O Conselho de Ética
vai pedir a cassação de
Renan Calheiros por ele ter usado lobista de
empreiteira para pagar suas despesas pessoais
Otávio Cabral
Dida
Sampaio/AE
O senador Renan Calheiros tenta
se salvar usando a tática de negar tudo apenas
para confundir
O Conselho de Ética deve concluir nesta semana o relatório
que vai pedir a cassação do mandato do senador
Renan Calheiros. O processo investiga se o senador quebrou
o decoro parlamentar ao ter as despesas pessoais pagas por
um lobista da empreiteira Mendes Júnior. Renan tentou
durante três meses convencer seus pares de que ele é
homem rico, que o lobista apenas lhe prestou um favor como
amigo e que o dinheiro da pensão saiu de suas contas.
A Polícia Federal implodiu essa versão. Ao examinarem
os extratos bancários do senador, os peritos não
encontraram nenhum registro de que os recursos usados pelo
lobista pertenciam a Renan. A perícia na contabilidade
do presidente do Congresso revelou ainda que quase nada do
que o senador apresentou para justificar a origem de sua fortuna
tem explicação documental. Renan ficou rico
vendendo bois que não se sabe se existiram mesmo, e
seu patrimônio declarado, estimado em 10 milhões
de reais, é incompatível com sua renda. Se não
bastasse, o laudo da polícia ainda listou uma nova
e suspeitíssima operação com as digitais
de Renan Calheiros.
Ao analisarem os
extratos bancários de Renan, os peritos descobriram
que havia uma diferença considerável entre as
despesas e as receitas do senador. Ao contrário do
que afirmava, Renan não tinha em conta dinheiro para
pagar a pensão da filha que teve com a jornalista Mônica
Veloso. Indagado a respeito, o senador informou à polícia
que complementou o dinheiro que faltava com um empréstimo.
Para provar o que dizia, Renan apresentou cópia de
um contrato de mútuo e notas promissórias da
transação. Como tudo o que o senador faz no
mundo dos negócios é estranho, esse também
não deixou a dever. Quem empresta dinheiro ao senador
é uma locadora de veículos de Maceió,
a Costa Dourada Veículos. A empresa pertence a Tito
Uchôa, primo de Renan e seu testa-de-ferro em uma rede
de empresas de comunicação em Alagoas. O empréstimo,
no valor de 178 000 reais, é um negócio de pai
para filho ou de laranja para senador. Os documentos
não têm registro em cartório, os contratos
não têm sequer as assinaturas das partes, a dívida
jamais foi paga e o dinheiro foi entregue em espécie
e em parcelas mensais da empresa. Algo muito parecido com
a conhecida Operação Uruguai, uma farsa montada
para tentar explicar a origem do dinheiro que sustentava as
despesas pessoais do ex-presidente Fernando Collor, aliado
de Renan.
Marco Borelli/O Jornal
Jose Emilio Perillo
Tito Uchôa,
o primo-laranja do senador: negócios e empréstimo
suspeito
Tito Uchôa,
como se sabe, era um sujeito modesto, que virou um bem-sucedido
empresário depois de fazer negócios em nome
do senador Renan Calheiros. O contrato entre Renan e Tito,
porém, pode esconder outro negócio escuso do
senador. A locadora Costa Dourada presta serviços a
oito órgãos públicos de Alagoas
duas empresas estaduais, quatro secretarias, o Tribunal de
Contas de Alagoas e uma prefeitura municipal. Talvez por coincidência,
o senador Renan Calheiros é padrinho político
dos dirigentes de alguns desses órgãos. Na época
do empréstimo, a prefeitura de Barra de São
Miguel, a paradisíaca praia situada a 35 quilômetros
de Maceió onde o senador tem uma belíssima casa
à beira-mar, era comandada por Reginaldo Andrade, amigo
e integrante do PMDB de Renan. A Companhia Energética
de Alagoas (Ceal), uma das principais clientes da locadora,
tinha o diretor financeiro e o diretor de operações
nomeados por Renan. A seqüência mais interessante
de coincidências, porém, se deu na Secretaria
de Assistência Social, outra cliente da locadora. Na
época da assinatura dos contratos, ela era comandada
por Carlos Ricardo Santa Ritta, assessor de Renan.
Para quem não
se lembra, Santa Ritta foi o laranja do senador Renan Calheiros
na rádio e no jornal comprados em uma sociedade secreta
com o usineiro João Lyra. Pois o laranja Santa Ritta,
como secretário de estado indicado por Renan, contratou
a empresa do laranja Tito Uchôa, responsável
pelos pagamentos que viabilizaram a sociedade do senador com
o usineiro alagoano. A empresa de Tito Uchôa, sabe-se
agora, repassava dinheiro em espécie, como se fosse
um empréstimo, ao senador Renan Calheiros. Resumindo:
o dinheiro saía dos cofres públicos por ordem
de um laranja-secretário, ia para a conta de um laranja-empresário
e, depois, pingava no bolso do presidente do Senado. Os empréstimos,
segundo o senador, em depoimento ao Conselho de Ética,
foram mantidos em segredo para preservar sua intimidade. Com
essa triangulação, Renan tenta provar que não
precisava de um lobista para pagar suas despesas. Como se
vê, a situação do senador chegou a um
ponto tal de desmoralização que ele nem se constrange
mais em justificar uma história escabrosa confessando
outra.