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Carta ao leitor
Um país normal
Tasso Marcelo/AE
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| Palocci e Dirceu: saída
mesmo só pelo corte de gastos |
Ao contrário
do jornalismo, que tem na normalidade sua nêmesis, a vida
econômica de um país precisa dela mais do que de ar.
Ser uma economia normal é uma conquista. Para avaliar quanto
ela é preciosa, basta lembrar que no Brasil a normalidade
sempre foi uma exceção. Só nos últimos
vinte anos, os brasileiros foram submetidos a sete planos salvacionistas,
tiveram seis moedas e passaram por incontáveis choques nas
regras do jogo econômico, entre eles uma moratória,
três maxidesvalorizações cambiais, cinco congelamentos
de preços e até um confisco da poupança.
Uma reportagem
da presente edição de VEJA mostra que ficou estabelecido
no núcleo do governo Lula o consenso de que no campo econômico
a ordem agora é ser normal. O caminho para isso, acertou-se
entre os próceres petistas, entre eles os ministros Antonio
Palocci e José Dirceu, será adotar políticas
estabilizadoras de longo prazo. A mais vital delas é aumentar
o superávit primário valor que se obtém
depois que o governo paga todas as suas contas, com exceção
dos juros da dívida. Essa foi a saída para países
como Bélgica, Itália e Irlanda, que, historicamente
endividados e instáveis, conseguiram tornar-se modelos de
crescimento sustentado depois de quase duas décadas produzindo
superávits anuais.
No consenso
estabelecido na semana passada, porém, deu-se pouca ênfase
ao modo como se espera atingir os superávits. Obter superávits
pelo aumento de impostos, como tem sido feito até agora,
é um atalho para o fracasso. É da mais crucial importância
que eles sejam conseguidos da única maneira que garante a
estabilidade: pelo corte de gastos do governo. Gastar menos não
deve, porém, implicar a degradação dos já
combalidos serviços estatais. Deve ser sinônimo, sim,
de gastar melhor e sem desperdícios. A propósito,
de uma recente mesa-redonda promovida pelo jornal americano The
Wall Street Journal com seis ganhadores do Prêmio Nobel
de Economia, brotou uma síntese poderosamente útil
das qualidades de um governo: "Gaste menos, tribute menos, regule
menos".
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