Entrevista:João
Doria Jr. "Prefiro cães a ladrões"
Um dos líderes do "Cansei", ironizado por ter organizado um passeio
de "cachorros de madame", diz que é antidemocrático impedir
ricos de se manifestar
Thaís
Oyama
Roberto Setton
"Desde
quando, para você ter o direito de se expressar, é preciso ter atestado
de pobreza?"
O
empresário, jornalista e publicitário João Doria Jr. não
bebe, não fuma, não fala palavrão e, graças ao apreço
que tem pelos detalhes e ao gel, que usa desde os 9 anos de idade ,
jamais foi visto em público com um fio de cabelo fora do lugar. João
Doria Jr. é um perfeccionista, um trabalhador obcecado e um dínamo
do meio empresarial. Começou a trabalhar aos 13 anos, depois de ver o pai,
o deputado federal João Doria, cassado em 1964, perder todo o patrimônio
no exílio. Aos 18 anos, já era diretor de uma rede de TV e, aos
38, fundou um grupo de lideranças empresariais, o Lide, que reúne
quase metade do PIB brasileiro. Hoje, aos 49 anos, é um dos líderes
do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, mais conhecido como "Cansei".
Criado a partir do acidente com o Airbus da TAM, inicialmente para protestar contra
o caos aéreo e a corrupção, o "Cansei" já foi acusado
de golpista, "elitista" e ilegítimo. Nesta entrevista a VEJA, Doria Jr.
fala sobre as críticas que ele e seu movimento receberam, afirma que o
brasileiro não perdoa quem faz sucesso e diz que os ricos têm, sim,
o direito de protestar. "Ou agora é preciso apresentar atestado de pobreza
e de filiação partidária para isso?"
Veja O movimento que o senhor ajudou
a criar já foi chamado de "coisa de dondocas enfadadas", "conspiração
da elite branca de Campos do Jordão" e "movimento dos cansados de andar
de helicóptero". Qual é o motivo dessa reação, na
sua opinião? Doria Jr. Eu creditaria parte dessa
reação à falta do exercício democrático. Nós
vivemos um hiato, nestes últimos seis anos, em que não houve nenhum
movimento novo na sociedade civil. Esse hiato provocou uma certa letargia no país.
Então, quando há um movimento da sociedade civil, algumas pessoas
seja por incompreensão, seja porque não aceitam críticas
procuram desqualificá-lo. Eu entendo que o Brasil continua sendo
uma democracia e, nesse contexto, todos os movimentos da sociedade civil, desde
que pautados dentro da lei e da ordem, são importantes para a afirmação
democrática do país, venham eles de onde vierem.
Veja E por que, no caso do "Cansei",
a origem do movimento tornou-se um ponto tão criticado? Doria
Jr. Acho que por incompreensão, em primeiro lugar; por intolerância,
em segundo lugar; e, em terceiro, um pouco porque o exercício da intelectualidade,
muitas vezes, não admite que aqueles que não são intelectuais
exerçam o direito ao protesto, ao diálogo, à dúvida.
O movimento tem pessoas que, vamos dizer, alcançaram posições
elevadas nas suas empresas e, no Brasil, há um certo hábito de criticar
quem faz sucesso. Tom Jobim foi o primeiro a observar isso quando disse que, no
Brasil, o sucesso é ofensa pessoal. Penso que há um pouco esse comportamento
atávico por parte da sociedade brasileira: o de achar que uma pessoa que
faz sucesso não merece esse sucesso e tentar explicá-lo por meio
de outras razões que não aquelas fundamentadas no trabalho, na dedicação
e no esforço. No caso do "Cansei", parece que se é duplamente culpado.
A pessoa é culpada por fazer sucesso e culpada porque, além de fazer
sucesso, ainda quer se manifestar. Agora, eu pergunto: desde quando, para ter
o direito de se expressar, você precisa ter atestado de pobreza? Quer dizer
que se você é pobre pode se manifestar, mas se pertence à
classe média ou usufrui um padrão alto de vida não tem o
direito de se expressar? Isso é um equívoco, é antidemocrático.
Veja O senhor ficou surpreso com essa reação? Doria Jr.
Da parte do governo, nós não esperávamos que ela
viesse com tanta força, mesmo porque o "Cansei" não foi feito para
ser um movimento de oposição ao governo Lula. É um movimento
pelo Brasil. Mas essa reação do governo acabou permeando parte da
mídia, mesmo aquela formada por jornalistas competentes, ilustres e com
DNA democrático e que, talvez pela falta do exercício da
crítica, acabaram também incorporando o movimento como algo golpista:
"Ah, vocês são contra o Lula, contra o pobre imigrante que veio para
o Sul na carroceria de um caminhão...".
