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Tales
Alvarenga
Caça ao rato
"Entre
os honestos integrantes do governo,
do Congresso, dos tribunais, das delegacias,
das carreatas eleitorais e das concorrências
públicas, há um bom número de ratos infiltrados"
Correu
mundo a notícia de que a Inglaterra discute se proíbe
ou não a caça à raposa. Ah, os ingleses! São
encantadores em seu esnobismo e imbatíveis no senso de humor.
Também são mestres em marketing. Aquele homem vestido
de Batman que subiu a um parapeito do Palácio de Buckingham
para defender os direitos dos pais divorciados conseguiu mais visibilidade
num dia do que o primeiro-ministro Tony Blair em seis meses.
Se queremos
ser um dia um país tão charmoso como a Inglaterra,
devemos imitar alguns traços dos ingleses. Sugiro que, ao
estilo britânico, comecemos com um golpe de marketing contra
a corrupção. Precisamos desmascarar de uma vez por
todas a roubalheira.
Minha sugestão
é instituir a semana da caça ao rato para dar maior
visibilidade às denúncias. Uma ONG seria fundada para
atirar em notórios corruptos com aquelas armas que lançam
bolsas de tinta em vez de chumbo. Os integrantes dessa ONG procurariam
os corruptos notórios e plá! pintariam
a camisa do distinto com um borrão vermelho. Entre os honestos
integrantes do governo, do Congresso, dos tribunais, das delegacias,
das carreatas eleitorais e das concorrências públicas,
há um bom número de ratos infiltrados. Plá.
Plá. Plá. Lá se foram três para casa,
trocar de roupa. Isso explodiria nas manchetes do dia seguinte.
Nos últimos
anos, o Brasil tomou novas medidas contra a corrupção,
e elas estão funcionando. O Ministério Público
colocou criminosos de colarinho branco na cadeia. O Congresso aprovou
a Lei de Responsabilidade Fiscal, instrumento que leva à
prisão o administrador público irresponsável
com o dinheiro do contribuinte. Há CPIs a plena carga. A
boa notícia é que existem instrumentos mais eficientes
à disposição do poder público para coibir
os ladrões. A má é que, por falta de conscientização
da sociedade e dos próprios criminosos, a roubalheira continua
ativa.
A semana
da caça ao rato seria uma espécie de ratoeira moral.
Os militantes da ONG agiriam de maneira espetacular e meio suicida,
como fazem os integrantes do movimento ecológico Greenpeace,
que se penduram perigosamente em barcos de pesca para evitar a matança
de alguma espécie.
Não
é apenas por uma questão moral que devemos nos preocupar
com a caça ao rato. O combate à corrupção
aumenta a riqueza dos países e diminui a miséria das
classes excluídas. Veja esta comparação. Em
um levantamento do Banco Mundial, o Brasil aparece em septuagésimo
lugar numa lista de países classificados por ordem de honestidade.
No índice de desenvolvimento humano da ONU, o Brasil ocupa
o 72º lugar. Como se vê, corrupção e atraso
andam lado a lado.
É
fácil entender por quê. Como metade da economia brasileira
vive na informalidade, isto é, não paga impostos,
falta dinheiro público para investir em educação,
saúde, Justiça, polícia. As empresas que cumprem
corretamente suas obrigações para com o Fisco têm
de arcar com impostos insuportáveis e com a concorrência
desleal daqueles que atuam na clandestinidade. Nem estrangeiros
nem brasileiros se animam a investir num país onde é
preciso pagar propina para instalar um negócio e, depois,
fazer desembolsos ilegais periódicos para mantê-lo
funcionando. A corrupção, porém, é apenas
um traço cultural. É possível mudar essa herança.
Um pouco de marketing não faria mal.
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