Sou amigo do Brasil

O favorito na corrida presidencial
argentina propõe desfazer o nó
das relações comerciais bilaterais

Raul Juste Lores, de Buenos Aires

Fernando de la Rúa, de 62 anos, será, provavelmente, o homem com quem o Brasil terá de negociar o fim da guerra de medidas protecionistas e retaliações em que se transformaram as relações comerciais com a Argentina. A crise, iniciada com a desvalorização do real e seus reflexos devastadores na balança comercial do vizinho, chegou nos últimos dias a ameaçar a própria existência do Mercosul. Ao governo brasileiro, resta aguardar o resultado da eleição presidencial de 24 de outubro. As pesquisas indicam a vitória de De la Rúa, o candidato da aliança de centro esquerda que se opõe ao presidente Carlos Menem. Se a tendência se mantiver, ele passará a ocupar a Casa Rosada no dia 10 de dezembro. De la Rúa é um homem discreto muitos acham até que discreto e tímido demais. Entusiasmo maior mostra quando fala de sua estima pelo Brasil: chega a dizer que nem no futebol os dois países são rivais. O candidato estudou em escola militar, formou-se em direito e ingressou na política pelos bastidores, até eleger-se para o atual cargo, prefeito de Buenos Aires. Nessa função ganhou fama de honesto e austero. Ele faz dessas qualidades sua bandeira de campanha.

Veja Existe solução para os desentendimentos entre Brasil e Argentina na área comercial?

De la Rúa Os dois países estão enfrentando problemas econômicos, mas as decisões não podem ser políticas, com cada presidente defendendo sua indústria. Aos governantes deve caber a criação de relações de confiança e mais intercâmbio de informações. Eu sou amigo do Brasil, adoro o seu país. O Mercosul deve ser para o bem de todos. Não devemos nos prejudicar reciprocamente. Temos de lutar juntos no mercado internacional para promover nossos produtos. Mas é preciso criar um órgão arbitral para a solução dos conflitos comerciais, sem burocracia ou intervenção direta dos governos. Se cada solução tem de passar pelos governos, o problema deixa de ser comercial e vira político. Faltam regras. Há diferenças cambiais entre os países, e normas mais estáveis evitariam o desequilíbrio.

Veja O Brasil é o único mercado com o qual a Argentina tem superávit, mesmo depois da desvalorização do real. Não há uma dose de injustiça nas acusações ao Brasil?

De la Rúa A Argentina tem enorme estima pelo Brasil. É preciso que isso fique claro. Não há sentimento antibrasileiro nem no futebol.

Veja Não?

De la Rúa Quando competimos, torcemos pela Argentina. Mas posso testemunhar que sempre que o Brasil joga uma final de Copa do Mundo contra outro país a torcida argentina fica do lado do Brasil. Sei que no Brasil há torcida pela Argentina também. São valores que devemos preservar. Quero que o ensino de português se integre ao currículo básico, não apenas como disciplina optativa. Somos países irmãos.

Veja A indústria argentina, às vezes, não pede atitudes protecionistas?

De la Rúa Não podemos analisar friamente a balança comercial. Deve haver espírito de cooperação. Houve um clima de rivalidade, superado há anos. Agora devemos dar fluidez ao comércio, deixar que o setor privado o faça, sem tanta intervenção do Estado. Mas a agenda social do Mercosul também é importante. Quando as regras comerciais do Mercosul atentam contra a paz social, deveríamos examiná-las com boa vontade. As regras comerciais não devem ser destrutivas para um setor, ou agravar problemas sociais, ou gerar desemprego. O Brasil e a Argentina têm os mesmos problemas. A cooperação tecnológica é fundamental para potencializar e divulgar a marca Mercosul.

Veja O chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia disse que a indústria argentina não fez a lição de casa e por isso reclama da competição com a brasileira.

De la Rúa O governo argentino tomou uma série de atitudes infelizes, como o pedido de ingresso na Organização do Tratado do Atlântico Norte, Otan, ou a dolarização unilateral. Isso gerou desconfiança e um tratamento ríspido entre as divisões diplomáticas dos dois países. Mas não se pode negar que a indústria argentina se modernizou. As cifras de exportação de bens de capital e de tecnologia cresceram muito. Temos é de melhorar a competitividade argentina, eliminando custos desnecessários. A Argentina sofreu muito com a desvalorização no Brasil. O governo brasileiro conduziu muito bem o caso, mas nós temos de manter a conversibilidade. Os contratos e as dívidas do país são em dólares. Temos de baixar o custo argentino em outros campos. Importante é trabalharmos em conjunto para enfrentar obstáculos nos mercados mundiais, como os subsídios agrícolas ou as barreiras não alfandegárias. É aí que o Mercosul deve fazer sentir sua força, ao pedir regras eqüitativas no comércio internacional. O Brasil teve uma boa política de promoção de seus produtos no mundo, muito mais que a Argentina.

