Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo A nudez que solapa
e desorganiza
O poder de se exibir em
pêlo, dos primitivos índios brasileiros à revista Playboy
Na semana passada
esta coluna foi dedicada ao fim do Brasil. Falemos agora do
começo. O começo, como se sabe, é a nudez.
Nada impressionou tanto os primeiros europeus que por aqui
aportaram quanto a nudez dos nativos. Mais do que o pau-brasil,
mais do que os papagaios e as araras, o grande sucesso da
temporada das descobertas foram os índios e índias
pelados, tão livres e soltos, e à vontade com
seus corpos, que os recém-chegados de terras subjugadas
pelo frio e pelo pecado se tomaram de estupefação.
Pero Vaz de Caminha é o insuperável cronista
do histórico encontro entre o europeu sufocado pelos
culotes, gibões, agasalhos e atavios e o nativo que
o máximo que aplicava sobre o corpo era um osso no
beiço ou um colar no pescoço. "Andam nus, sem
cobertura alguma", escreve. "Nem fazem mais caso de encobrir
ou deixar de encobrir suas vergonhas do que mostrar a cara."
No final, este
artigo seja logo anunciado, para acalmar a impaciência
do leitor viciado na atualidade jornalística
desembocará na nudez de Mônica Veloso, a ex-amante
do presidente do Senado, Renan Calheiros, anunciada para uma
das próximas edições da revista Playboy.
Até lá, é o passado que se impõe.
O Brasil, junto com aquela espécie de prolongamento
ao norte, que é o Caribe, configurava um caso único.
Na América do Norte os índios se vestiam, em
certas regiões por causa das baixas temperaturas, em
outras por imposição de civilizações
já seduzidas pela propriedade que têm as roupas
de definir diferenças e hierarquias entre as pessoas.
Idem nos Andes e idem na Patagônia. O Brasil estava
gloriosamente só, em sua nudez. E, nessa condição,
que atestava um estado de inocência equivalente ao de
Adão e Eva antes da queda, acabaria por exercer uma
influência profunda, que sacudiu, encantou, assustou
e revolucionou a velha Europa.
Exemplares de índios
brasileiros eram levados ao Velho Continente para ser exibidos
em feiras e festas. Na França fizeram grande sucesso.
Ficou famosa a festa que, em 1550, em Rouen, para celebrar
a visita do rei Henrique II, teve como principal atração
a apresentação de índios do Brasil. Sobre
eles escreviam-se livros e artigos. Autores importantes como
Montaigne detiveram-se sobre esses seres miraculosos, que
consolavam o europeu já carregado de história
e de culpa com uma visão do paraíso. Fortalecia-se
e consolidava-se o mito do bom selvagem. No século
XVIII, Rousseau, ele próprio um leitor dos antigos
livros sobre as miraculosas terras onde os homens e mulheres
andavam nus, baseia-se no bom selvagem para criar a tese da
bondade natural: o homem é naturalmente bom; a sociedade
é que o corrompe. Conseqüência: mudando-se
a sociedade, pode-se mudar o homem. Crie-se uma sociedade
mais justa e eqüitativa e os seres humanos reverterão
à primitiva natureza da bondade.
Estava criada uma
poderosa alavanca ideológica para a mobilização
que levaria à Revolução Francesa. E quem
estava na base disso? O índio brasileiro! Aquele nosso
ancestral peladão e nossa avó peladona iniciaram
um processo que levou à ruína as velhas estruturas
da civilização européia. Não pense
o leitor que tal conclusão se deve à mente delirante
do colunista. Muito bem defendida, ela é o fio condutor
de um livro de 1937, injustamente pouco lido O Índio
Brasileiro e a Revolução Francesa, de Afonso
Arinos de Melo Franco. No prefácio da mais recente
edição, escreveu Sérgio Paulo Rouanet:
"Em 1789, eles (os índios brasileiros) saíram
das tapeçarias que adornavam Versalhes e ajudaram a
derrubar a Bastilha".
A revista Playboy
especializou-se em fisgar no noticiário as estrelas
de suas capas. A penúltima foi uma bandeirinha de futebol,
Ana Paula. A última é Mônica Veloso. Por
coincidência, as duas vinham de situações
embaraçosas. Ana Paula, acusada de más atuações,
tinha sido punida com o afastamento dos jogos da primeira
divisão. Mônica vem do escândalo Renan.
A nudez delas, como a de qualquer outra que saia na Playboy,
não tem mais a inocência da nudez das índias.
Não pode ser mais símbolo do bom selvagem, nem
base da teoria da bondade natural. Mas um certo caráter
revolucionário ainda conserva. É uma nudez de
mulheres que gritam: "Ah, é??!! Queriam nos mandar
para a segunda divisão? Cá estamos nós,
inteiras como muitos de vocês nunca estiveram, e não
só de corpo. E ainda faturamos com isso!".
Não se pode
esperar que, assim como os índios brasileiros saíram
das tapeçarias de Versalhes, Mônica Veloso venha
a sair das páginas da Playboy para derrubar
as bastilhas que escondem as vergonhas da República.
Mas ela tem uma mensagem que, assim como a das índias,
em sua inocência, também solapa e desorganiza:
"Estou nua só nas páginas da revista. Mais nus
estão vocês, com suas tramóias, suas negociatas,
suas mentiras".
(E o colunista
não sabe mais se fala do começo ou do fim do
Brasil.)