Edição 1873 . 29 de setembro de 2004

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Carta ao leitor
Um país normal

 
Tasso Marcelo/AE
Palocci e Dirceu: saída mesmo só pelo corte de gastos

Ao contrário do jornalismo, que tem na normalidade sua nêmesis, a vida econômica de um país precisa dela mais do que de ar. Ser uma economia normal é uma conquista. Para avaliar quanto ela é preciosa, basta lembrar que no Brasil a normalidade sempre foi uma exceção. Só nos últimos vinte anos, os brasileiros foram submetidos a sete planos salvacionistas, tiveram seis moedas e passaram por incontáveis choques nas regras do jogo econômico, entre eles uma moratória, três maxidesvalorizações cambiais, cinco congelamentos de preços e até um confisco da poupança.

Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra que ficou estabelecido no núcleo do governo Lula o consenso de que no campo econômico a ordem agora é ser normal. O caminho para isso, acertou-se entre os próceres petistas, entre eles os ministros Antonio Palocci e José Dirceu, será adotar políticas estabilizadoras de longo prazo. A mais vital delas é aumentar o superávit primário – valor que se obtém depois que o governo paga todas as suas contas, com exceção dos juros da dívida. Essa foi a saída para países como Bélgica, Itália e Irlanda, que, historicamente endividados e instáveis, conseguiram tornar-se modelos de crescimento sustentado depois de quase duas décadas produzindo superávits anuais.

No consenso estabelecido na semana passada, porém, deu-se pouca ênfase ao modo como se espera atingir os superávits. Obter superávits pelo aumento de impostos, como tem sido feito até agora, é um atalho para o fracasso. É da mais crucial importância que eles sejam conseguidos da única maneira que garante a estabilidade: pelo corte de gastos do governo. Gastar menos não deve, porém, implicar a degradação dos já combalidos serviços estatais. Deve ser sinônimo, sim, de gastar melhor e sem desperdícios. A propósito, de uma recente mesa-redonda promovida pelo jornal americano The Wall Street Journal com seis ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, brotou uma síntese poderosamente útil das qualidades de um governo: "Gaste menos, tribute menos, regule menos".

 
 
 
 
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