Veja Seria só por isso que a indústria argentina vive reclamando?

De la Rúa Não houve uma política de Estado para a indústria depois da abertura ampla que tivemos. Vou dar um exemplo. Houve vários casos de dumping. Produtos chegavam aqui de diversas partes do mundo com preços irreais. Os empresários argentinos entravam com uma ação, que demorava dois anos para ser resolvida. Quando a queixa era finalmente julgada, a indústria já tinha entrado em colapso. O Banco Nación (estatal) tem de ajudar com créditos aos pequenos e médios. Antes se confiava numa idéia velha, de que o mercado resolvia tudo. Nos países desenvolvidos, o Estado atua como fator de equilíbrio para corrigir deformações e permitir que haja concorrência leal.

Veja Por que a Argentina é tão cara para quem produz? Telefone, eletricidade, transportes estão entre os mais caros do mundo. O senhor pretende rever as privatizações?

De la Rúa O erro da reforma do Estado nas privatizações, apesar da melhora dos serviços, foi ter permitido um grande aumento de custos, que incidem na economia como um todo. Deve-se planejar uma concorrência mais aberta ou rever os preços excessivos. O governo que termina agora não pode renegociar os contratos, porque isso trará aumento de tarifas. Quero deixar claro que vou respeitar a legalidade e a continuidade jurídica. Vamos examinar as negociações que estão sendo feitas neste último período do governo. Seremos severos.

Veja Quais serão suas três primeiras medidas se chegar à Casa Rosada?

De la Rúa Assinar um projeto de incentivo para as pequenas e médias empresas, organizar a luta contra a corrupção e pôr em ordem a Previdência Social. E várias outras medidas, como um plano para reerguer a educação. O eixo principal é criar mais empregos. Para isso, tenho de reativar a economia.

Veja Como pretende apoiar as pequenas e médias empresas e investir em educação sem aumentar os gastos públicos?

De la Rúa Não vou aumentar os gastos, só usarei melhor os recursos já existentes. Para as pequenas e médias empresas, destinaremos as carteiras de crédito do Banco Nación. Hoje, o banco só cuida de grandes tomadores de crédito que não lhe pagam as dívidas depois.

Veja Se a Argentina sofrer um grande ataque especulativo, o que o senhor fará? Dolarizará de uma vez, desvalorizará o peso ou estabelecerá um câmbio flutuante?

De la Rúa O país tem reservas suficientes para garantir a conversibilidade. O risco não é um ataque especulativo, e sim as crises que impulsionam a fuga de capitais, como aconteceu no México e no Sudeste Asiático. Vamos manter nossas reservas sólidas.

Veja O Brasil e o México também tinham grandes reservas.

De la Rúa O que os mercados querem é atitudes que inspirem confiança. Minha luta contra o déficit e minha austeridade inspiram confiança. Em vez de ataques especulativos, vou trazer investimentos e trabalhar duro para conseguir o equilíbrio orçamentário.

Veja Como eliminar o déficit?

De la Rúa Cortando gastos supérfluos, melhorando a arrecadação e enxugando a administração. O primeiro a apertar o cinto será o próprio presidente. Vou vender o avião presidencial Tango 1. O presidente Fernando Henrique Cardoso tem avião?

Veja Sim, mas é mais simples que o Tango 1.

De la Rúa Então, eu posso viajar num avião menor e mais simples. Nunca vejo os governantes europeus esbanjando em viagens. Vou acabar com os preços superfaturados, economizar nas compras do governo. Eu economizei muito na prefeitura de Buenos Aires, renovando contratos com melhores preços e economizando nas compras do dia-a-dia.

Veja O senhor é favorável à dolarização?

De la Rúa Não, não. Nossa cultura já é muito ligada ao dólar, por tradição e pela conversibilidade, que permitiu contratos, tarifas e dívidas vinculados à moeda americana. A dolarização é um assunto complexo, sem paralelo no mundo. E traz aspectos negativos, por cercear o projeto ideal, uma moeda comum para o Mercosul, que manteria o equilíbrio macroeconômico de nossos países.

