Os espectadores de
novelas já não aceitam
heroínas que levam desaforo para casa
Marcelo Marthe
Recentemente a
dona-de-casa Clarice (Giovanna Antonelli) vem agitando a novela
Sete Pecados, da Rede Globo. Ao flagrar o marido aos
amassos com Beatriz (Priscila Fantin), ela aplicou uns bons
tabefes à rival. Em seguida, invadiu sua mansão
e quebrou tudo. Nesta semana, finalmente, ao perceber que
o marido teve uma noite de amor com a concorrente, ela não
hesitará em expulsá-lo de casa. Tudo isso representou
uma guinada na trajetória da personagem, que era dócil
e não reagia ao chamego entre o marido e a patricinha.
O sinal de que estava na hora de realizar essa mudança
veio de um levantamento feito pela Globo, que revelou que
a passividade de Clarice irritava a audiência. E essa,
ao que parece, será a sina de qualquer mocinha de novela
com perfil semelhante como indicam pesquisas sobre
os outros folhetins da casa. Houve um tempo em que o principal
traço que se cobrava de uma heroína era a bondade.
Hoje, isso não basta. Ela precisa, também, ser
esperta.
A heroína-clichê
se submete a toda sorte de sofrimento por amor e, de tão
crente na bondade essencial do ser humano, não percebe
os ardis à sua volta. Esse padrão sobrevive
nos folhetins mexicanos. E também deixou sua marca
nas novelas da Globo. Mas é um equívoco pensar
que personagens que subvertem essa regra são uma invenção
recente. De fato, como aponta o especialista Mauro Alencar,
muitas heroínas só conquistaram seu lugar por
ser despachadas (nos idos de 1979 já existia uma mulher
emancipada como a vivida por Regina Duarte na série
Malu Mulher). Mesmo as mais avançadas, contudo,
ainda denotavam certa falta de assertividade que, de uns tempos
para cá, seria letal. Tome-se a Raquel de Vale Tudo
(outro papel de Regina Duarte, de 1988). Embora fosse
batalhadora e independente, ela era feita de gato e sapato
pela filha, a vilã Maria de Fátima e
não se convencia de sua canalhice.
Em Paraíso
Tropical, o mesmo Gilberto Braga que criou Raquel teve
de enfrentar a rejeição a certos traços
do caráter de Paula, o pólo positivo numa dupla
de irmãs gêmeas boa e má (ambas interpretadas
por Alessandra Negrini). Mal a novela teve início,
constatou-se que as espectadoras encasquetavam com o que foi
descrito como "o jeito boboca" de Paula. Não entenderam
por que, logo depois de ser separada do mocinho por um golpe,
ela se mudou para a Amazônia em vez de brigar pelo que
era seu. Também se impacientaram com sua demora em
notar que a irmã Taís é uma víbora.
Paula só se tornou mais palatável quando tomou
as rédeas da situação. Uma virada que
atingiu seu ápice com a mirabolante inversão
de papéis com Taís (o que foi facilitado por
um detalhe providencial: já que Alessandra Negrini
parecia rigorosamente a mesma na pele de uma ou de outra,
fazê-las se confundir era o de menos). A mocinha se
fez passar pela irmã e a encurralou de maneira até
cruel. Nesta semana, uma estafada Taís deverá
surgir morta por envenenamento a gás.
Até mesmo
ódio e rancor não são mais traços
exclusivos das vilãs. Entram no molho inclusive das
heroínas das 6. Na primeira fase de Eterna Magia,
as ambições de Nina (Maria Flor) resumiam-se
a casar com o mocinho. Ela não percebia que a irmã
balzaquiana (Malu Mader) estava de olho no noivo (e acabou
por roubá-lo). Depois de um salto temporal e
da constatação de que a passividade aborrecia
, ela agora virou uma dissimulada capaz de fingir que
está presa a uma cadeira de rodas para vingar-se da
irmã. Numa novela em eterna crise (a média de
27 pontos é inferior ao que a Globo gostaria), houve
problema até com os responsáveis pelos figurinos.
Teria havido exagero nos vestidos primaveris de Nina, que
lhe davam um ar frágil demais. Motivo pelo qual ela
ressurgiu com cabelos curtos e terninhos escuros.
Fotos Divulgação/TV
Globo
NINA
(MARIA FLOR) Por que era vista
como trouxa: a mocinha de Eterna Magia não
reagia às investidas da irmã sobre o noivo.
Além de chorona, era submissa: parou até
de estudar para não desagradar a seu homem A guinada: virou
uma executiva de pulso firme e capaz de peitar até
a vilã. Cabelos curtos e terninhos substituíram
o visual cheio de babados de mulher frágil
CLARICE
(GIOVANNA ANTONELLI) Por
que era vista como trouxa: a dona-de-casa de Sete
Pecados não percebia que a patricinha vivida
por Priscila Fantin estava de olho em seu marido
e agia como se o estivesse dando de bandeja para a rival
A guinada: ela não
leva mais desaforo para casa: deu uma surra na outra
e armou um barraco para cobrar um prejuízo causado
por ela. Além disso, deverá ter sucesso
crescente no trabalho
PAULA
(ALESSANDRA NEGRINI) Por que era vista como
trouxa: a gêmea boa de Paraíso Tropical
tinha imagem de passiva. Não teve iniciativa
de ir atrás do amado quando um golpe a separou
dele. E nem notava que a irmã é uma víbora
A guinada: ela passou a dar o troco rapidamente
sempre que é vítima da gêmea má.
Mesmo refém numa clínica, teve controle
da situação. E passou-se pela irmã
para vingar-se dela