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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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DANÇA

O Cullberg em ação: cisnes carecas

O Lago dos Cisnes, Cullberg Ballet (Estréia neste sábado no Rio de Janeiro; dia 9 de setembro em São Paulo; e dia 15 em Porto Alegre) – Peça mais famosa do balé clássico, O Lago dos Cisnes foi alvo de incontáveis "adaptações ousadas" desde seu surgimento, em 1877. Poucas, entretanto, serão tão ousadas quanto esta, concebida nos anos 80 pelo coreógrafo sueco Mats Ek à frente do Cullberg Ballet, de Estocolmo. Ele usa recursos, depois banalizados pela imitação, como bailarinas carecas – e descalças – interpretando os doces cisnes. Não se trata de heresia barata, no entanto. A montagem é um ponto alto na carreira de Ek, um dos principais expoentes da dança européia contemporânea. A apresentação em três cidades brasileiras, mais de dez anos depois da última passagem da companhia pelo país, é a chance de conferir um espetáculo de visual arrojado e técnica apurada. Em tempo: Ek abusa nas coreografias, mas preserva intacta a música do compositor russo Tchaikovsky.

 

DISCO

Christiane F., David Bowie (EMI) – Inédita em CD no Brasil, a trilha desse filme traz as músicas da fase mais turbulenta e genial do cantor inglês. Na segunda metade dos anos 70, David Bowie mudou-se para Berlim e trocou a vasta cabeleira cor de laranja que usava por um visual mais sóbrio. Ele assumiu a persona Thin White Duke (ou Magro Duque Branco, uma gíria para cocaína) e compôs canções influenciadas pelos ritmos eletrônicos e pelas trilhas sonoras das discotecas alemãs. Essa fase retrata com perfeição o ambiente sombrio do filme Christiane F., que fala de uma adolescente viciada em heroína. As canções vão de temas instrumentais, como Warszawa e V-2 Schneider, à rara versão alemã de Heroes (virou Helden), interpretada na língua de Goethe pelo próprio Bowie.

 

LIVRO

Do Outro Lado da Mancha, de Julian Barnes (tradução de Roberto Grey; Rocco; 162 páginas; 23 reais) – Entre os escritores ingleses na casa dos 50 anos, Martin Amis costuma ser visto como o primo rico e Julian Barnes, o primo pobre. Injustiça. Barnes pode não ter a projeção do outro, mas escreve pérolas à altura. Como os dez contos deste livro, que abordam a velha rivalidade entre ingleses e franceses sob a ótica dos primeiros. Em Eternamente, por exemplo, uma senhora inglesa chega ao cúmulo de plantar grama de seu país na sepultura do irmão, um combatente da I Guerra Mundial enterrado em "ultrajante" solo francês. O autor usa de humor cortante para tocar em questões que dizem respeito à nacionalidade. No final, todas as histórias se amarram. E a mensagem que fica é universalíssima.

 

INFANTIL

AP
Seuss: lições de autocontrole para crianças

Ah, os Lugares Aonde Você Irá!, de Dr. Seuss (tradução de Mônica R. da Costa, Lavínia Fávero e Gisela Moreau; Companhia das Letrinhas; 56 páginas; 20,50 reais) – Um dos autores infantis mais celebrados dos Estados Unidos, Theodor Seuss Geisel – o Dr. Seuss – era desconhecido no Brasil até o sucesso do filme O Grinch, no ano passado. De lá para cá, suas melhores obras foram editadas no país. Faltava este clássico feito cerca de dois anos antes de sua morte, em 1991, aos 87 anos. A história de um garoto que sai pelo mundo com liberdade para ir aonde quiser, topando com criaturas e lugares fantásticos, procura incutir nas crianças noções de autocontrole e responsabilidade. A edição reproduz as ilustrações e os versos do autor, tanto em português quanto no original.

 

CONCERTO

II Giardino: instrumentos antigos

Il Giardino Armonico (dia 25 no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, e dias 27 a 29 no Teatro Cultura Artística, em São Paulo) – Surgido em 1985 na cidade italiana de Milão, o Il Giardino Armonico pertence a uma classe de grupos tradicionalistas: mestres no repertório barroco, eles não tocam em instrumentos que datem de antes do século XVIII. Esse rigor tem rendido discos antológicos, como uma versão para os Concertos de Brandenburgo, de Johann Sebastian Bach, apontada por especialistas como a melhor existente, e um celebrado álbum de canções do compositor italiano Vivaldi em parceria com a meio-soprano Cecilia Bartoli. Em seus três concertos brasileiros, o Il Giardino Armonico mostrará sua destreza em peças de Bach, Vivaldi, Händel e, de quebra, apresentará obras dos menos conhecidos Marcello e Veracini, ambos compositores italianos do século XVII.


LITERATURA BRASILEIRA

Sombra Severa;
Raimundo Carrero;
Iluminuras;
126 páginas;
27 reais

Costuma-se dizer que o regionalismo é uma tradição esgotada, mas isso não é exato. Como já observou o crítico Antonio Candido, em nações marcadas por grandes desigualdades é inevitável que a realidade "incomum" de certas regiões se imponha como assunto. Imprestáveis tornaram-se apenas certos truques ficcionais para capturar a cor local, que desembocam no exotismo, na macumba para turista, nas descrições do "sertão mágico". Para usar a expressão de Candido, só é possível hoje em dia um super-regionalismo, literariamente refinado e com boa dose de consciência crítica sobre as condições históricas e sociais do país. Sombra Severa, do pernambucano Raimundo Carrero, é uma tentativa curiosa de prosseguir na via do regionalismo. Do ponto de vista estilístico, o autor é um adepto da contenção – e portanto inimigo das narrações pitorescas. O cenário é o mínimo necessário e a fala nordestina está reduzida a "sotaque" em seu livro, ou seja, a uma forma peculiar de montar certas frases e grafar certas palavras. Quanto à história – um triângulo amoroso envolvendo dois irmãos e uma mulher raptada –, o autor se aproxima dela com os olhos de um narrador de mitos. Assim como os heróis de tragédias gregas, produto de uma cultura que nem sequer tinha palavras para designar o livre-arbítrio, os personagens de Carrero são pedras nas mãos de um destino implacável. Em outras palavras, o autor cria um universo arcaico, habitado por figuras arcaicas. Só que ele não dá o passo seguinte. E aqui é útil citar outro romance recente de feição regionalista: Dois Irmãos, de Milton Hatoum. Também nele, um confronto entre irmãos tem uma dimensão "arquetípica". Mas ela é complementada por uma outra dimensão, histórica, na qual o autor reflete sobre o Brasil e a Amazônia contemporâneos. Essa visada histórica falta em Sombra Severa. Carrero contenta-se em compor uma fábula atemporal. Como se fosse possível ou plausível, hoje, encarar seus sertanejos como iguais de Édipo ou Ajax.

Carlos Graieb

   
 



Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura.
   
 
   
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