Veja Recentemente o senhor falou em flexibilizar as leis trabalhistas. Como pretende fazer isso?

De la Rúa Não usei a palavra flexibilização. Falo de modernização do sistema com o objetivo de criar mais empregos. Estamos trabalhando para adaptar os acordos coletivos às novas tecnologias e dar mais mobilidade ao trabalhador. As metas são descentralizar as negociações coletivas e simplificar os trâmites para contratar um empregado.

Veja A Confederação Geral do Trabalho, CGT, organizou catorze greves gerais no governo de seu correligionário Raúl Alfonsín. O senhor não teme algo semelhante?

De la Rúa Os próprios sindicalistas reconhecem que aquilo foi um erro. Eles não fizeram bem ao país. Quero manter um diálogo com todos os sindicatos, independentemente da orientação política.

Veja Por que o senhor quer ser presidente?

De la Rúa Porque acho que posso fazer as coisas de modo melhor do que elas vêm sendo feitas. Tenho vocação para servir. Ser presidente é trabalhar para o povo e para o país, segundo a minha crença de como deve ser o destino de meu país. Trabalharei o melhor possível. Se você vê alguém fazendo mal uma coisa, observa e diz: "Deixe isso para mim, que eu faço melhor".

Veja Esse alguém a quem o senhor se refere é Menem?

De la Rúa Sim. A política é assim: você se sente estimulado a fazer melhor do que aquele com o qual não está de acordo.

Veja O senhor herdará uma Argentina melhor ou pior do que a deixada por Alfonsín a Menem?

De la Rúa Pior, por causa do desemprego. A hiperinflação do final do governo de Alfonsín era um fenômeno que se poderia controlar. O desemprego atual e o aumento da pobreza são muito graves. Foram feitas as privatizações, mas com má distribuição de renda. O povo não participou dos anos de crescimento. É um paradoxo: o país cresceu, mas o desemprego e a pobreza também aumentaram. Temos desafios similares aos dos vizinhos do Mercosul. Fortalecer o mercado interno é a melhor defesa perante a mobilidade de capitais que caracteriza a globalização.

Veja O senhor se considera um adepto da terceira via, preconizada pelo primeiro-ministro inglês, Tony Blair?

De la Rúa Eu me considero do novo caminho, que é uma definição que fiz antes da campanha, antes que se falasse de terceira via. É preciso compatibilizar desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. O que interessa é ter uma economia saudável, na qual o Estado saiba o seu papel e o setor privado o dele. Não podemos voltar a ter uma economia estatizada e esquecer nossos deveres.

Veja O líder petista Luís Inácio Lula da Silva disse que torce por sua vitória. O que o senhor tem em comum com ele?

De la Rúa Lula tem grandes preocupações com o povo, como eu. Cada um em seu país tem uma visão própria de como encaminhar essa luta.

Veja Quais foram os pontos positivos da era Menem?

De la Rúa Ele conseguiu a estabilidade econômica e a manteve. Foi positivo ter feito a reforma do Estado, mas o custo dela foi muito alto, prejudicando nossa competitividade. Menem se esqueceu das políticas sociais. Não soube repartir.

Veja Menem e o peronismo terão dois terços do Senado, dois de cada três governadores e o apoio das maiores centrais sindicais. Dá para governar com uma oposição tão forte?

De la Rúa Eu pretendo inaugurar uma nova política de convivência, com responsabilidade, consenso e patriotismo. O povo argentino está dando uma lição, escolhendo governadores de um partido e enviando sinais de que está disposto a votar num presidente de outro partido. O pluralismo que os eleitores estão consagrando deve manifestar-se nas instituições, com atitudes construtivas de governantes e legisladores. Meu governo não vai discriminar nenhuma província pela cor política do governador. Nem o Senado deve obstruir a gestão do presidente. Em 2001, haverá eleições para senadores, renova-se integralmente o Senado. Os tempos difíceis em que vivemos exigem uma nova política.

Veja Por que dizem que o senhor é chato?

De la Rúa Não é verdade que eu seja chato. Com certeza, sou diferente de Menem. Quando há situações difíceis, respondo com expressões muito sérias e acabam achando que sou chato. Tem gente que gosta de rir mesmo das coisas sérias. Houve muito show na política da era Menem. Agora, precisamos de austeridade. De atitudes exemplares do presidente. No início, as pessoas se divertem com as graças, mas com o tempo se perguntam: "Do que estamos rindo?"







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