Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Tales Alvarenga
Caça ao rato

"Entre os honestos integrantes do governo,
do Congresso, dos tribunais, das delegacias,
das carreatas eleitorais e das concorrências
públicas, há um bom número de ratos infiltrados"

Correu mundo a notícia de que a Inglaterra discute se proíbe ou não a caça à raposa. Ah, os ingleses! São encantadores em seu esnobismo e imbatíveis no senso de humor. Também são mestres em marketing. Aquele homem vestido de Batman que subiu a um parapeito do Palácio de Buckingham para defender os direitos dos pais divorciados conseguiu mais visibilidade num dia do que o primeiro-ministro Tony Blair em seis meses.

Se queremos ser um dia um país tão charmoso como a Inglaterra, devemos imitar alguns traços dos ingleses. Sugiro que, ao estilo britânico, comecemos com um golpe de marketing contra a corrupção. Precisamos desmascarar de uma vez por todas a roubalheira.

Minha sugestão é instituir a semana da caça ao rato para dar maior visibilidade às denúncias. Uma ONG seria fundada para atirar em notórios corruptos com aquelas armas que lançam bolsas de tinta em vez de chumbo. Os integrantes dessa ONG procurariam os corruptos notórios e – plá! – pintariam a camisa do distinto com um borrão vermelho. Entre os honestos integrantes do governo, do Congresso, dos tribunais, das delegacias, das carreatas eleitorais e das concorrências públicas, há um bom número de ratos infiltrados. Plá. Plá. Plá. Lá se foram três para casa, trocar de roupa. Isso explodiria nas manchetes do dia seguinte.

Nos últimos anos, o Brasil tomou novas medidas contra a corrupção, e elas estão funcionando. O Ministério Público colocou criminosos de colarinho branco na cadeia. O Congresso aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal, instrumento que leva à prisão o administrador público irresponsável com o dinheiro do contribuinte. Há CPIs a plena carga. A boa notícia é que existem instrumentos mais eficientes à disposição do poder público para coibir os ladrões. A má é que, por falta de conscientização da sociedade e dos próprios criminosos, a roubalheira continua ativa.

A semana da caça ao rato seria uma espécie de ratoeira moral. Os militantes da ONG agiriam de maneira espetacular e meio suicida, como fazem os integrantes do movimento ecológico Greenpeace, que se penduram perigosamente em barcos de pesca para evitar a matança de alguma espécie.

Não é apenas por uma questão moral que devemos nos preocupar com a caça ao rato. O combate à corrupção aumenta a riqueza dos países e diminui a miséria das classes excluídas. Veja esta comparação. Em um levantamento do Banco Mundial, o Brasil aparece em septuagésimo lugar numa lista de países classificados por ordem de honestidade. No índice de desenvolvimento humano da ONU, o Brasil ocupa o 72º lugar. Como se vê, corrupção e atraso andam lado a lado.

É fácil entender por quê. Como metade da economia brasileira vive na informalidade, isto é, não paga impostos, falta dinheiro público para investir em educação, saúde, Justiça, polícia. As empresas que cumprem corretamente suas obrigações para com o Fisco têm de arcar com impostos insuportáveis e com a concorrência desleal daqueles que atuam na clandestinidade. Nem estrangeiros nem brasileiros se animam a investir num país onde é preciso pagar propina para instalar um negócio e, depois, fazer desembolsos ilegais periódicos para mantê-lo funcionando. A corrupção, porém, é apenas um traço cultural. É possível mudar essa herança. Um pouco de marketing não faria mal.

 
 
 
 
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