Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Diogo Mainardi
A boa surra americana

"O fato mais relevante para os iraquianos é
o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor
poderia ter acontecido a eles. Até a resistência
contra os americanos é boa para o Iraque. É
dali que surgirá sua nova classe dirigente"

Os iraquianos tiveram sorte. Só um presidente suicida como Bush poderia ter entrado numa guerra dessas. A guerra foi ruim para os americanos e boa para os iraquianos. Exatamente do mesmo jeito que a Guerra das Malvinas foi boa para os argentinos. Podem falar mal de Bush. Podem falar mal da Thatcher. Porcos imperialistas? Claro. Arrogantes? Certamente. Criminosos? E daí? O que importa é que os Estados Unidos deram uma surra no Iraque, assim como a Inglaterra deu uma surra na Argentina. E, com a surra, Iraque e Argentina conseguiram enterrar suas sangrentas ditaduras militares. Ponto para Bush. Ponto para a Thatcher. Estátuas para eles. Estátuas em Bagdá e em Buenos Aires, não em Washington ou em Londres.

O argumento é um pouco simplista, concordo. Ignora o sofrimento de quem perdeu seus familiares. Ignora as mentiras de Bush. Ignora os interesses das companhias que financiaram sua campanha eleitoral. Considerando todos os fatores, porém, o fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência armada contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente. Como na Argélia. Cada recruta americano que morre sedimenta um pouco mais a nação. Espero que Bush seja reeleito e cumpra seu dever de reconstruir o que ajudou a destruir, ainda que isso aumente o buraco financeiro americano. O Partido Democrata é bastante ambíguo nesse ponto.

A maioria de seus deputados quer dar um calote no Iraque, embora quase todos tenham apoiado a guerra. Os eleitores não aceitam que o dinheiro de seus impostos seja aplicado em escolas e centrais elétricas de um país estrangeiro. Como assim? Destruíram? Agora reconstruam. Minha previsão é que Bush será reeleito no ano que vem e, por causa do elevado custo da aventura iraquiana, sairá da Casa Branca em 2008 como o presidente mais impopular da história.

É um mau momento para defender a agressão americana contra o Iraque. Fica cada dia mais fácil atacá-la. Don De Lillo é um bom exemplo disso. Ele é tido como um dos maiores escritores americanos da atualidade. Outro dia escreveu um artigo despretensioso em que recorda ter visto Ursula Andress numa rua de Roma, 25 anos atrás. Lá pela metade do artigo, de passagem, como quem não quer nada, ele menciona a guerra do Iraque. Depois menciona outra vez. Depois menciona uma terceira vez. Não dá uma opinião sobre o assunto. Não estabelece um nexo direto entre os dois temas. Não é necessário. Basta mencionar a guerra do Iraque para seus leitores se sentirem plenamente recompensados. É uma piscadela de olho para eles. É um truque, uma malandragem para mostrar que De Lillo respeita a seriedade de seus leitores, e que não esquece os grandes conflitos da humanidade mesmo quando trata de algo fútil como Ursula Andress. Pura demagogia literária. Se a guerra do Iraque se presta a esse tipo de recurso barato, é sinal de que Bush não tem mais a menor chance. Ele perdeu a guerra. Nada de estátua para ele. Nem em Bagdá, coitado.

 
 
 
 
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