Veja O senhor reconhece a existência
de preconceito contra o presidente Lula pelo fato de ele ser nordestino, iletrado
e de origem pobre? Doria Jr. Eu não concordo com
isso e não desqualifico o presidente Lula por sua origem humilde, assim
como não concordo que se desqualifique uma pessoa que, por ter estudado
e trabalhado, hoje ocupa uma posição de destaque na sociedade.
Veja O senhor não só
ocupa uma posição de destaque na sociedade como, por causa de sua
profissão, de seus hábitos e até de sua maneira de vestir-se,
sempre esteve associado a um segmento muito restrito da elite brasileira, que
muitas vezes é mostrada de forma caricata. Isso não teria contribuído
para estigmatizar o "Cansei"? Doria Jr. Talvez, talvez.
Mas, mesmo assim, nós temos de vencer essa discriminação.
Alguém que é pobre, anda descalço e nasceu no sertão
de Pernambuco está, por acaso, desqualificado para liderar algum movimento?
A atitude de quem tenta me desqualificar por causa de minha situação
socioeconômica é a mesma daqueles que desqualificam o sujeito de
pé descalço. Ela é injusta nos dois extremos. Mas isso não
me inibe. Isso não me arrefece. Eu sou um brasileiro como qualquer outro.
Meu pai foi cassado no golpe de 64, eu fui exilado com ele...
Veja Mas o que vem à cabeça
das pessoas é que o senhor promoveu um desfile de cachorros em Campos do
Jordão. Doria Jr. Eu prefiro caminhar com cães
a caminhar com ladrões.
Veja
De qualquer forma, do ponto de vista publicitário, o uso
de sua imagem como líder do "Cansei" não teria sido um marketing
equivocado? Doria Jr. Não. Primeiro, porque o movimento
não é de João Doria Jr. Depois, porque trabalho desde os
13 anos de idade. Não recebi nada de mão beijada. Meu pai, que foi
cassado no golpe de 64 porque denunciou na Câmara Federal que o Brasil estava
sendo vítima de um golpe, perdeu praticamente tudo no exílio, a
começar pelos amigos. Minha mãe, que era dona-de-casa e nunca havia
trabalhado antes, teve de começar a trabalhar. E eu comecei a trabalhar
não por esporte, mas para ajudá-la, porque via o sofrimento dela.
Saí de um colégio particular e fui estudar em uma escola pública
curso noturno, para poder trabalhar de dia em uma agência de publicidade.
Deixei de andar com motorista particular para andar de ônibus tomava
seis conduções por dia. Do meu salário, ficava com 20%. Os
outros 80% entregava a minha mãe. Comecei do zero. Do zero. E até
hoje trabalho dezessete horas por dia todos os dias. Pergunte a quem você
quiser. Até quem não é meu amigo sabe que trabalho dezessete
horas por dia.
Veja
O senhor acha que o fato de o "Cansei" ter sido caracterizado como
um movimento elitista afastou muita gente dele? Doria Jr.
Não senti que houve um temor das pessoas em relação ao juízo
que outras poderiam fazer. "Será que minha empregada ou meu funcionário
me avaliariam mal por isso?" Não, isso não senti. Agora, pelo temor
de uma retaliação por parte do governo ou mesmo de uma patrulha
por parte da imprensa, isso, sim. Esse temor eu senti. O Paulo Zottolo (presidente
da Philips e um dos líderes do "Cansei", que afirmou que, se o estado do
Piauí acabasse, "ninguém iria sentir falta"), por exemplo, que
é um homem de bem, cometeu um descuido, pediu desculpas, e, mesmo assim,
só falta quererem que ele seja imolado em praça pública.
Veja O Brasil viveu uma série de escândalos de corrupção
nos últimos anos e nenhum deles foi suficiente para mobilizar um grupo
a ponto de ele criar um movimento organizado de protesto. Por que o senhor acha
que isso só ocorreu agora? Doria Jr. Esses escândalos
podem não ter mobilizado o suficiente, mas mobilizaram, sim. Tanto que
o combate à corrupção, com punição aos corruptos
e corruptores, é o ponto número 1 da proposta do movimento "Cansei".
O segundo é a reforma tributária. O Brasil tem excesso de impostos
e os impostos, ao contrário do que alguns dizem erroneamente, penalizam
o trabalhador, o cidadão que tem carteira assinada, paga impostos e não
tem retribuição. O caos aéreo pode ter sido o ponto de partida
do "Cansei", mas isso só aconteceu porque ele catalisou uma série
de insatisfações que vinham crescendo. Dez meses de caos aéreo
provocaram uma sensibilização enorme na sociedade e principalmente
na classe média, que se sentiu desassistida e pouco respeitada nos seus
direitos. O fato de a classe mais pobre não viajar de avião
ou melhor, mal viajar não deve ser suficiente para desqualificar
o direito de milhares de pessoas que usam o transporte aéreo para trabalhar,
para fazer um tratamento de saúde, para estudar ou mesmo para usufruir
lazer, que também é um direito legítimo. E a indignação
foi ainda maior porque revelou a falta de eficiência do governo na gestão
de um problema grave. O governo levou dez meses para trocar um ministro! Eu não
contrato pessoas para trabalhar na minha empresa porque são minhas amigas
ou porque comungam das minhas opiniões. Contrato porque elas são
eficientes para cumprir o seu papel. E, se eu errar, convido a pessoa a deixar
a empresa. O Lula levou dez meses para trocar o Waldir Pires, que é um
homem de bem. Mas não basta ser um homem de bem para ser ministro.
Veja O senhor
disse que o "Cansei" agora deverá passar para uma segunda fase, propositiva.
No que consistirá essa fase? Doria Jr. O movimento
tem cinco propostas, que são: combate à corrupção,
com punição aos corruptos e corruptores, reforma tributária,
prioridade à educação, melhoria da eficiência da gestão
pública e a da segurança pública. Nós vamos apresentar
propostas que possam melhorar esses cinco pontos que estão longe
de ser as únicas deficiências do país ou dos estados e municípios,
mas são ao menos as mais urgentes, na nossa visão. No que diz respeito
ao combate à corrupção, por exemplo, trataremos dos leilões
eletrônicos, algo que o governo Mario Covas começou a fazer com resultados
fantásticos. A economia que o sistema proporciona e a capacidade de ele
neutralizar a corrupção são quase absolutas.
Veja O senhor disse que trabalha
dezessete horas por dia. Quantas horas dorme por noite? Doria Jr.
Muito pouco: quatro horas. Se você tem paz de espírito, pode dormir
pouco porque descansa bem. Eu descanso muito bem e não tomo barbitúricos
para dormir, nunca tomei. Assim como nunca bebi e nunca fumei. E olha que vou
para a cama tarde. Saio do escritório, todos os dias, à 1 e meia
da manhã. Até esse horário, pode ligar aqui que você
me encontra. Mesmo quando tenho um compromisso à noite, vou cedo, fico
o suficiente para que a pessoa perceba a minha presença como um gesto positivo,
simpático, e volto para cá.
Veja
Não sobra muito tempo para a família, então? Doria Jr. Eu levo meus filhos à escola todos os dias,
exceto nas terças e quintas, quando faço fisioterapia. Amo meus
filhos, amo minha mulher, amo minha família. Tenho três filhos, uma
esposa e um único casamento há catorze anos. E amo todos,
inclusive porque eles compreendem meu ritmo de vida. Mas eu convivo com meus filhos,
converso com eles. Tenho o hábito de estabelecer um tema por dia para conversar
com eles a caminho da escola, o tema do diálogo que teremos.
Veja Qual foi o tema de hoje? Doria Jr. "Respeito aos mais velhos". Expliquei por que eles
têm de respeitar, ouvir e obedecer às pessoas que têm mais
idade sejam elas seus pais, seus tios, seus amigos ou seus professores.
Uso a linguagem deles, evidentemente. Cada dia escolho um tópico e às
vezes repito um que já usei, porque isso, você sabe, é dinâmica
de ensino. Vou marcando os teminhas num caderno para retomar um pouco mais adiante.
Veja É
verdade que o senhor usa gel desde os 9 anos de idade? Doria Jr.
É que papai usava. Eu o via usar era Gumex que se chamava naquela
época e comecei a usar também. Uso até hoje.
Veja Tendo
começado a trabalhar tão cedo e passado por dificuldades como as
que o senhor relatou, o fato de ter sua imagem associada à de um mauricinho
deve incomodá-lo, não? Doria Jr. Eu sou uma
pessoa muito tolerante. Tenho um bom espírito. Eu não brigo, eu
não xingo, eu não falo palavrão nunca. E não falo
mal nem de quem merece. Acho apenas que tenho uma trajetória que deve ser
respeitada. Eu não recebi um pacote de Deus. Deus não me abençoou
e disse: "Olha, tá aqui o escritório, a gravata, o carro, o paletó".
Então, acho que ninguém tem o direito de desqualificar aqueles que
já não estão no estado de pobreza, que evoluíram e
progrediram na vida, aqueles que geram riqueza, oportunidades de emprego e que
pagam seus impostos. Assim como ninguém deveria tolher o direito de pessoas
com um bom padrão de vida de se manifestar. Não vejo por que você
precisa de autorização para realizar seu protesto e não vejo
por que, para obter essa autorização, você tem de anexar à
solicitação um atestado de pobreza ou de filiação
partidária. Aliás, é muito mais fácil para o rico
não fazer nada. Mas eu aprendi há muito tempo que não existe
atitude pior do que a omissão.