"Se permitirmos que
o preconceito nos
domine, seremos em breve o mais atrasado
no círculo dos povos atrasados"
"Minha colega
disse que avó não namora!", comentou Tatinha.
Lilibeth, a
avó, riu, tirando os óculos como se assim pudesse
rir melhor: "Mas que maluquice, filhota!", disse. "Sua colega
deve ter ouvido isso dos adultos, que falam muita bobagem
mesmo. Isso é preconceito!"
Tatinha arregalou
os olhos: "O que é preconceito, vovó?".
"Preconceito
é uma doença. Não do corpo, mas da alma.
As pessoas com essa doença pensam tudo torto, enxergam
errado. Por exemplo, acham que criança não sabe
nada, que velho não pode mais ser feliz, que só
os moços e bonitos amam, que a gente deve desconfiar
de pessoas diferentes, que todos os pobres são perigosos
e todos os ricos são maus, essas coisas."
Meu livro infantil
A Volta da Bruxa Boa, a sair nestes dias pela editora
Record, fala de assuntos que hoje fazem parte da vida de uma
criança. Ao contrário do que muita gente acredita,
criança pensa e tem sido fascinante descobrir
jeitos de lhes falar de coisas a que elas estão expostas
atualmente, coisas com as quais a menina que fui nem sonhava.
Ilustração
Atômica Studio
Nesse livro de histórias divertidas, que com seu irmão
mais velho, Histórias da Bruxa Boa, é
uma pequena fábula sobre a família, também
falo de preconceito. Acabamos de ver um acontecimento antipreconceito
que deve nos ensinar, a todos, e muito: o Parapan. Pessoas
com deficiências dramáticas, em lugar de estar
em asilos ou escondidas em casa, praticam esportes, são
excelentes neles, ganham medalhas e estão preparadas
para participar das Paraolimpíadas de Pequim, no ano
que vem.
Nas competições,
rapazes cegos jogaram futebol, orientando-se pelo ruído
dos guizos dentro da bola. Moças em cadeira de rodas
jogaram basquete. Uma jovem mãe, de sorriso aberto,
elogiou ("Meu filho é um grande homem") o moço
que nasceu sem as mãos e foi campeão de corrida.
Os nadadores estiveram esplêndidos.
Lição
magnífica foram algumas das entrevistas: ninguém
se queixou, ninguém se julgou perseguido pela má
sorte. Quando se falou em preconceito, um rapaz, com sabedoria
e maturidade, disse que para eles não existia preconceito,
existia a vida, que procuram viver da melhor forma possível.
Aqueles rapazes e moças sabem que os mais duros obstáculos
nos esmagam, se não os controlamos até onde
permitem nossas forças. Eles tomaram nas mãos
as rédeas de sua vida, mais difícil do que a
vida da maioria de nós, que tão facilmente nos
consideramos vítimas por coisas bem menos trágicas
do que nascer sem mãos, sem pernas ou sem olhos.
O preconceito,
doença que turva nosso olhar e entorta nossa alma,
que nos diminui e nos emburrece, é uma das enfermidades
mais sérias deste nosso mundo. E, atenção,
não falo apenas do preconceito contra deficientes nem
do preconceito contra muçulmanos, cristãos,
negros, índios ou brancos. Não me refiro apenas
ao preconceito contra pobres ou ricos, mas também ao
lamentável preconceito contra a classe média.
Contra isso que os promotores do ódio de classes chamam
indiscriminadamente "as elites". Que incluem bancários,
professores, auxiliares de escritório, motoristas,
domésticas, balconistas, trabalhadores em geral. Isto
é, os que não dependem totalmente da ajuda dos
governos.
Essa postura criminosa
tanto perturba a mente das pessoas que numa manifestação
de parentes de vítimas dos dois acidentes aéreos
recentes, que envergonham este país, houve quem gritasse
que aquela era uma manifestação "da elite".
Tal intervenção, movida pelo ódio insensato
e nascida da brutalidade, mostra que estamos seguindo um caminho
muito perigoso. Estamos chegando a um ponto em que os que
perderam mãe, pai, filho, marido ou esposa, por não
serem realmente pobres, não têm direito nem de
sofrer.
Quem sabe acabaremos
como uma sociedade em que bancários, médicos,
professores, balconistas, operários devem se esconder
de vergonha por não pedir esmola na rua ou não
viver de doações públicas? Alguém
começa a acreditar que a classe média hoje tachada
de "elite", os que com seu trabalho conseguem comer, morar,
estudar, é exploradora e quer a desgraça dos
demais? Se for assim, estamos tragicamente desorientados por
aqui, confundindo perigosamente as coisas. Há no ar
um tipo de estímulo a esse ódio de classes destrutivo
e antidemocrático. Que censura até os que, às
vezes com incalculável sacrifício, entram numa
universidade, fazem seu mestrado, quem sabe seu doutorado
no exterior com bolsa de estudos, sim, porque com isso
ajudam grandemente a melhorar as condições de
vida dos mais desprotegidos em nosso país.
Se permitirmos
que essa doença maligna o preconceito, pai do
ódio e filho da ignorância nos domine,
seremos em breve o mais atrasado no círculo dos povos
atrasados, uma manada confusa obedecendo a qualquer chibata
ideológica.