Prefeituras
européias interligam ciclistas ao sistema de transporte público
e sem querer inventam uma moda de verão
Patu
Antunes, de Barcelona
Cesar
Rangel/AFP
Mão na roda Inaugurado
no fim de março, o Bicing pôs a população de Barcelona
para pedalar. Alguns números do novo serviço público BICICLETAS 1
500 (3 000 até o fim do ano) PONTOS 120 (200 até o
fim do ano), ao lado de estações de metrô e ônibus INSCRIÇÃO Pela
internet. O usuário se identifica, fornece o número do cartão
de crédito e recebe um cartão de acesso pelo correio INSCRITOS 90
000 TAXA ANUAL 24 euros (percursos de até 30 minutos)
Barcelona, a cidade cosmopolita
e agitada da Espanha para onde afluem os jovens e modernos do mundo inteiro, é
feita quase toda de subidas, descidas e, na parte mais antiga, ruelas tortuosas.
Nesse pouco propício cenário, o sucesso do verão é
a bicicleta de três marchas, vermelha e branca, que compõe a frota
do Bicing, a mais nova alternativa de transporte público da cidade. O Bicing
foi inaugurado pela prefeitura há cinco meses, sem nenhuma campanha publicitária,
e previa num primeiro momento ter 15.000 usuários inscritos para as 1.500
bicicletas disponíveis. Em cinco meses de vigência, chegaram a 90.000
as pessoas cadastradas, sendo 20.000 usuários diários, e o sistema
não está dando conta da procura. "No começo sempre tinha
bicicleta sobrando. Agora não dá para sair de casa esperando encontrar
alguma disponível na estação mais próxima", lamenta
a advogada Núria Solé, 46 anos, ciclista pioneira. A descoberta
da bicicleta como transporte público começou a se difundir por cidades
européias, aproveitando o calor do verão no Hemisfério Norte.
Em julho, a onda chegou a Paris, com adesão retumbante: em um mês,
amealhou mais de 1 milhão de inscrições de pessoas interessadas
em pedalar as 11.000 bicicletas disponíveis.
Na Espanha, o serviço foi implantado em mais de vinte cidades. Em Barcelona,
os interessados se cadastram via internet, deixando nome, endereço e número
de cartão de crédito para pagamento da taxa básica anual
de 24 euros (percursos acima de trinta minutos são cobrados à parte,
numa tabela progressiva), e recebem um cartão magnético de acesso
aos "pontos" de bicicleta, num total de 120, sempre ao lado de saídas do
metrô e paradas de ônibus. É só entrar, pegar, usar
e devolver em outro ponto. O serviço funciona sem interrupções
às sextas e aos sábados e das 5 da manhã à meia-noite
nos outros dias. "O Bicing é um complemento, para ser usado com outros
meios de transporte. Funciona bem justamente porque é rotativo, ou seja,
todas as bicicletas são de todos", explica Ramón Ferreiro, porta-voz
da Barcelona Serveis a la Mobilitat, órgão que administra o serviço.
Das quatro zonas em que Barcelona se divide, três ficam em áreas
de ladeiras e apenas uma está no nível do mar. A casa da professora
de música Marina Cuj, 31 anos, em Les Corts, no extremo oeste de Barcelona,
é vizinha a uma estação de metrô. Mesmo assim, Marina
diz que usa as bicicletas públicas pelo menos três vezes por semana,
quando já está no centro e quer chegar à orla ou precisa
circular pelas ruelas estreitas da parte antiga. "De bicicleta, chego a evitar
até três baldeações de metrô", contabiliza. A
prefeitura planeja, até o fim do ano, aumentar o número de bicicletas
para 3.000 e o de pontos para 200. "Antes de crescermos mais, vamos ver como as
pessoas vão se comportar no inverno", diz Ferreiro o frio, a poluição
e os motoristas de carros, não nessa ordem, são inimigos naturais
dos ciclistas.
