BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2023

29 de agosto de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Lya Luft
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
"Tu é bandido ou é comédia?"

Por mais difícil que seja escapar ao crime, Laranjinha
e Acerola não têm dúvida: quem é "comédia" tem vida
mais dura – mas pelo menos ela dura mais


Isabela Boscov

 

Fotos divulgação
Douglas, como Acerola, e Darlan, como Laranjinha, que no longa Cidade dos Homens brigam para crescer à sombra dos traficantes (no detalhe) sem se misturar com eles: uma história pessoal da miséria


VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Trailer

Descobertos nas favelas cariocas, Douglas Silva e Darlan Cunha têm uma trajetória ímpar no meio artístico brasileiro. Estrearam em 2000, aos 11 anos, encarnando os personagens Acerola e Laranjinha, no curta-metragem Palace II, que serviu de balão de ensaio a Cidade de Deus. Provaram-se no filme de Fernando Meirelles com papéis difíceis – Darlan como Filé com Fritas, que se envolvia numa cena brutal de execução; e Douglas como o explosivo Dadinho, que se transmutaria no bandido Zé Pequeno. Diante do sucesso de Cidade de Deus e do potencial dos dois, criou-se para eles a série Cidade dos Homens. Em suas quatro temporadas, de 2002 a 2005, o programa não só teve excelente audiência como se revelou uma das iniciativas mais inovadoras já bancadas pela Globo (em parceria com a produtora O2): uma crônica naturalista da vida no morro, transcorrendo sempre à sombra inevitável do tráfico, mas mantendo deste tanta distância quanto possível. O maior medo de Laranjinha e Acerola é o de serem cooptados pela bandidagem, algo que um mero vacilo pode acarretar – ou, ainda, o de que passem a considerar o crime um caminho. Inseparáveis e amigos a toda prova (e, nesse cenário, haja prova), Laranjinha e Acerola mantiveram um ao outro sãos e honestos e cresceram diante do público, da mesma forma que seus intérpretes. Essa têmpera, obtida na combinação de experiência pessoal com laboratório dramático, é um dos pontos altos do longa Cidade dos Homens (Brasil, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país e que, pelo menos por um bom tempo, é o último que o espectador avistará dessa dupla memorável.

Planejado para ser a culminação da série e, ao mesmo tempo, prescindir dela para quem não a acompanhou, Cidade dos Homens flagra os dois adolescentes numa complicada passagem à vida adulta. Acerola engravidou a namorada, assumiu o filho e está na situação improvável de pai de família e guarda noturno. Laranjinha dirige uma mototáxi e prefere a variedade à monogamia. Como sempre nos morros cariocas, essa rotina será virada do avesso pela guerra entre Madrugadão (Jonathan Haagensen), chefe da "boca" local, e seu segundo em comando, Nefasto (o muito talentoso Eduardo BR). Esse argumento serve ao verdadeiro propósito do filme, o de trabalhar um mesmo tema psicológico por prismas diversos: a necessidade de "matar o pai", na metáfora freudiana, para que se encontre a própria identidade. É essa necessidade que move Nefasto, que registra numa conta pessoal todas as pequenas humilhações que Madrugadão inflige a ele. Paralelamente, Laranjinha procura seu pai, do qual ninguém fala, e aceita sem ressalvas o que este lhe conta sobre sua prisão – o que terá profundas repercussões sobre Acerola e sobre essa amizade.

Se Cidade de Deus era uma história social e cultural da miséria, Cidade dos Homens é a sua história pessoal. Troca-se aqui, então, o impacto ainda inigualável do filme de 2002 por um desenho em que o íntimo dos personagens é que está em evidência. O esforço do diretor Paulo Morelli nesse sentido vem desde a terceira temporada da série, na qual começou a introduzir papéis e temas que seriam necessários ao longa. Trata-se de um trabalho de entrosamento e delicadeza, no qual se pressente a preocupação genuína de toda a equipe com o futuro de Acerola e de Laranjinha, de Douglas e de Darlan e de todos os meninos que, por procuração, eles representam. Os dois atores, que são talentosos e tarimbados (entre os nomes que os dirigiram contam-se, além de Meirelles e Morelli, Kátia Lund, Philippe Barcinski, Roberto Moreira e Regina Casé), estão envolvidos em outros projetos e parecem ter uma carreira assegurada. Mas a tristeza que Cidade dos Homens deixa é a de constatar que a inteligência, o caráter e a energia que eles deram a Acerola e Laranjinha provavelmente não serão nem de longe o suficiente para garantir a esses dois personagens, e a garotos como eles, um destino capaz de prometer o mesmo tipo de realização.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |