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Entrevista:
Jerome Groopman
O remédio da esperança
O médico
americano diz que pacientes de
doenças graves devem acreditar na mais
remota chance de cura, se houver uma

Anna Paula Buchalla
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Divulgação

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"A esperança
não cura, mas pode dar ânimo ao paciente
para que ele continue a lutar pela sua melhora. Ela
inspira coragem para superar
o medo"
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Há
trinta anos o médico americano Jerome Groopman trata de pacientes
vítimas de câncer. Ao acompanhar de perto a angústia
dos doentes e de seus familiares, Groopman tirou uma lição:
mesmo nas situações mais graves, é preciso
manter a esperança. A convicção do médico
não tem nada de esotérico. Ao contrário, baseia-se
também em pesquisas que mostram como acreditar na cura, mesmo
quando as chances são ínfimas, pode ser de grande
valia num tratamento. Groopman, de 52 anos, acaba de ter lançado
no Brasil seu terceiro livro, A Anatomia da Esperança
(Editora Objetiva, 270 páginas), em que defende seu ponto
de vista por meio de relatos de casos. Professor da Faculdade de
Medicina da Universidade Harvard, chefe de medicina experimental
do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, e colaborador
da revista The New Yorker, ele é autor de outros dois
livros: The Measure of Our Days (A Medida de Nossos Dias)
e Second Opinions (Segundas Opiniões), que inspiraram
um seriado de televisão. Groopman deu a seguinte entrevista
a VEJA.
Veja
A esperança é capaz de salvar a vida de
um paciente?
Groopman
A
esperança não cura, mas pode dar ânimo ao paciente
para que ele continue a lutar pela sua melhora. Ela inspira coragem
para superar o medo durante um processo difícil de tratamento.
Há dados que mostram que os pacientes esperançosos
recuperam mais rapidamente a saúde e têm uma taxa de
sobrevida maior. Ela também tem a função de
colocá-lo como árbitro final de seu destino. É
da esperança que ele tira a energia para continuar tentando,
mesmo quando sabe que são poucas as possibilidades de sobrevivência.
Veja
Essa não é uma forma de pensamento positivo?
Groopman
Não.
É importante deixar claro que esperança não
tem nada a ver com otimismo. A esperança é um sentimento
mais complexo e muito mais profundo. O otimista acha que tudo vai
dar certo, que tudo vai acabar bem. Mas sabemos que na vida não
é assim. Nem sempre as coisas terminam como gostaríamos,
por mais duro que seja aceitar isso. Aliás, tudo pode dar
muito errado. Nutrir esperança é reconhecer, sempre
baseado na realidade dos fatos, que, apesar de todas as dificuldades,
é possível encontrar um caminho.
Veja
Isso é algo que um cético pode ter?
Groopman
Um cético pode ter esperança. Ele dirá, provavelmente,
que não acredita que um tratamento possa dar resultado só
porque ele é mais ou menos esperançoso. O papel do
bom médico nesse caso é dizer que, de fato, ele está
certo. Não se pode alimentar alguém com promessas,
mas com dados objetivos que atestem que existe uma chance e que
ela é real. O cético pode ver claramente todas as
possibilidades de um tratamento não dar certo. Mas é
dever do médico convencê-lo de que existem também
oportunidades de sucesso. E isso é o que chamo de esperança.
Mas, infelizmente, nem sempre um paciente se convence. Há
três décadas, a psiquiatra suíço-americana
Elisabeth Kübler-Ross investigou os sentimentos de pacientes
que recebem a notícia de que têm uma doença
grave. Primeiro, vem a negação. Depois, a raiva e
a negociação (como uma promessa religiosa, por exemplo).
Em seguida, a depressão e, por fim, a aceitação.
Na minha experiência, nem sempre é assim. Às
vezes, a negação persiste até o fim. Em outras,
a raiva é irremovível.
Veja
O efeito placebo, quando um paciente melhora apenas com
um remédio inócuo, é uma prova do poder da
esperança no tratamento de uma doença?
Groopman
O placebo é provavelmente a melhor prova biológica
que temos até agora do poder da esperança. Há
experiências impressionantes com pílulas de farinha
em pacientes com a doença de Parkinson. Os pacientes que
acreditavam estar tomando um remédio de verdade tiveram um
grande aumento na produção de substâncias químicas
cerebrais benéficas, como a dopamina, e uma melhora de suas
funções musculares. Mas há uma diferença
crucial entre esperança e placebo. O placebo, com o passar
do tempo, tende a ter seu efeito reduzido. Já a esperança
pode sempre ser recarregada.
