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29 de agosto de 2007
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Não basta ser boa.
Tem de ser esperta

Os espectadores de novelas já não aceitam
heroínas que levam desaforo para casa


Marcelo Marthe

Recentemente a dona-de-casa Clarice (Giovanna Antonelli) vem agitando a novela Sete Pecados, da Rede Globo. Ao flagrar o marido aos amassos com Beatriz (Priscila Fantin), ela aplicou uns bons tabefes à rival. Em seguida, invadiu sua mansão e quebrou tudo. Nesta semana, finalmente, ao perceber que o marido teve uma noite de amor com a concorrente, ela não hesitará em expulsá-lo de casa. Tudo isso representou uma guinada na trajetória da personagem, que era dócil e não reagia ao chamego entre o marido e a patricinha. O sinal de que estava na hora de realizar essa mudança veio de um levantamento feito pela Globo, que revelou que a passividade de Clarice irritava a audiência. E essa, ao que parece, será a sina de qualquer mocinha de novela com perfil semelhante – como indicam pesquisas sobre os outros folhetins da casa. Houve um tempo em que o principal traço que se cobrava de uma heroína era a bondade. Hoje, isso não basta. Ela precisa, também, ser esperta.

A heroína-clichê se submete a toda sorte de sofrimento por amor e, de tão crente na bondade essencial do ser humano, não percebe os ardis à sua volta. Esse padrão sobrevive nos folhetins mexicanos. E também deixou sua marca nas novelas da Globo. Mas é um equívoco pensar que personagens que subvertem essa regra são uma invenção recente. De fato, como aponta o especialista Mauro Alencar, muitas heroínas só conquistaram seu lugar por ser despachadas (nos idos de 1979 já existia uma mulher emancipada como a vivida por Regina Duarte na série Malu Mulher). Mesmo as mais avançadas, contudo, ainda denotavam certa falta de assertividade que, de uns tempos para cá, seria letal. Tome-se a Raquel de Vale Tudo (outro papel de Regina Duarte, de 1988). Embora fosse batalhadora e independente, ela era feita de gato e sapato pela filha, a vilã Maria de Fátima – e não se convencia de sua canalhice.

Em Paraíso Tropical, o mesmo Gilberto Braga que criou Raquel teve de enfrentar a rejeição a certos traços do caráter de Paula, o pólo positivo numa dupla de irmãs gêmeas boa e má (ambas interpretadas por Alessandra Negrini). Mal a novela teve início, constatou-se que as espectadoras encasquetavam com o que foi descrito como "o jeito boboca" de Paula. Não entenderam por que, logo depois de ser separada do mocinho por um golpe, ela se mudou para a Amazônia em vez de brigar pelo que era seu. Também se impacientaram com sua demora em notar que a irmã Taís é uma víbora. Paula só se tornou mais palatável quando tomou as rédeas da situação. Uma virada que atingiu seu ápice com a mirabolante inversão de papéis com Taís (o que foi facilitado por um detalhe providencial: já que Alessandra Negrini parecia rigorosamente a mesma na pele de uma ou de outra, fazê-las se confundir era o de menos). A mocinha se fez passar pela irmã e a encurralou de maneira até cruel. Nesta semana, uma estafada Taís deverá surgir morta por envenenamento a gás.

Até mesmo ódio e rancor não são mais traços exclusivos das vilãs. Entram no molho inclusive das heroínas das 6. Na primeira fase de Eterna Magia, as ambições de Nina (Maria Flor) resumiam-se a casar com o mocinho. Ela não percebia que a irmã balzaquiana (Malu Mader) estava de olho no noivo (e acabou por roubá-lo). Depois de um salto temporal – e da constatação de que a passividade aborrecia –, ela agora virou uma dissimulada capaz de fingir que está presa a uma cadeira de rodas para vingar-se da irmã. Numa novela em eterna crise (a média de 27 pontos é inferior ao que a Globo gostaria), houve problema até com os responsáveis pelos figurinos. Teria havido exagero nos vestidos primaveris de Nina, que lhe davam um ar frágil demais. Motivo pelo qual ela ressurgiu com cabelos curtos e terninhos escuros.

 
Fotos Divulgação/TV Globo

NINA (MARIA FLOR)
Por que era vista como trouxa: a mocinha de Eterna Magia não reagia às investidas da irmã sobre o noivo. Além de chorona, era submissa: parou até de estudar para não desagradar a seu homem
A guinada: virou uma executiva de pulso firme e capaz de peitar até a vilã. Cabelos curtos e terninhos substituíram o visual cheio de babados de mulher frágil



CLARICE (GIOVANNA ANTONELLI)
Por que era vista como trouxa: a dona-de-casa de Sete Pecados não percebia que a patricinha vivida por Priscila Fantin estava de olho em seu marido – e agia como se o estivesse dando de bandeja para a rival
A guinada: ela não leva mais desaforo para casa: deu uma surra na outra e armou um barraco para cobrar um prejuízo causado por ela. Além disso, deverá ter sucesso crescente no trabalho



PAULA (ALESSANDRA NEGRINI)
Por que era vista como trouxa: a gêmea boa de Paraíso Tropical tinha imagem de passiva. Não teve iniciativa de ir atrás do amado quando um golpe a separou dele. E nem notava que a irmã é uma víbora
A guinada: ela passou a dar o troco rapidamente sempre que é vítima da gêmea má. Mesmo refém numa clínica, teve controle da situação. E passou-se pela irmã para vingar-se dela

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