Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Das carícias proibidas
à tragédia nacional

De como os amores entre duas mulheres
podem ter influenciado no suicídio de Vargas

Um enlace amoroso entre duas mulheres estaria na origem do episódio mais dramático da história republicana, o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Eis a hipótese contida num livro recentemente lançado, Getúlio, do jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva (Editora Record). A alemã Ingeborg ten Haeff, casada com o filho mais velho de Getúlio, Lutero, um dia foi surpreendida pelo marido em brincadeiras libidinosas com uma amiga. Esse episódio vai conduzir, anos depois, ao famoso atentado da Rua Tonelero contra o jornalista Carlos Lacerda, que por sua vez conduzirá ao suicídio do presidente. Difícil de acreditar? Não tanto, quando se tem em conta o delírio daqueles dias, protagonizados por personagens movidos a paixão e fúria.

Getúlio, outra vez. E Ingeborg, outra vez. Vai-se falar pela terceira vez nas últimas semanas, neste espaço, do mais discutido presidente que o país já teve, e pela segunda da alemã que foi sua nora. O livro de Juremir Machado, instigante e bem armado, o justifica. Trata-se de um romance. Ou melhor: de um intenso trabalho de pesquisa em torno dos eventos, personagens e circunstâncias da era Vargas, embalado sob a forma de romance. Juremir mergulhou fundo no tema. Leu tudo, entrevistou parentes de Getúlio e antigos colaboradores. Esteve com figuras que vão de Alcino João do Nascimento, o pistoleiro do célebre crime da Rua Tonelero, a Guilherme Arinos, sobrevivente da assessoria de Getúlio que – surpresa – vem a ser o pai de Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. Sobretudo, esteve com Ingeborg, que, sessenta anos depois de terminado o casamento com Lutero e cinqüenta depois da morte do sogro, vive, em Nova York, os 89 anos de uma vida intensa e fecunda.

Lutero Vargas conheceu Ingeborg, natural de Düsseldorf, num restaurante de Berlim, ao tempo em que aperfeiçoava os estudos de medicina na Alemanha. Os dois casaram-se em 1940, estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram uma filha. Em 1944, o casamento chegou a brusco final. Ingeborg foi posta num avião – isso ela própria conta no livro – e despachada do Brasil, escoltada por quatro homens. Disseram-lhe que ia para a Suíça, mas, depois de uma escala de 33 horas em Belém, desembarcou em Nova York. Foi uma deportação sem esse nome. Até hoje, Ingeborg diz que não sabe por que isso aconteceu. Na família Vargas e no governo, deu-se como explicação a mentira de que a mulher de Lutero seria espiã do regime nazista. Confessar que o verdadeiro motivo eram carícias com outra mulher seria desgraça demais para uma família curtida nos sagrados valores do machismo.

Dez anos depois, quando Carlos Lacerda esticava ao máximo, em seu jornal, Tribuna da Imprensa, a corda das denúncias contra o governo, ele é tocaiado em frente à sua casa, na Rua Tonelero, num atentado em que morre o militar que o acompanhava, o major Rubens Vaz. Não tarda para que se identifique como articulador do atentado o próprio chefe da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato. Mas Gregório teria agido por conta própria? Ou por trás dele haveria peixe mais graúdo? Já na época o nome de Lutero surgiu como suspeito. As investigações nesse sentido nunca deram em nada. O livro de Juremir não só retoma a hipótese, mas dá-lhe uma justificativa: Lutero teria sabido que Lacerda se preparava para publicar a verdadeira história de sua separação. A manchete já estaria pronta: "Lutero corno de mulher". Nesse momento, teria decidido matar o jornalista.

Ingeborg ten Haeff vive hoje num apartamento da Washington Square, no coração do Greenwich Village, e é artista plástica de sucesso. Depois de Lutero, casou-se outras duas vezes, uma com um arquiteto que foi parceiro de Le Corbusier e outra com um professor de russo. Ganhou prêmios e a cidadania americana, expôs em galerias prestigiosas e teve seu trabalho comentado por intelectuais como Gilles Deleuze e Félix Guattari. Em maio, foi homenageada com a abertura de uma retrospectiva e o lançamento de um livro sobre sua obra. Sua filha com Lutero, Cândida Darcy, que morreu no ano passado no Rio Grande do Sul, cresceu entre os Vargas e nunca a aceitou. Uma neta, Alexandra Manoela, casou-se com um americano e mora em Nova York.

Fotos de Ingeborg podem ser vistas na internet. Numa delas (www.nabiarts.com/Nabi/ithcurvit.htm) aparece de vestido longo, echarpe, foulard e chapéu, tudo enfaticamente vermelho. Noutra (www.washingtonlife.com/backissues/archives/
00apr/ebsworth_collection2.htm
) está num coquetel, igualmente de vestido longo, do gênero bata indiana, e chapéu. Ingeborg se veste como se espera que se vista uma artista plástica do circuito do Village. Estaria à vontade numa cena de Woody Allen. O Brasil só ocupou quatro anos de sua vida, que prosseguiu em contextos muito diversos. No Brasil, conforme sugere o livro de Juremir Machado, pode ter causado um furacão. Mas a recíproca não parece verdadeira. O país não lhe teria soprado ao rosto senão uma ligeira brisa.

 

 
 
 
 
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