Veja
Quando vale a pena insistir num tratamento, contrariando
o que mostram a experiência e as estatísticas da doença?
Groopman
Não se pode desprezar uma chance, por menor que seja. Vale
a pena tentar sempre, porque seu paciente pode estar naquele grupo
dos poucos que se beneficiam de um determinado tratamento. Impossível
saber antes. Em outras palavras, se para 2% ou 3% o tratamento funciona
em casos ditos como perdidos, seu paciente pode ser um deles, por
que não? Gosto de citar o exemplo de George Griffin, um patologista
da Universidade Harvard que foi vítima de um grave câncer
de estômago. A ironia é que o câncer de estômago
tinha sido o objeto de estudo de toda a sua vida. Ele fez questão
de receber um tratamento agressivo, com altas doses de quimioterapia,
algo que eu jamais tentaria em um paciente com prognóstico
como o dele. Treze anos depois de ter se submetido a essa terapia
de choque, Griffin continua vivo. Pode-se dizer que superou a doença,
algo inimaginável para muitos. A maioria dos tumores de um
mesmo tipo se comporta basicamente do mesmo modo. Mas sempre haverá
um George Griffin que consegue escapar. No século XIX, Oliver
Wendell Holmes, ensaísta e médico americano, professor
de anatomia e fisiologia da Universidade Harvard, escreveu: "Cuidado
para não retirar a esperança de outro ser humano".
Um médico jamais deve se colocar na posição
de juiz, dando ao paciente uma sentença de dias, semanas
ou meses de vida. Não se pode considerar uma pessoa perdida
a priori. A onisciência a respeito da vida e da morte não
faz parte do domínio do médico.
Veja
Mas alguns médicos ainda se comportam dessa forma,
como se tivessem controle sobre tudo.
Groopman
É verdade. Há uma boa piada que dá conta dessa
pretensão. Vários santos esperavam pacientemente para
entrar no céu, quando alguém de jaleco e estetoscópio
fura a fila. Um dos santos se aproxima de São Pedro cobrando
uma explicação e ouve a resposta: "Ora, aquele é
Deus. Ele acha que é médico".
Veja
Os médicos hoje tendem a ouvir mais seus pacientes
antes de tratá-los?
Groopman
Até
a década de 80, era comum que os médicos decretassem
logo de cara quanto tempo de vida tinha uma pessoa que sofria de
uma doença grave. E ponto final. Isso não era bom,
evidentemente, inclusive porque minava a esperança do paciente.
Nessa mesma época, como conseqüência da frieza
e da falta de comunicação com o médico, os
pacientes e seus familiares começaram a deixar claro que
queriam ser tratados com honestidade, e não com rudeza. Isso
incluía serem informados em detalhes sobre a doença
e as chances de o tratamento dar certo o que antes era informação
privativa dos médicos. Foi também nesse período
que os médicos passaram a enfrentar a concorrência
das terapias alternativas, que tendem a prover os pacientes de uma
longa e detalhada conversa sobre seu estado emocional. Agora, graças
à confluência desses fatores, estamos começando
a viver uma fase mais equilibrada, em que o paciente é encorajado
a lutar juntamente com o médico. Como numa parceria.
Veja
Na hipótese mais provável de um paciente
grave não ter a sorte de estar no pequeno grupo que se beneficia
do tratamento, insistir até o fim não é apenas
uma forma de prolongar o seu sofrimento?
Groopman
Depende do caso. Em algumas situações, em que o tratamento
é doloroso e fica muito claro que a doença não
está respondendo ao tratamento ou porque a terapia
falhou ou porque é muito tóxica , o melhor é
recuar. Do contrário, pode-se estar tirando dias, semanas
ou até mesmo meses em que esse paciente poderia estar em
casa, ao lado dos amigos e da família.
Veja
Como médico, o que o senhor faz quando constata
que um paciente não tem a menor chance de sobreviver?
Groopman
Passou pelas minhas mãos uma mulher maravilhosa, lutadora,
mas com um câncer em fase terminal. Eu não tinha nada
a oferecer e, ainda assim, ela me disse que eu estava errado. Que
eu tinha a oferecer o remédio da amizade. O que ela queria
dizer é que, naquele momento, eu deveria ajudá-la
a cuidar de seu espírito, já que o corpo não
respondia mais.
Veja
Então nunca se deve dizer a um paciente que seu
caso não tem mais esperança, mesmo que ele esteja
em estado terminal?
