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DANÇA
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| O
Cullberg em ação: cisnes carecas |
O
Lago dos Cisnes, Cullberg Ballet (Estréia neste sábado
no Rio de Janeiro; dia 9 de setembro em São Paulo; e dia 15 em
Porto Alegre) Peça mais famosa do balé clássico,
O Lago dos Cisnes foi alvo de incontáveis "adaptações
ousadas" desde seu surgimento, em 1877. Poucas, entretanto, serão
tão ousadas quanto esta, concebida nos anos 80 pelo coreógrafo
sueco Mats Ek à frente do Cullberg Ballet, de Estocolmo. Ele usa
recursos, depois banalizados pela imitação, como bailarinas
carecas e descalças interpretando os doces cisnes.
Não se trata de heresia barata, no entanto. A montagem é
um ponto alto na carreira de Ek, um dos principais expoentes da dança
européia contemporânea. A apresentação em três
cidades brasileiras, mais de dez anos depois da última passagem
da companhia pelo país, é a chance de conferir um espetáculo
de visual arrojado e técnica apurada. Em tempo: Ek abusa nas coreografias,
mas preserva intacta a música do compositor russo Tchaikovsky.
DISCO
Christiane
F., David Bowie (EMI) Inédita em CD no Brasil, a
trilha desse filme traz as músicas da fase mais turbulenta e genial
do cantor inglês. Na segunda metade dos anos 70, David Bowie mudou-se
para Berlim e trocou a vasta cabeleira cor de laranja que usava por um
visual mais sóbrio. Ele assumiu a persona Thin White Duke (ou Magro
Duque Branco, uma gíria para cocaína) e compôs canções
influenciadas pelos ritmos eletrônicos e pelas trilhas sonoras das
discotecas alemãs. Essa fase retrata com perfeição
o ambiente sombrio do filme Christiane F., que fala de uma adolescente
viciada em heroína. As canções vão de temas
instrumentais, como Warszawa e V-2 Schneider, à rara
versão alemã de Heroes (virou Helden), interpretada
na língua de Goethe pelo próprio Bowie.
LIVRO
Do
Outro Lado da Mancha, de Julian Barnes (tradução
de Roberto Grey; Rocco; 162 páginas; 23 reais) Entre os
escritores ingleses na casa dos 50 anos, Martin Amis costuma ser visto
como o primo rico e Julian Barnes, o primo pobre. Injustiça. Barnes
pode não ter a projeção do outro, mas escreve pérolas
à altura. Como os dez contos deste livro, que abordam a
velha rivalidade entre ingleses e franceses sob a ótica dos primeiros.
Em Eternamente, por exemplo, uma senhora inglesa chega ao cúmulo
de plantar grama de seu país na sepultura do irmão, um combatente
da I Guerra Mundial enterrado em "ultrajante" solo francês. O autor
usa de humor cortante para tocar em questões que dizem respeito
à nacionalidade. No final, todas as histórias se amarram.
E a mensagem que fica é universalíssima.
INFANTIL
AP
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| Seuss:
lições de autocontrole para crianças |
Ah,
os Lugares Aonde Você Irá!, de Dr. Seuss (tradução
de Mônica R. da Costa, Lavínia Fávero e Gisela Moreau;
Companhia das Letrinhas; 56 páginas; 20,50 reais) Um dos
autores infantis mais celebrados dos Estados Unidos, Theodor Seuss Geisel
o Dr. Seuss era desconhecido no Brasil até o sucesso
do filme O Grinch, no ano passado. De lá para cá,
suas melhores obras foram editadas no país. Faltava este clássico
feito cerca de dois anos antes de sua morte, em 1991, aos 87 anos. A história
de um garoto que sai pelo mundo com liberdade para ir aonde quiser, topando
com criaturas e lugares fantásticos, procura incutir nas crianças
noções de autocontrole e responsabilidade. A edição
reproduz as ilustrações e os versos do autor, tanto em português
quanto no original.
CONCERTO
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| II
Giardino: instrumentos antigos |
Il
Giardino Armonico (dia 25 no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro,
e dias 27 a 29 no Teatro Cultura Artística, em São Paulo)
Surgido em 1985 na cidade italiana de Milão, o Il Giardino
Armonico pertence a uma classe de grupos tradicionalistas: mestres no
repertório barroco, eles não tocam em instrumentos que datem
de antes do século XVIII. Esse rigor tem rendido discos antológicos,
como uma versão para os Concertos de Brandenburgo, de Johann
Sebastian Bach, apontada por especialistas como a melhor existente, e
um celebrado álbum de canções do compositor italiano
Vivaldi em parceria com a meio-soprano Cecilia Bartoli. Em seus três
concertos brasileiros, o Il Giardino Armonico mostrará sua destreza
em peças de Bach, Vivaldi, Händel e, de quebra, apresentará
obras dos menos conhecidos Marcello e Veracini, ambos compositores italianos
do século XVII.
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LITERATURA
BRASILEIRA
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Sombra
Severa;
Raimundo
Carrero;
Iluminuras;
126
páginas;
27 reais
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Costuma-se
dizer que o regionalismo é uma tradição esgotada,
mas isso não é exato. Como já observou o crítico
Antonio Candido, em nações marcadas por grandes desigualdades
é inevitável que a realidade "incomum" de certas regiões
se imponha como assunto. Imprestáveis tornaram-se apenas
certos truques ficcionais para capturar a cor local, que desembocam
no exotismo, na macumba para turista, nas descrições
do "sertão mágico". Para usar a expressão de
Candido, só é possível hoje em dia um super-regionalismo,
literariamente refinado e com boa dose de consciência crítica
sobre as condições históricas e sociais do
país. Sombra Severa, do pernambucano Raimundo
Carrero, é uma tentativa curiosa de prosseguir na via do
regionalismo. Do ponto de vista estilístico, o autor é
um adepto da contenção e portanto inimigo das
narrações pitorescas. O cenário é o
mínimo necessário e a fala nordestina está
reduzida a "sotaque" em seu livro, ou seja, a uma forma peculiar
de montar certas frases e grafar certas palavras. Quanto à
história um triângulo amoroso envolvendo dois
irmãos e uma mulher raptada , o autor se aproxima dela
com os olhos de um narrador de mitos. Assim como os heróis
de tragédias gregas, produto de uma cultura que nem sequer
tinha palavras para designar o livre-arbítrio, os personagens
de Carrero são pedras nas mãos de um destino implacável.
Em outras palavras, o autor cria um universo arcaico, habitado por
figuras arcaicas. Só que ele não dá o passo
seguinte. E aqui é útil citar outro romance recente
de feição regionalista: Dois Irmãos,
de Milton Hatoum. Também nele, um confronto entre irmãos
tem uma dimensão "arquetípica". Mas ela é complementada
por uma outra dimensão, histórica, na qual o autor
reflete sobre o Brasil e a Amazônia contemporâneos.
Essa visada histórica falta em Sombra Severa. Carrero
contenta-se em compor uma fábula atemporal. Como se fosse
possível ou plausível, hoje, encarar seus sertanejos
como iguais de Édipo ou Ajax.
Carlos
Graieb
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