"Oposicionistas
dizem que o 'Cansei' só tem ricos e dondocas porque sabem que,
classificados assim, ricos e dondocas ficam petrificados diante da culpa do
que são ricos e dondocas"
A política nacional, com seus protestos e conchavos, suas campanhas e manifestos,
suas passeatas e invasões, costuma ser dolorosamente tediosa. Agora, as
coisas estão mudando. Desde que foi lançado o Movimento Cívico
pelo Direito dos Brasileiros, batizado de "Cansei", a vida política nacional
ficou muito divertida. Divertida porque o pessoal do "Cansei", sendo notoriamente
uma extração de ricos e gente de classe média, detesta ser
apontado como rico e gente de classe média. Eles ficam cansados. Seus garotos-propaganda
são figuras como Hebe Camargo, Ivete Sangalo, Ana Maria Braga e Regina
Duarte esta última uma coitada nacional, que além do medo
vive agora o cansaço. A turma, junta, é como uma réplica
da capa da revista Caras, a publicação que retrata a vida
e o glamour dos ricos e famosos. Mas eles não gostam de ser apontados como
ricos e famosos. Eles ficam cansados.
É
divertido isso. A recusa ao rótulo do que são e sabem que são
deve explicar-se pela mesma razão que, até pouco tempo atrás,
levava o pessoal da direita nacional a não admitir ser chamado de direita
nacional. Depois que a esquerda tomou o rumo das cucuias, a direita começou
a colocar a cabeça para fora. Só depois. Antes, parece que só
se admitia ser de esquerda. Como agora, parece que só se pode admitir ser
pobre, assalariado, classe baixa, D e E. Qualquer coisa acima disso é insulto.
O que o pessoal do "Cansei"
parece ignorar é que recusar o rótulo do que efetivamente eles são
apenas ajuda a deslegitimar aquilo que tem toda a legitimidade fazer uma
passeata, por exemplo. Noutro dia, 2.000 ou 5.000 pessoas, sabe-se lá o
número exato, tomaram as ruas de São Paulo. Era gente de classe
média e alguns ricaços. Hebe Camargo descendo do seu carrão
importado cercada de seguranças, por exemplo. E aí? Qual o problema?
Os ricos também podem ir às ruas, também podem fazer protestos.
Por que não poderiam, num regime democrático como o brasileiro?
Os oposicionistas dizem que o "Cansei" só tem ricos e dondocas porque sabem
que, classificados assim, ricos e dondocas ficam petrificados diante da culpa
do que são ricos e dondocas. Qual o problema? Ou por acaso já
se viu algum sem-terra recolhendo as bandeiras vermelhas, vexado de culpa, porque
alguém o acusou de miserável que não tem onde cair morto?
A crise de identidade do "Cansei"
é ainda mais divertida porque seus representantes ficam apavorados quando
se diz que são contra o governo Lula, são oposicionistas, antipetistas,
tucanos. Não deveriam nem responder. Por acaso é crime ser contra
o governo Lula? Ser oposicionista? Ser antipetista? Tucano? É tão
legítimo ser de esquerda quanto de direita, ser eleitor de Lula ou de Fernando
Henrique, embora haja nisso uma vasta diferença. Por que o pavor de ser
classificado de oposicionista? Por que o medo? Aqui, vale o mesmo: ao se assustar
com a acusação de ser contra Lula, o pessoal do "Cansei" sabota
a ampla legitimidade de ser contra Lula, contra o PT, contra tudo-isso-que-está-aí.
Com esse papelão, o
pessoal do "Cansei" fica tão cômico quanto os petistas exaltados
dizendo que qualquer crítica a Lula só pode ser golpe ou conspiração.