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Carta
ao leitor
Tolerância
zero
Carlos Humberto/BR Press
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| Benedita:
confusão na viagem à Argentina |
Sem que isso fosse percebido muito claramente, a sociedade brasileira
desenvolveu no decorrer da última década uma política
de tolerância zero com os desvios éticos dos governantes.
As provas disso estão por toda parte. Uma recente é
a permanência por quase um mês no noticiário
do caso da viagem da ministra da Assistência Social, Benedita
da Silva. Ela foi a Buenos Aires participar de um encontro religioso
de seu interesse particular. O passeio da ministra custou cerca
de 5.000 reais e foi pago irregularmente pelo Tesouro Nacional.
A decisão de Benedita de devolver a quantia aos cofres públicos
não conseguiu colocar um ponto final na questão e
continua sendo tratada como uma crise, mesmo tendo esgotado há
muito seu combustível de escândalo.
Isso é bom sinal, e não apenas à luz do preceito
bíblico de que "quem não é no pouco não
será no muito", que a evangélica Benedita conhece
bem. É bom sinal principalmente porque mostra que está
estabelecido entre os brasileiros um novo padrão de vigilância
sobre seus mandatários. O secretário nacional de Segurança
Pública, Luiz Eduardo Soares, foi obrigado a renunciar dias
depois de se descobrir que ele contratara a ex-mulher e a atual
para prestar serviços à sua secretaria. Esse caso
talvez pudesse ter sido resolvido com o encerramento do contrato
com ambas e a manutenção do secretário. O governo
não cogitou disso. Seria desastroso acrescentar o mau comportamento
de altos servidores à rala pauta de realizações
governamentais a apresentar aos brasileiros nesses primeiros dez
meses. Entre os dados positivos dessa pauta, estão a heróica
mas pouco compreendida luta para manter nos trilhos a vulnerabilíssima
economia brasileira e a tentativa, mesmo que ainda desengonçada,
de viabilizar seus trombeteados projetos sociais de alcance nacional.
Os brasileiros poderiam se considerar moradores de um país
feliz se os problemas nacionais fossem apenas esses que andam ocupando
o noticiário. Infelizmente não são. O Brasil
teve boa parte de sua história maculada por escândalos
gigantescos e subterrâneos. Alguns vieram à luz e seus
autores sofreram algum tipo de punição, como Fernando
Collor, obrigado a apear da Presidência da República
em 1992. Muitos outros, porém, cumpriram todo o ciclo de
enriquecimento ilícito e seus autores ficaram impunes. Espera-se
que a intolerância demonstrada pela sociedade com os pequenos
delitos tenha o poder de, ao fim das contas, inibir também
os grandes.
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