Edição 1826 . 29 de outubro de 2003

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Carta ao leitor
Tolerância zero

Carlos Humberto/BR Press
Benedita: confusão na viagem à Argentina


Sem que isso fosse percebido muito claramente, a sociedade brasileira desenvolveu no decorrer da última década uma política de tolerância zero com os desvios éticos dos governantes. As provas disso estão por toda parte. Uma recente é a permanência por quase um mês no noticiário do caso da viagem da ministra da Assistência Social, Benedita da Silva. Ela foi a Buenos Aires participar de um encontro religioso de seu interesse particular. O passeio da ministra custou cerca de 5.000 reais e foi pago irregularmente pelo Tesouro Nacional. A decisão de Benedita de devolver a quantia aos cofres públicos não conseguiu colocar um ponto final na questão e continua sendo tratada como uma crise, mesmo tendo esgotado há muito seu combustível de escândalo.

Isso é bom sinal, e não apenas à luz do preceito bíblico de que "quem não é no pouco não será no muito", que a evangélica Benedita conhece bem. É bom sinal principalmente porque mostra que está estabelecido entre os brasileiros um novo padrão de vigilância sobre seus mandatários. O secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, foi obrigado a renunciar dias depois de se descobrir que ele contratara a ex-mulher e a atual para prestar serviços à sua secretaria. Esse caso talvez pudesse ter sido resolvido com o encerramento do contrato com ambas e a manutenção do secretário. O governo não cogitou disso. Seria desastroso acrescentar o mau comportamento de altos servidores à rala pauta de realizações governamentais a apresentar aos brasileiros nesses primeiros dez meses. Entre os dados positivos dessa pauta, estão a heróica mas pouco compreendida luta para manter nos trilhos a vulnerabilíssima economia brasileira e a tentativa, mesmo que ainda desengonçada, de viabilizar seus trombeteados projetos sociais de alcance nacional.

Os brasileiros poderiam se considerar moradores de um país feliz se os problemas nacionais fossem apenas esses que andam ocupando o noticiário. Infelizmente não são. O Brasil teve boa parte de sua história maculada por escândalos gigantescos e subterrâneos. Alguns vieram à luz e seus autores sofreram algum tipo de punição, como Fernando Collor, obrigado a apear da Presidência da República em 1992. Muitos outros, porém, cumpriram todo o ciclo de enriquecimento ilícito e seus autores ficaram impunes. Espera-se que a intolerância demonstrada pela sociedade com os pequenos delitos tenha o poder de, ao fim das contas, inibir também os grandes.

 
 
 
 
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