Na França,
onde o ciclismo é esporte nacional, a cidade de Lyon foi a pioneira no
serviço público de bicicletas. Em 15 de julho último, Paris
inaugurou o Vélib (de vélo, bicicleta, e liberté,
liberdade), que já nasceu grande: 750 estações para suas
11.000 bicicletas cinzentas um tanto feiosas, mas que ganham um charme especial
quando conduzidas por usuárias com o inconfundível chic français.
Até o fim do ano, o sistema deve chegar a 1.450 pontos e 20.600 bicicletas.
Como é da tradição francesa, o serviço demanda uma
burocracia algo puxada: os usuários precisam preencher um formulário
e entregá-lo nos postos autorizados, onde pagam ou a taxa anual (29 euros)
ou o custo de um único uso (a primeira meia hora é grátis)
e saem com o cartão correspondente. O Vélib funciona 24 horas por
dia, sete dias por semana, e virou a alternativa de transporte dos jovens de madrugada
da 1 em diante é "hora do rush" de bicicletas. Há normas
rigorosas, como só circular em avenidas largas, que são invariavelmente
descumpridas; as principais reclamações de pedestres e motoristas
são que ciclistas não param em sinal vermelho (71%), não
utilizam nenhum tipo de iluminação (51%) e andam na contramão
(29%).
O serviço de
bicicletas públicas não é uma novidade em si, mas a diferença
agora é a preocupação em integrá-lo à rede
de transportes. Em matéria de facilidade, nenhum sistema recente ganha
do implantado em cinco cidades alemãs pela estatal de transporte público
Deutsche Bahn. Não há estações fixas, e o ciclista
(previamente cadastrado) deixa a bicicleta em qualquer lugar e digita no celular
um código que bloqueia a roda traseira. O próximo usuário
chega, solicita no celular o código de desbloqueio, digita-o numa tela
de plasma instalada na bicicleta, destrava-a e vai embora. Aderir custa 5 euros
e cada minuto de uso, 8 centavos, com o limite de 15 euros por 24 horas ou 60
euros por uma semana os preços "cheios" são salgados justamente
para forçar a rotatividade. Até agora, em todas as cidades os casos
de vandalismo têm sido mínimos.
PASSEIO MOVIDO A MÚSCULOS
Alcir
N. da Silva
Bike-táxi
em ação em Nova York: percursos para turistas, intenção
propagandística
Quem
esteve nos últimos meses em algumas das grandes cidades da Europa e dos
Estados Unidos provavelmente viu as bicicletas adaptadas com um banco para passageiros
na parte de trás e um "motorista" se esfalfando nos pedais. São
as bike-táxis, em formato geralmente ovalado, com lugar para dois ou, no
máximo, três passageiros, mais um ciclista de pernas musculosas,
embora existam modelos mais modernos equipados com um pequeno motor para ser usado
quando o usuário apresentar excesso de peso como esclarece o serviço
de informações sobre as bicicletas-táxi de Amsterdã,
onde circulam onze delas. A idéia de introduzir em centros urbanos ocidentais
um tipo de transporte primitivo, associado a países como China ou Índia,
é movida por um princípio contemporâneo: chamar atenção
para os anúncios colocados atrás ou em cima do veículo, numa
ação de marketing direto, como se diz no jargão. As bicicletas
circulam quase sempre nas regiões centrais e históricas das cidades,
a serviço principalmente de turistas. Em Londres, onde a bike-táxi
tem semelhança mais acentuada com o riquixá asiático, circulam
por volta de 400 unidades na região central, ponto mais vantajoso depois
que os carros particulares passaram a pagar pedágio. Em Nova York, são
cerca de 500 bike-táxis, geralmente propriedade de pequenas empresas que
as alugam, por dia, para os ciclistas-motoristas. Lá, uma corrida (lenta,
é verdade) de Times Square ao Central Park (2 quilômetros) custa
cerca de 25 dólares para dois passageiros. Anunciar por um dia vale 125
dólares e enrolar a bicicleta inteira com um anúncio, durante um
mês, 700 dólares. No momento, os donos de frotas estão preocupadíssimos
com um projeto de lei que pretende, a partir de setembro, limitar o número
de bicicletas-táxi em 325 e o número de veículos a trinta
em cada frota, além de exigir seguro de no mínimo 2 milhões
de dólares.