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Em
foco: Gustavo Franco
O déficit continua,
agora menor
"De
forma tímida o governo anuncia
que
pretende reduzir em
0,25% o rombo em suas
contas. Deveríamos
estar reclamando que
é pouco"
O assunto
da semana foi uma velha doença nacional, que certamente merece
a designação que lhe confere a linguagem mais direta
das páginas econômicas, o "rombo" nas contas do governo.
Curiosamente,
a decisão de diminuir o "rombo" foi recebida por muitos de
forma negativa, como se fosse mais "aperto", ou algo que prejudicasse
o setor produtivo ao destinar mais recursos para servir a dívida
pública, dessa forma violando o velho princípio segundo
o qual a dívida pública não se paga, apenas
se rola. Ou se enrola.
Ale Setti
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Todavia, a eufórica reação da bolsa ao anúncio
pareceu indicar que os tempos mudaram. Sim, a percepção
dominante, nos dias de hoje, é que o "rombo" nas contas públicas
deve ser visto como uma doença, e muito séria. Afinal,
um país, uma empresa ou um indivíduo que sistematicamente
gasta mais que sua renda, e se endivida progressivamente, vai acabar
quebrando. Suas finanças, para usar um termo da moda, não
são sustentáveis.
Mas nem
sempre foi assim. Muitos anos se passaram até que a opinião
dominante tomasse a inflação, assim como o "rombo"
nas contas públicas, como patologia, e a demora tem muito
a ver com curandeiros, e mesmo médicos, opinando que não
se trata de doença, mas de algo que serve a um propósito
nobre. Qual, exatamente, é cada vez mais difícil dizer.
Com o que sabemos hoje sobre os efeitos da inflação
na economia, o leitor precisa dar umas cambalhotas para perceber
como exatamente a inflação serve para fazer o bem.
E o mesmo se passa com o "rombo" nas contas do governo e com a dívida
pública.
Durante
décadas, a funcionalidade do "rombo" era explicada de forma
simples: o gasto público fomenta o desenvolvimento, e os
impostos, bem, os impostos jamais deixariam de ser impostos, pois
ninguém há de pagá-los voluntariamente.
Nunca houve
dificuldade, portanto, em construir instituições,
doutrinas e hábitos conducentes ao "rombo", especialmente
se suas nefastas conseqüências inflação
e dívida pública são ocultadas debaixo
do tapete semântico fornecido pela retórica desenvolvimentista:
a inflação é um detalhe, a fumaça inevitável
das novas fábricas; o "rombo", uma necessidade, a alavanca
do investimento; e a dívida pública, apenas outro
detalhe, também desconfortável, um dia dá-se
um jeito. Como os juros são juros, sempre indecentes porque
são altos ou porque são juros, fica a impressão
de que a dívida que lhes dá origem é meio ilegítima,
ou um gasto público de categoria inferior.
O leitor
que tem memória bem sabe quanta violência foi perpetrada
com base nessas noções pervertidas de finanças
públicas.
O véu
protetor do "rombo" começou a ser destruído com o
transporte para o domínio da macroeconomia, seguindo-se ao
Plano Real, das noções de ética no uso do dinheiro
público que se tornaram imperativas com o retorno à
democracia. No Planalto Central todos eram contra a noção
de "ajuste fiscal", mas em algum momento ficou evidente que a boa
gestão da coisa pública compreendia não apenas
virtudes e obrigações individuais dos agentes públicos,
mas também o mérito das políticas públicas.
Nesse contexto surge o conceito de "responsabilidade fiscal", que
restou consagrado em uma lei, mas ainda está longe de ter
todas as suas implicações estabelecidas em nossa legislação.
Emerge
também, e crescentemente, um velho princípio que remonta
a David Ricardo, economista que viveu no fim do século XVIII,
segundo o qual a dívida de hoje é o imposto de amanhã.
Faz todo sentido em país sério, onde a dívida
pública é para ser paga, e sem enrolação.
A experiência
dos últimos anos mostra que não é simples reduzir
o "rombo", tendo em vista as amarras do passado, as obrigações
constituídas, os mandamentos legais e constitucionais. Depois
de uma década de ajustes e reformas, seguindo-se à
introdução do real, o "rombo" ainda está na
faixa de uns 3% do PIB ou mais. De forma tímida, quase envergonhada,
o governo anuncia que pretende reduzi-lo em 0,25% (através
do aumento no "superávit primário") e neste ano apenas.
Deveríamos estar reclamando que é pouco.
Gustavo Franco é economista da
PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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