No pacote anticrime
anunciado pelo governo federal, faltam soluções
e sobra improviso
Marcelo Carneiro
Carlos Ivan/Ag. O Globo
Policiais civis em greve no
Rio pedem esmola em ônibus: indigência
Ao
lançar, na semana passada, um plano de segurança
pública para combate ao crime, o presidente Lula pediu
aos presentes à solenidade que fizessem uma "corrente
positiva" para ajudar o programa a dar certo. A julgar pelas
medidas anunciadas, a força do pensamento terá
de ser mesmo muito grande: o Programa Nacional de Segurança
Pública com Cidadania, ou Pronasci, como foi batizado,
reúne todos os vícios dos pacotes do gênero
que o governo costuma apresentar: traz projetos antigos embalados
em papel novo, substitui soluções por curativos
improvisados e atira em múltiplas direções
sem se preocupar com o foco. "Quem tem 94 propostas para a
área de segurança não tem nenhuma", avalia
Cláudio Beato, coordenador do Centro de Estudos de
Criminalidade e Segurança Pública da Universidade
Federal de Minas Gerais, para quem o Pronasci é uma
"colcha de retalhos". Além do fato de as iniciativas
anunciadas pelo governo incluírem medidas já
em andamento ou na órbita de outros órgãos
como ações de infra-estrutura e projetos
de alfabetização , o pacote é repleto
de medidas-tampão, como a que trata do problema dos
baixos salários dos policiais.
Há meses,
o governo federal vinha anunciando que estabeleceria um piso
salarial nacional para a categoria, cujos integrantes, em
alguns estados, recebem menos de 800 reais por mês.
No Rio de Janeiro, onde a Polícia Civil decretou greve
por 72 horas na semana passada, um grupo de policiais chegou
a encenar um pedido de esmola a passageiros de ônibus,
como forma de protesto. Pois o tão anunciado piso salarial
nacional, na última hora, acabou virando uma certa
"Bolsa Formação" adicional de até
400 reais para agentes "que participarem de cursos regulares
de formação". Quase metade dos recursos do programa
se destina a esse fim. O viés assistencialista do Pronasci
não se esgota aí. O programa prevê ainda
outra bolsa, essa no valor de 100 reais mensais, para mulheres
que contribuírem para "afastar o jovem da criminalidade".
O projeto não detalha que papel terão essas
mulheres, denominadas "mães da paz". Para Nancy Cardia,
do Núcleo de Estudos da Violência da USP, "há
o risco de que isso se transforme apenas em distribuição
de renda".
Mesmo o mais vistoso
ingrediente do pacote a promessa de investir, até
2012, 6,7 bilhões de reais em onze regiões metropolitanas
com índices altos de violência é,
na verdade, a correção de um equívoco.
Desde o início do governo Lula, os investimentos em
segurança, que já vinham diminuindo no governo
anterior, minguaram ainda mais (veja quadro abaixo).
De todo o pacote, apenas um ponto mereceu o apoio unânime
de especialistas: a prioridade dada aos jovens que vivem em
ambientes infestados pelo banditismo. Hoje, o Brasil é
um dos campeões em homicídios de pessoas na
faixa dos 15 aos 24 anos. São 52 assassinatos a cada
100 000 habitantes, a terceira mais alta taxa do mundo. Será
preciso muito pensamento positivo para que o Pronasci se revele
um plano à altura de problemas como esse.