Transformar a própria
vida em show ao vivo na internet é a nova mania dos que fazem tudo
para virar celebridade
Silvia
Rogar
Divulgação
Jody
Gnant (acima), Justine (à esq. e à dir.) e Kan: pessoas
comuns que se tornaram celebridades escancarando sua vida privada na internet
Lançado
em 1998, o filme OShow de Truman contava a história de um
jovem que, desde o nascimento, tem seus passos monitorados por câmeras,
manipulados por um diretor e exibidos na televisão mundo afora sem
o seu conhecimento, claro. Quando descobre ser ele próprio um seriado ambulante,
Truman Burbank, interpretado por Jim Carrey, faz de tudo para se libertar do foco
das lentes. Na vida real, tem acontecido o oposto. A nova mania entre alguns internautas
de carteirinha é revelar a intimidade ao vivo na rede. Depois dos blogs,
dos fotologs, dos sites de relacionamento e do YouTube, o exibicionismo virtual
entra na era do chamado lifecasting em tradução livre
do inglês, algo como transmissão da vida. Já é possível
encontrar uma penca de desinibidos que andam para cima e para baixo com uma câmera
permanentemente ligada. E vale de tudo para tornar sua programação
mais atraente: conversar com estranhos na rua, fazer compras ou, o que é
mais comum, simplesmente se exibir.
Ser o assunto principal de um show on-line e ao vivo não requer muito dinheiro
ou equipamentos sofisticados. A produção é praticamente caseira:
basta ter laptop, webcam (pequena câmera para internet), conexão
de internet wireless (sem fio) e, para não interromper a transmissão,
um bom arsenal de baterias para o computador. Do outro lado da tela, a graça
de assistir a um programa do gênero é ultrapassar o voyeurismo. Os
sites permitem que o público interaja com seus protagonistas, através
de mensagens e bate-papos. O mais célebre entre os protagonistas desse
tipo de "programa" é Justin Kan, americano de 23 anos, formado em física
pela conceituada Universidade Yale. Faça chuva ou faça sol, ele
passa seus dias com uma câmera acoplada ao boné e interligada a um
laptop levíssimo, que carrega na mochila. Desde março passado, as
imagens do seu cotidiano são transmitidas em tempo real na Justin.TV (www.justin.tv),
site criado por Kan e outros três amigos, justamente com o objetivo de mostrar
o "show da vida" do fundador e de outros exibicionistas.
A maioria dos que se candidatam a astros na rede gosta de estar na frente das
câmeras. Kan é exceção. Passa a maior parte do tempo
mostrando o mundo sob sua perspectiva. Não se deve imaginar nada muito
filosófico. Como sua agenda social está bem longe de ter a agitação
da rotina de uma Paris Hilton, Kan faz de tudo para ter momentos mais interessantes
e, claro, chamar atenção. Ele já se jogou de roupa
numa piscina, fez aula de trapézio e está agora em busca de uma
namorada. Encontrar alguém que se disponha a andar com um sujeito que carrega
uma câmera no boné, 24 horas por dia, não é tarefa
das mais fáceis. Mas Kan não desanima. "Enquanto me divertir, passarei
meus dias assim. Só não levo a câmera quando entro em banheiros
públicos. Também tiro o som para discutir estratégias de
negócios em reuniões", disse a VEJA na semana passada tudo
devidamente gravado por ele, claro.
Sim, negócios. A nova obsessão dos aventureiros pontocom é
criar o site campeão de transmissões ao vivo, uma espécie
de YouTube da categoria. "A nossa idéia é permitir que todo internauta
tenha seu canal de TV para se divertir", disse a VEJA John Ham, 29 anos, fundador
do Ustream (www.ustream.tv), um dos principais sites dedicados ao filão.
A idéia tem potencial, mas esbarra na dificuldade de que nem todo mundo
é suficientemente interessante para virar atração. A designer
Justine Ezarik é uma das poucas que ultrapassam com sobras essa barreira.
Alçada a celebridade da internet, seu sucesso deve-se à combinação
perfeita de dotes: loura, com estampa que lembra a da atriz Cameron Diaz, ela
domina o mundo virtual com a habilidade de um nerd. Para encontrar gente interessante
capaz de preencher sua programação, o Ustream realizou um concurso
em que elegeu dez pessoas para estrelar programas ao vivo e ofereceu um cachê
aos ganhadores. Uma das escolhidas foi Jody Gnant, aspirante a cantora que diz
ter mais medo da obscuridade que da falta de privacidade. Assim como usuários
de fotologs e sites de relacionamento, ela vê a experiência como mais
uma forma de aumentar o círculo de amizades. "No início, queria
apenas promover o meu CD, mas me viciei nos bate-papos com o público",
conta.
Não é
de hoje que a curiosidade sobre a vida alheia mostra seu potencial de virar febre
na internet. Em 1996, a estudante americana Jennifer Ringley passou a transmitir
continuamente imagens de seu dormitório universitário. Dois anos
depois, 3 milhões de pessoas checavam a intimidade da moça em seu
site. Eram imagens estáticas e em preto-e-branco com tudo o que se deveria
fazer entre quatro paredes, incluindo sexo e trocas de roupa. Tudo foi documentado
até 2003, quando ela cansou da falta de privacidade e se desconectou. Esse,
aliás, um recurso indispensável. Na hora de ir ao banheiro, Justin
Kan mira a câmera para o teto.