Radicais do PT criam
o MST das fábricas e usam o
dinheiro das empresas ocupadas em proveito próprio
Duda Teixeira, de Joinville
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No alto, passagem aérea
para militante do MST com destino a Barcelona paga pela
Cipla. Acima, prova de que a fábrica bancou a instalação
de sistema de segurança na casa de Serge Goulart,
do Diretório Nacional do PT
Invasões
de terras, de repartições públicas, de
universidades num país que garante impunidade
à violência política, é natural
o surgimento de um grupo de lunáticos ansiosos por
pavimentar o caminho da revolução com a tomada
de fábricas. Desde 2002, militantes da Esquerda Marxista,
facção radical do PT, tomaram posse de cinco
indústrias em São Paulo e Santa Catarina e formaram
o Movimento das Fábricas Ocupadas. Na empresa em que
a ocupação foi mais prolongada, a Cipla, tradicional
fabricante de produtos plásticos em Joinville, isso
significou quatro anos e sete meses de irregularidades administrativas,
desvio de fundos e violência política.
Três meses
atrás, a Cipla sofreu intervenção judicial,
ordenada porque os patrões socialistas descontavam
o INSS do salário dos empregados, mas não o
repassavam à Previdência Social. Recibos de compras,
comprovantes de transferências bancárias, cópias
de e-mail e outros papéis encontrados pelo interventor
revelam uma administração perniciosa, que sistematicamente
desviou recursos para atender a objetivos políticos
e particulares. No interior das fábricas, funcionários
eram coagidos a freqüentar aulas sobre a ideologia comunista,
a ler a respeito da Revolução Russa de 1917
ou a contribuir com ações políticas de
outros sindicatos ou com o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST), sob ameaça de perder o emprego.
Cipla
Serge Goulart (de cabelos
brancos, no centro), então no comando administrativo
da Cipla, na fábrica, em 2004: dinheiro na conta
bancária
A proximidade com
o MST não é sem propósito. Tomar uma
fábrica é um ato fora da lei da mesma forma
que invadir uma fazenda. Nas empresas ocupadas o controle
acionário não passou oficialmente para as mãos
dos trabalhadores. Na Cipla, sob concordata desde 1994, a
dívida tributária ultrapassava 312 milhões
de reais e os salários não eram honrados. Membros
do Ministério Público Federal, da Delegacia
Regional do Trabalho, do governo estadual, da Câmara
dos Vereadores e do sindicato da categoria decidiram entregar
a administração da fábrica a uma comissão
de funcionários. Foi o Sindicato dos Trabalhadores
nas Indústrias de Material Plástico de Joinville
que indicou o radialista Carlos Castro, da Esquerda Marxista
do PT, para membro da comissão. Por sua vez, Castro
abriu a porta da empresa para que fosse tomada pelos militantes
de sua facção política.
"O objetivo da
comissão era salvar a empresa e os empregos, mas o
que se seguiu foi pura politicagem", diz Reinaldo Schroeder,
presidente do sindicato, que rompeu com a administração
esquerdista da fábrica em fevereiro de 2003. A meta
imediata do Movimento das Fábricas Ocupadas é
a estatização das empresas sob administração
dos funcionários. "Nós queremos ser trabalhadores
como os da Petrobras e do Banco do Brasil", disse a VEJA Serge
Goulart, líder máximo do movimento e, durante
o período de ocupação, coordenador administrativo
da Cipla. Ex-corretor de imóveis em Florianópolis,
Goulart é fundador e membro do Diretório Nacional
do PT. Descontentes com a falta de entusiasmo do governo Lula
em estatizar uma fábrica de assentos de vasos sanitários,
os militantes adotaram Hugo Chávez como patrono. No
ano passado, a Cipla recebeu três lotes de matérias-primas
da Pequiven, a estatal petroquímica venezuelana, no
valor de 2,5 milhões de reais, em condições
camaradas de pagamento.
Roberto Setton
Placa é retirada após
intervenção judicial: matéria-prima
subsidiada vinha da Venezuela
O assalto ao caixa
da empresa foi feito de diversas formas. Foram contratados
28 petistas, entre eles líderes estudantis, agricultores
e um garçom ligados à Esquerda Marxista. Um
sitiante, presidente do Sindicato Rural de Araquari, cidade
próxima, foi empregado como auxiliar administrativo
em 2003 ganhando 1.690 reais. Em abril deste ano, era gerente
com salário de 5.316 reais. Nessa condição,
empregou dois irmãos, uma cunhada, uma prima e um sobrinho.
Funcionários eram coagidos a doar parte do salário
a uma certa Associação Ferreirinha, criada para
financiar projetos políticos, que também recebia
0,5% do faturamento da empresa. Comprovantes de depósito
revelam que o dinheiro ia direto para a conta bancária
de Goulart. Recibos mostram que a Cipla pagou 16.633 reais
pela instalação de um sistema de segurança
na casa de Goulart em Florianópolis. A empresa custeou
ainda passagens de avião para militantes do MST e do
sindicato dos ferroviários. "A companhia estava deficitária
e os impostos não eram pagos. Não havia dinheiro
sobrando para gastos desse tamanho", diz o interventor Rainoldo
Uessler. Perito de Florianópolis especializado em recuperar
empresas, ele está no comando da Cipla e de outras
duas fábricas que estiveram sob ocupação
da Esquerda Marxista do PT. Sua missão é prejudicada
por sabotagens praticadas pelos militantes remanescentes nas
fábricas.
Os petistas alegam
que a gastança foi aprovada em reuniões de funcionários.
Fiéis ao previsto nos manuais comunistas, as assembléias
eram convocadas apenas para legitimar decisões já
tomadas pelos dirigentes. O voto era aberto, e quem não
comparecia às assembléias ou manifestava oposição
recebia a visita de militantes e tinha de se explicar. "Se
alguém era contra, ia direto para o paredão.
Todos tínhamos medo de demissão", diz José
Nazareno de Oliveira, 47 anos, técnico em eletromecânica
na Cipla. Mais de 230 empregados foram demitidos durante a
ocupação, a maioria por razões políticas.
No auge da tensão, os dirigentes ordenaram a fabricação
de quarenta cassetetes de madeira e manoplas de plástico.
Aulas de artes marciais começaram a ser ministradas
para um grupo seleto de jovens. Para os empregados, foi um
sinal de que todos estavam correndo perigo.
Roberto Setton
O interventor judicial Rainoldo
Uessler: missão de fazer a fábrica dar lucro
em meio a sabotagens
Atualmente apenas
uma indústria, a Flaskô, em Sumaré, no
interior de São Paulo, continua sob controle do Movimento
das Fábricas Ocupadas. A ordem de intervenção
judicial foi emitida em maio, mas não pôde ser
concretizada porque o interventor foi agredido ao tentar entrar
na empresa. Nas três fábricas de Joinville sob
intervenção, a maioria dos funcionários
aprova a nova situação. A esperança é
que seja decretada a falência das firmas. Dessa forma,
poderiam formar cooperativas e assumir a administração
das empresas. No Brasil, há 409 cooperativas assim.
Os empregados pagam um aluguel pelo uso da fábrica
até que ela vá a leilão e possa saldar
suas dívidas. Os funcionários querem fazer exatamente
isso, dessa vez, sem a intromissão de militantes comunistas.