Pouco antes de ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy voltou
de um almoço com o então primeiro-ministro inglês Tony Blair
dizendo a seus assessores, em tom jocoso: "Tony e eu acabamos de tomar uma decisão.
Vamos conquistar a Europa". O episódio é descrito em um livro lançado
na semana passada pela dramaturga francesa Yasmina Reza, que acompanhou os bastidores
da campanha presidencial de Sarkozy. Há 100 dias no cargo, completados
na semana passada, o presidente francês dá mostras de querer muito
mais do que simplesmente conquistar a Europa. Ele demonstra tal energia e capacidade
de apresentar novas idéias e de transformar rapidamente muitas delas
em fatos concretos que até os franceses mais bem informados estão
tendo dificuldade em acompanhar. Super-Sarkô, Hiperpresidente e Nicolas
Bonaparte (em referência ao agitado e centralizador Napoleão Bonaparte)
são alguns dos apelidos que a imprensa francesa cunhou para o ativo Sarkozy.
Mesmo de férias
sim, ele já tirou férias porque tout le monde sai de Paris
em agosto , o presidente não parou de trabalhar nem se afastou dos
holofotes. Nas duas semanas em que descansou com o filho Louis nos Estados Unidos
(ele voltou na quinta-feira passada para Paris), Sarkozy encontrou tempo para
fazer vinte declarações à imprensa, retornar rapidamente
à França para comparecer ao enterro de um cardeal e voltar para
o almoço com o presidente americano George W. Bush e sua família.
As relações entre os dois países sempre foram complexas e
um tanto relutantes. Sarkozy já conseguiu aquecê-las a um nível
sem precedentes. Os franceses estão extasiados (61% de popularidade) com
o presidente que se vislumbra ser l'homme providentiel aquele que
vem a propósito, no momento certo para resolver uma situação.
A expressão já
foi utilizada para descrever Napoleão Bonaparte, que pôs fim ao caos
revolucionário. Também valeu para Charles de Gaulle, que tirou a
França do atoleiro da guerra na Argélia e criou a presidência
imperial da Quinta República. Sarkozy sempre demonstrou impaciência
com o distanciamento monárquico de seus antecessores. Não há
nada de passivo ou esnobe no novo presidente francês. O país está
escandalizado com um caso de pedofilia? Sarkozy defende uma lei que permita a
castração química dos pedófilos condenados. Os milionários
franceses fogem do país para escapar dos altos impostos? O presidente já
conseguiu na Assembléia Nacional a aprovação de leis que
reduzem impostos sobre a renda e sobre heranças. O serviço público
é constantemente paralisado por movimentos reivindicatórios? Outra
lei limitou o direito de greve nos transportes públicos. A semana de 36
horas reduz a produtividade? Outra medida foi criada para incentivar os franceses
a trabalhar mais horas por semana. "Considera-se natural um governante aproveitar
a popularidade de início de mandato para acelerar seus projetos. Mas Sarkozy
está se destacando porque, além de enérgico, é muito
hábil em lidar com a mídia", disse a VEJA o cientista político
Daniel Gaxie, da Universidade Sorbonne, em Paris.
Há muito ainda por fazer para Sarkozy cumprir a meta de efetuar reformas
que deixem a economia da França mais dinâmica e muita resistência
a ser enfrentada por parte dos franceses, que devem sentir na carne a perda de
benefícios consolidados. Talvez nada supere a audácia de Sarkozy
no campo das relações internacionais. Agora que Tony Blair saiu
de cena, o presidente francês é o candidato natural a liderar a Europa
em assuntos comuns. A lista de feitos das últimas semanas demonstra que
Sarkozy encara essa oportunidade com entusiasmo, ainda que isso cause algum constrangimento
ou ciúme entre os seus colegas de outros países. Em apenas três
meses, ele já convenceu os vizinhos a indicar um francês para a presidência
do Fundo Monetário Internacional, comandou a negociação de
um texto reduzido da Constituição européia (rejeitada por
franceses e holandeses em referendo) e propôs a criação de
uma União Mediterrânea, um acordo político e comercial que
incluiria os países do sul da Europa, do norte da África e do oeste
do Oriente Médio.
O
estilo de liderança do presidente francês inclui boa dose de oportunismo.
A Comissão Européia negociava havia meses com o governo da Líbia
a libertação de um grupo de enfermeiras búlgaras e de um
médico palestino presos fazia oito anos no país. Pouco antes de
o acordo se concretizar, a elegante primeira-dama francesa, Cécilia Sarkozy,
visitou o ditador Muamar Kadafi, o que permitiu ao marido levar o crédito
pela libertação. De quebra, ele saiu da Líbia com um acordo
nuclear assinado com Kadafi. Em outras palavras, revigorou o prestígio
externo da França e ainda ganhou um dinheirinho. Os franceses deliraram.
UM PEQUENO RETOQUE NOS PNEUS
Neal
Hamberg/Reuters
Sarkozy
na vida real com seu pneuzinho e na foto retocada (à dir.) nas
páginas de Paris Match: ajuda de seus amigos editores