Groopman
Em geral, há muita gente envolvida num caso terminal: outros
médicos, a família, amigos, além do principal
interessado, o doente. Eu diria que, se o paciente quiser saber
qual o seu real estado, o médico deve ser honesto com ele
e fornecer todas as informações clínicas. Por
mais estranho que possa parecer, essa é uma forma de dar
esperança ao paciente. Afinal, ele é quem sabe melhor
o que quer fazer com o tempo que lhe resta.
Veja
Com o advento da internet e o aumento das notícias
sobre saúde em jornais, revistas e televisão, as pessoas
têm mais informações sobre doenças. Isso
é bom ou ruim para cultivar a esperança?
Groopman
Acredito que o paciente tem amplo direito de saber tudo sobre a
sua doença, mas pode ser muito difícil para ele interpretar
números e estatísticas dos noticiários e entender
seu caso individualmente. Há ainda uma quantidade enorme
de informações na internet que não são
tão acuradas. É papel do médico ajudar o paciente
a encontrar esperança onde ela de fato exista. Mas mesmo
o profissional mais cuidadoso pode errar. Certa vez, despejei sobre
uma paciente uma série de estatísticas de sobrevivência
relativas a sua doença. O resultado foi que, diante dos números
apresentados, ela não conseguia deixar de pensar que iria
morrer a qualquer momento. As situações mais rotineiras
eram enegrecidas pelo espectro da morte. Eu me culpei muito por
isso e cheguei à conclusão de que é necessário
um equilíbrio. Em resumo, não é preciso arrasar
uma pessoa com a frieza das estatísticas, nem pecar por omissão.
Veja
O medo seria o principal inimigo da esperança?
Groopman
Eu já estive na posição de paciente e sei que,
quando se está com medo, é muito difícil ver
as coisas com clareza. Acho que cada paciente deveria ter a seu
lado familiares ou amigos que ouvissem cuidadosamente o que diz
o médico e o ajudassem a tomar decisões. Isso porque
muitos doentes ficam clinicamente deprimidos e acabam desistindo
de um tratamento, por mais promissor que ele seja. Cito no meu livro
o caso de um ex-combatente de guerra que teve um linfoma. Por ter
visto um colega morrer do mesmo mal, e por tê-lo acompanhado
em seu sofrimento, ele a certa altura desistiu de lutar. Sem falsas
esperanças, mas com o que podia prometer a ele, eu o convenci
a se tratar. E ele está vivo até hoje.
Veja
O senhor acredita que a fé religiosa possa ter
influência em alguns processos de cura?
Groopman
Acho que rezar e acreditar em algo é imprescindível
na medida em que leva uma pessoa a focar a sua mente. Já
está provado que aquietar a mente traz benefícios
diretos ao organismo, como a redução da pressão
arterial e dos batimentos cardíacos. Posso assegurar, no
entanto, que procurei incessantemente um dado científico
que mostrasse que um paciente com câncer que reze se sai melhor
do que um que não reze. E não encontrei nenhuma evidência
disso. Mas, é claro, a oração e a fé
são uma forma de ajuda, uma excelente ferramenta para que
o doente se sinta esperançoso. Há uma frase ótima
na tradição judaica: "Reze por um milagre, mas não
espere por um".
Veja
O senhor foi vítima de uma grave lesão num
disco lombar e, de repente, se viu na condição de
paciente. De que forma essa experiência mudou sua visão
da prática médica?
Groopman
Uma vez escrevi que aprendi mais nos poucos meses em que fui paciente
do que em todos os anos que passei na faculdade de medicina. A experiência
me ensinou muitas coisas. A primeira delas é que, quando
se é paciente, se fica extremamente vulnerável. Ouvi
de um médico que eu ficaria bom e preferi acreditar nele,
obviamente. O problema é que ele não estava sendo
honesto comigo, porque não tinha a solução
para a minha dor. Aprendi que é preciso questionar e ter
uma segunda opinião. Sempre. Eu não sou perfeito,
cometo erros. Posso errar em meus julgamentos e incentivo meus pacientes
a procurar outro especialista em casos graves. Talvez outro médico
tenha uma visão diferente e melhor do mesmo caso.
Veja
Quem tem esperança vive melhor?
Groopman
Essa
é a conclusão. Um paciente esperançoso e confiante
pode viver mais ou não. Mas pelo menos vive melhor consigo
próprio. E essa é uma ótima razão para
ter esperança.
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