Por
mais difícil que seja escapar ao crime, Laranjinha e Acerola não
têm dúvida: quem é "comédia" tem vida mais dura
mas pelo menos ela dura mais
Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
Douglas,
como Acerola, e Darlan, como Laranjinha, que no longa Cidade dos Homens
brigam para crescer à sombra dos traficantes (no detalhe) sem se
misturar com eles: uma história pessoal da miséria
Descobertos
nas favelas cariocas, Douglas Silva e Darlan Cunha têm uma trajetória
ímpar no meio artístico brasileiro. Estrearam em 2000, aos 11 anos,
encarnando os personagens Acerola e Laranjinha, no curta-metragem Palace II,
que serviu de balão de ensaio a Cidade de Deus. Provaram-se no filme
de Fernando Meirelles com papéis difíceis Darlan como Filé
com Fritas, que se envolvia numa cena brutal de execução; e Douglas
como o explosivo Dadinho, que se transmutaria no bandido Zé Pequeno. Diante
do sucesso de Cidade de Deus e do potencial dos dois, criou-se para eles
a série Cidade dos Homens. Em suas quatro temporadas, de 2002 a
2005, o programa não só teve excelente audiência como se revelou
uma das iniciativas mais inovadoras já bancadas pela Globo (em parceria
com a produtora O2): uma crônica naturalista da vida no morro, transcorrendo
sempre à sombra inevitável do tráfico, mas mantendo deste
tanta distância quanto possível. O maior medo de Laranjinha e Acerola
é o de serem cooptados pela bandidagem, algo que um mero vacilo pode acarretar
ou, ainda, o de que passem a considerar o crime um caminho. Inseparáveis
e amigos a toda prova (e, nesse cenário, haja prova), Laranjinha e Acerola
mantiveram um ao outro sãos e honestos e cresceram diante do público,
da mesma forma que seus intérpretes. Essa têmpera, obtida na combinação
de experiência pessoal com laboratório dramático, é
um dos pontos altos do longa Cidade dos Homens (Brasil, 2007), que
estréia nesta sexta-feira no país e que, pelo menos por um bom tempo,
é o último que o espectador avistará dessa dupla memorável.
Planejado para ser a culminação
da série e, ao mesmo tempo, prescindir dela para quem não a acompanhou,
Cidade dos Homens flagra os dois adolescentes numa complicada passagem
à vida adulta. Acerola engravidou a namorada, assumiu o filho e está
na situação improvável de pai de família e guarda
noturno. Laranjinha dirige uma mototáxi e prefere a variedade à
monogamia. Como sempre nos morros cariocas, essa rotina será virada do
avesso pela guerra entre Madrugadão (Jonathan Haagensen), chefe da "boca"
local, e seu segundo em comando, Nefasto (o muito talentoso Eduardo BR). Esse
argumento serve ao verdadeiro propósito do filme, o de trabalhar um mesmo
tema psicológico por prismas diversos: a necessidade de "matar o pai",
na metáfora freudiana, para que se encontre a própria identidade.
É essa necessidade que move Nefasto, que registra numa conta pessoal todas
as pequenas humilhações que Madrugadão inflige a ele. Paralelamente,
Laranjinha procura seu pai, do qual ninguém fala, e aceita sem ressalvas
o que este lhe conta sobre sua prisão o que terá profundas
repercussões sobre Acerola e sobre essa amizade.
Se Cidade de Deus era uma história social e cultural da miséria,
Cidade dos Homens é a sua história pessoal. Troca-se aqui,
então, o impacto ainda inigualável do filme de 2002 por um desenho
em que o íntimo dos personagens é que está em evidência.
O esforço do diretor Paulo Morelli nesse sentido vem desde a terceira temporada
da série, na qual começou a introduzir papéis e temas que
seriam necessários ao longa. Trata-se de um trabalho de entrosamento e
delicadeza, no qual se pressente a preocupação genuína de
toda a equipe com o futuro de Acerola e de Laranjinha, de Douglas e de Darlan
e de todos os meninos que, por procuração, eles representam. Os
dois atores, que são talentosos e tarimbados (entre os nomes que os dirigiram
contam-se, além de Meirelles e Morelli, Kátia Lund, Philippe Barcinski,
Roberto Moreira e Regina Casé), estão envolvidos em outros projetos
e parecem ter uma carreira assegurada. Mas a tristeza que Cidade dos Homens
deixa é a de constatar que a inteligência, o caráter e a energia
que eles deram a Acerola e Laranjinha provavelmente não serão nem
de longe o suficiente para garantir a esses dois personagens, e a garotos como
eles, um destino capaz de prometer o mesmo tipo de realização.