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Em
foco: Gustavo Franco
O
gigantesco
custo do crédito
"Tributar
os bancos piora a situação.
Os bancos repassam os encargos para
seus preços e quem acaba carregando
todo o peso é o devedor"
O leitor
certamente já deve ter tido a irritante experiência
de tomar conhecimento de que a taxa de juro básica fixada
pelo Banco Central, geralmente com grande alarde (conhecida como
taxa Selic), é agora de 19% (nível para o qual caiu
na semana que passou). Mas o que lhe oferecem no banco pela aplicação
de seu dinheiro não é mais que uma fração
dos 19%, e pior: quando se trata de tomar um dinheirinho emprestado,
é sempre um múltiplo indecente dos 19%.
Ilustração Ale Setti
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Como nos informa o BC, para agosto de 2003, quando a taxa Selic
média esteve em 23,6%, as taxas médias de captação
dos bancos estavam em 21,4% e as taxas médias para empréstimos
eram de 36,3% para pessoas jurídicas e 74,5% para pessoas
físicas.
Quais
as causas desse fenômeno que, a despeito de ser bem brasileiro,
curiosamente é designado por uma expressão em inglês,
o "spread"*, talvez de propósito, para confundir?
O
spread bancário tem sido uma dor de cabeça de sucessivas
diretorias do BC, e nenhuma delas, inclusive as de que este escriba
participou, conseguiu muito progresso. Com efeito, como se verá,
o problema é muito mais difícil do que parece.
Uma
maneira de interpretar o fenômeno é dizer que se trata
de uma espécie de "imposto sobre o devedor", que se configura
a partir de diversos encargos impostos aos bancos: tributos (maiores
do que para as outras empresas), os chamados "direcionamentos" (obrigatoriedade
de fazer empréstimos subsidiados em determinadas modalidades)
e depósitos compulsórios (obrigatoriedade de recolher
ao BC, sem remuneração, parcela relevante dos depósitos
que recebem). Tudo isso por cima dos custos operacionais dos bancos.
Como
ocorre em qualquer empresa, os bancos repassam esses encargos a
seus preços; portanto quem acaba carregando todo esse peso
é o consumidor do produto que os bancos vendem, o devedor.
Pode
não ser uma conclusão muito popular, mas nem por isso
é menos verdadeira: tributar banco é o mesmo que tributar
o devedor, e, quanto mais se tributar banco, maior ficará
o spread e pior a situação!
A
explicação para a existência de um spread tão
alto nada tem de complexa. Como um exemplo vale mais que 1.000
teorias, vamos imaginar um banco que captou 100.000
reais e que sabe que começará a ganhar dinheiro quando
remunerar esse montante a uma taxa que ultrapasse a taxa Selic,
pois esse é o custo da "matéria-prima" dos bancos,
o dinheiro. Vamos imaginar que a Selic já chegou a 15% (é
o que se espera para 2004), de modo que o banco precisa gerar ao
menos 15.000 reais de lucro para cobrir
seus custos. A pergunta é quanto vai ser cobrado nos empréstimos,
tendo em vista os custos dos compulsórios e impostos, para
obter esses 15 000 reais.
Para
fazer essa conta, vamos imaginar que os compulsórios sobre
o montante captado sejam de 50% e que o conjunto dos impostos a
ser pagos represente uma proporção do lucro bruto
da ordem de 40%. Assim, a taxa de juro que o banco vai cobrar de
forma a remunerar sua captação a 15%, depois dos impostos,
é de exatos 50%, ou seja, mais de três vezes a taxa
básica.
Se
os impostos aumentam em 5%, a taxa vai para 54,5%. Se o compulsório
sobe 5%, mas os recursos são direcionados, por exemplo, para
o microcrédito, ao custo de 2% ao mês (26,8% ao ano),
como recentemente foi implementado, a taxa sobe para 52,6%.
A
conclusão é que o spread é gerado pelo governo
via impostos diretos, indiretos e principalmente ocultos, sob a
forma de compulsórios e direcionamentos. O panorama fica
pior se adicionarmos a inadimplência às contas, como
enfatizam estudos do próprio BC. Mas, na minha modesta opinião,
esse elemento é de ordem menor quando comparado aos encargos
acima estudados. Exagerar a importância da inadimplência
pode conduzir a ilusões acerca da influência da nova
lei de falências sobre o spread.
Sem
rodeios: para reduzir o spread seria preciso deslocar os subsídios
à agricultura e à habitação para o orçamento
público, eliminar os compulsórios e direcionamentos
e diminuir os impostos sobre os bancos. Dá para entender
por que nunca se conseguiu avançar nesse assunto?
* Uma tradução literal, pouco usada, seria "margem"
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br
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