Dois setores da economia global
cresceram a taxas idênticas nos últimos cinco anos ambas espetaculares.
Um deles foi o de turismo internacional. O outro, mais inesperado, é o
de cassinos. O aumento no volume de faturamento no mundo da roleta foi de 53%
no período. De acordo com um estudo recente da consultoria americana PricewaterHouseCoopers,
a inauguração de dezenas de cassinos prevista para os próximos
cinco anos vai provocar a estratosférica expansão de 40% e chegar
a 144 bilhões de dólares. Uma fatia crescente desse dinheiro não
virá de locais tradicionais do jogo, como Las Vegas ou Mônaco, mas
de novos centros de jogatina: Macau, Coréia do Sul, Cingapura, Rússia,
países da Europa Ocidental e da África.
Nos
últimos oito anos, o número de países com cassinos
aumentou de 109 para 138
Há
várias explicações para o crescimento. Uma foi a entrada
de novos países no jogo, como forma de atrair turistas. Nos últimos
oito anos, três dezenas deles legalizaram os cassinos. Outra foi o ingresso
dos grandes investidores no negócio. Os cassinos de Las Vegas, por exemplo,
que até os anos 70 eram controlados pela Máfia, hoje estão
em mãos de fundos de investimento ou de pensão. Ou seja, seu dono
real pode ser uma pequena associação de investidores do interior
dos Estados Unidos que freqüenta a igreja e jamais arriscaria pessoalmente
um dólar num jogo de azar. Em escala global, três grandes bancos
de investimento, o Bank of America, o Goldman Sachs e o Deutsche Bank, disputam
o financiamento da expansão dos cassinos. No comando dos empreendimentos
estão empresários do ramo, companhias da área de entretenimento,
como os estúdios Universal, e empreendedores ousados, como Richard Branson,
dono do grupo Virgin.
Muitos
cassinos erguidos em países em desenvolvimento levam o nome de suas matrizes
americanas. Após a construção dos complexos, normalmente
eles passam a ser administrados por grandes cadeias de hotéis, como os
grupos Holiday Inn, Sheraton e Four Seasons. Os cassinos aproveitam a chegada
de uma nova geração de jogadores, que aprenderam a apostar na internet.
Até a moralista Cingapura, cidade-estado que multa quem cospe no chão,
aderiu ao jogo. Estão em construção dois imponentes cassinos,
um investimento de 7 bilhões de dólares. Um deles, o Genting, incluirá
um parque temático da Universal Studios e um aquário gigante. A
inspiração veio de Macau, colônia portuguesa entregue à
China em 1999. Sem outros atrativos exceto um modesto conjunto de prédios
coloniais, o enclave descobriu que dispunha de um tesouro: é o único
trecho do território chinês no qual o jogo de azar é liberado.
Sete cassinos foram abertos no ano passado em Macau. O maior cassino do mundo,
o Venetian, será inaugurado na semana que vem. Terá canais com gôndolas,
shopping center e um centro de convenções.
Há hoje 7.400 cassinos em todo o planeta. A globalização
do jogo não ocorre sem resistência. Em Cingapura, grupos cristãos
e muçulmanos reclamam que o jogo produz viciados e aumenta a criminalidade.
A veracidade do primeiro efeito está fora de discussão. Já
a relação direta com a criminalidade é discutível.
Um estudo realizado por duas universidades americanas mostrou que não mais
de 30% dos crimes em cidades com cassinos nos Estados Unidos estão relacionados
à jogatina. Um em cada dois membros dos Jogadores Anônimos do país
declara ter roubado para financiar o vício. Também ocorrem crimes
simplesmente porque a presença de turistas atrai assaltantes e outros criminosos.
O crime maior a lavagem de dinheiro pode ser controlado com um sistema
eficiente de fiscalização. "Esse tipo de delito tem diminuído
bastante nos países que se preocupam com isso", disse a VEJA o economista
americano Doug Walker, especialista na indústria dos jogos. Curiosamente,
em alguns países o cassino é visto não como um estímulo
à sonegação fiscal, mas, sim, como uma medida para compensar
a inabilidade do estado em coletar outros impostos. O México e a Rússia
são os exemplos mais notórios. Descobriram que é mais fácil
e eficaz coletar impostos sobre o jogo do que tentar coibir a sonegação
fiscal generalizada que existe nesses países. A fórmula para tirar
apenas os benefícios da jogatina consiste em manter um controle rígido
sobre as atividades e movimentação de dinheiro nos cassinos.