindical. As denúncias, naquela
época, foram providenciais. Medeiros, presidente do PL paulista,
resistia à idéia da adesão de seu partido à
candidatura de Lula. Com as denúncias de Cinchetto e a ameaça
de cassação de seu mandato de deputado, Medeiros passou
a examinar com mais simpatia a hipótese de levar o PL a apoiar
o PT o que acabou se concretizando. Agora, porém,
o alvo era Paulo Pereira da Silva, sobre quem Cinchetto já
reunira munição.
Joedson Alves/AE
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HOMEM
DA SALVAÇÃO
Luiz Francisco, que vai para Portugal, cuidou das fitas de Santo
André |
Em junho, quando Ciro se preparava para lançar seu livro
Um Desafio Chamado Brasil, numa livraria em São Paulo,
Cinchetto lhe telefonou. De um celular pré-pago, fez um alerta
anônimo. "Seu vice é corrupto", disse. "Nós
vamos à porta da livraria distribuir dossiês denunciando
isso." Era blefe, não havia manifestação nenhuma,
mas os dossiês existiam. Em julho, era hora de tirá-los
do baú e vazá-los à imprensa. Nessa época,
Pereira da Silva foi atormentado por denúncias de compra
superfaturada e desvio de dinheiro de um fundo público. Em
seu trabalho de soldado petista, Cinchetto chegou a planejar um
bote mortal. Mandou dizer à turma de Pereira da Silva que,
com uma boa grana, silenciaria sobre as denúncias. A idéia
era fotografar o ato do pagamento e denunciar o vice por
tentativa de suborno. "Na hora em que ele fosse pagar, a gente fotografava",
rememora Cinchetto. O vice de Ciro, porém, não caiu
na armadilha. "Até hoje, não consegui saber se isso
foi coisa do PT ou do PSDB", diz Paulo Pereira da Silva, que na
época acusou o tucanato. "É que o Serra nunca quis
que eu formasse chapa com o Ciro." Agora, Pereira da Silva já
sabe: foi coisa do PT.
Maio:
a águia O alvo mais constante da guerrilha petista
foi José Serra e seu flanco mais vulnerável, o economista
Ricardo Sérgio de Oliveira, caixa das campanhas tucanas e
ex-diretor do Banco do Brasil. Em maio de 2002, os petistas procuraram
o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, minucioso colecionador
de histórias sobre Ricardo Sérgio. O ex-senador e
os petistas conversaram na suíte 2021 do hotel Maksoud Plaza,
em São Paulo. Dias depois, já de volta a Brasília,
ACM entregou um calhamaço de 1.000 páginas
a um enviado petista, o advogado Terence Zveiter, narrando episódios
referentes à atuação de Ricardo Sérgio
na privatização das teles. Com a papelada na mão,
Zveiter telefonou para seu contato em São Paulo. "A águia
pousou", disse ele, usando a senha do sucesso da operação.
"Alguém vai procurá-lo para ver a águia", orientou
o contato. Dias depois, capítulos do dossiê começaram
a aparecer nos jornais. "Com o ex-senador, peguei um envelope grande
com centenas de documentos sobre Ricardo Sérgio e outras
pessoas", relembra Zveiter.
Outra
denúncia teve gênese muito mais complicada. O bunker
do PT precisou descolar um contato com acesso a um cofre na sede
paulista do Banco do Brasil, na Avenida Paulista, no coração
da capital. No cofre, havia documentos sobre um empréstimo
que um contraparente de Serra, Gregorio Marin Preciado, fizera do
BB e também havia a sugestão de que ele fora
favorecido por Ricardo Sérgio, então diretor do banco.
O contato do PT, um funcionário do BB, ficou duas semanas
preparando o acesso ao cofre. Conseguiu. Deveria entregar os documentos
ao advogado Francisco Alvarez Neto, colega de João Piza.
Conforme o combinado, Alvarez aguardava em frente da estação
Consolação do metrô, na Avenida Paulista, com
uma caneta na lapela. Como nos filmes de espionagem, o advogado
foi recebendo instruções pelo celular. Primeiro, pediram
que andasse até um café das proximidades, o Subito
Expresso. Depois, que pegasse seu carro e parasse num estacionamento
pago ali perto, com os vidros abertos. De repente, apareceu um homem
de terno, colocou um envelope lacrado no banco do passageiro e disse:
"Devolva até as 17 horas, no mesmo lugar". No mesmo dia,
uma cópia da papelada desembarcou em Brasília e, pouco
depois, apareceu nos jornais. Três semanas antes da eleição,
os procuradores Luiz Francisco, ele de novo, e Alexandre Camanho
entraram com ação contra Ricardo Sérgio por
favorecer Preciado.
Um
ano depois O advogado João Piza e seus sócios
continuam advogando para Lula, o PT e a CUT. O deputado Ricardo
Berzoini virou ministro da Previdência Social. O sindicalista
Osvaldo Bargas ganhou o cargo de secretário de relações
trabalhistas, no Ministério do Trabalho, em Brasília.
O outro sindicalista, Carlos Alberto Grana, continua na CUT e agora
representa a entidade num conselho federal que lida com verbas do
Fundo de Amparo ao Trabalhador. O sindicalista Wagner Cinchetto
presta consultoria informal à CUT. O procurador Luiz Francisco,
de Brasília, está de malas prontas para passar um
ano em Portugal, onde fará um mestrado. O deputado Luiz Antonio
de Medeiros aliou-se ao PT e o pedido de cassação
de seu mandato foi arquivado, com o voto favorável dos petistas.
Antonio Carlos Magalhães voltou a ser eleito senador pela
Bahia e a denúncia pela violação do painel
eletrônico, que motivou sua renúncia, foi arquivada.
E o juiz João Carlos da Rocha Mattos, da 12ª Vara Federal,
ordenou a destruição das quarenta fitas que registram
o caso de Santo André.
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