Uma das personagens mais sombrias
da crise aérea, a advogada Denise Abreu saiu do ar na sexta-feira passada.
Em março de 2006, ela havia assumido um cargo-chave na então recém-criada
Agência Nacional de Aviação Civil (Anac): a diretoria de serviços
aéreos. Conhecia pouco de aviação, mas, com um estilo impositivo,
mandava mais na agência do que o diretor presidente, Milton Zuanazzi. As
investigações do acidente com o Airbus da TAM, que matou 199 pessoas
em Congonhas, revelaram que Denise se mantinha perigosamente próxima das
empresas que deveria fiscalizar e ela foi obrigada a pedir demissão.
Já se sabia que seu irmão, o advogado Olten Abreu Júnior,
prestava serviços à TAM. Na semana passada, descobriu-se que a diretora
da Anac chegou a ludibriar a Justiça para favorecer as companhias aéreas.
Em fevereiro, a desembargadora paulista Cecília Marcondes julgava uma ação
que restringia o pouso de aviões em Congonhas nos dias de chuva
medida que desagradava às empresas. Ao receber de Denise um documento da
Anac regulando essa mesma matéria, deu uma sentença que favoreceu
as companhias. O papelório da Anac chegou à mesa da desembargadora
como se fosse uma norma, mas era só um estudo técnico.
A fraude levou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a abrir um inquérito
administrativo para averiguar o caso. Simultaneamente, a CPI do Apagão
Aéreo quebrou os sigilos fiscal, bancário e telefônico da
diretora da Anac. Na sexta-feira, o Ministério Público pediu seu
afastamento. O bombardeio encerrou a carreira de Denise no setor aéreo.
Seus primeiros vôos nessa área foram feitos no início do governo
Lula. Seu chefe de então, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu,
incumbiu-lhe de acompanhar o salvamento da Varig. Denise embrenhou-se em um projeto
de fusão dessa empresa com a TAM. O negócio não saiu, mas
a preposta de Dirceu criou uma relação sólida com a TAM.
Com ela, pavimentou sua nomeação para a Anac.
Foi o auge de uma carreira pública de vinte anos, na qual ela diz ter sido
mal compreendida. Filha de um juiz de futebol, Denise tornou-se procuradora do
estado de São Paulo em 1987. Seus amigos no PMDB lhe arranjaram uma vaga
na assessoria do ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Poucos entenderam
quando, em 1995, ela aderiu ao PSDB. Foi chefe de gabinete de José Guedes,
secretário de Saúde do governo Mário Covas. Ocupou o mesmo
cargo na pasta da Assistência Social, em que fez amigos. Por meio deles,
passou a acompanhar as obras da antiga Febem o que não fazia parte
de suas atribuições. Suas relações com empreiteiros
foram incompreendidas pelos tucanos, que a afastaram do cargo. Quando Lula chegou
ao Planalto, Denise virou petista. Chamada para Brasília por José
Dirceu, seu colega de faculdade, demitiu-se do estado, onde tinha um salário
de 9 800 reais, para ganhar 4 900 reais no Planalto. Lá, mais uma vez foi
incompreendida. Interpretaram mal até seu charuto. Ela diz que só
fumou uma vez e nem tragou. Denise reclama muito de incompreensão,
mas o que ninguém entende é como ela mandou durante um ano e meio
na aviação nacional.