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Edição 1 715 - 29 de agosto de 2001
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Claudio de Moura Castro

Árabe, islã e
fundamentalismo

"É perigoso ver um monolito onde
há um mosaico de etnias, culturas
e diversidade religiosa"

Farid era um colega egípcio durante meu doutorado nos Estados Unidos. Sendo profundamente religioso, logo que alugou um apartamento saiu atrás de uma igreja. Escolheu a mais próxima, que, por acaso, era batista. Quando estranhei que um muçulmano passasse a freqüentar uma igreja batista, tranqüilamente retrucou que era o mesmo Deus.

Esse pequeno episódio de tolerância dá o mote para desfazer alguns equívocos perigosos. A imprensa cotidiana mistura árabe com islã, com fundamentalismo e com terrorismo. Árabe pode não ser muçulmano, como os libaneses cristãos que vieram para o Brasil. E muçulmano pode não ser árabe, como é o caso dos turcos, iranianos, indonésios e outros. Mas o erro daninho é imputar ao islã uma índole fundamentalista e intolerante. Pior: supor que mesmo as minorias fundamentalistas endossam o terrorismo. Desfazer tais equívocos é vital, tratando-se de uma religião abraçada por 1,3 bilhão de pessoas – um quinto da população do globo.

Historicamente, o cristianismo tem sido mais intolerante que o islã. Ao longo dos séculos, havia templos e mosteiros católicos espalhados por quase todos os países islâmicos e não havia uma só mesquita na Europa. Existiam bairros judeus e sinagogas em Sevilha, Cairo, Samarcan e outros grandes centros culturais islâmicos. As Cruzadas eram guerras religiosas apenas para os cristãos. Para os árabes, significavam não mais do que uma invasão por nações estrangeiras.

Com a iminente queda de Constantinopla, sede da igreja cristã ortodoxa, a comunidade religiosa que lá operava tinha a opção de fugir ou ficar. Como confiava na tolerância religiosa dos muçulmanos que estavam prestes a ocupar a cidade, preferiu ficar. De fato, estão lá bem tranqüilos, há mais de 500 anos, rodeados de muçulmanos.

Por sua índole, o impacto dos mandamentos islâmicos afeta muito mais o funcionamento da família do que a sociedade ou o sistema político. É uma religião com a tônica de regular a vida pessoal e familiar. Embora em sua origem e difusão o islã tenha sido um movimento com características agressivas e fundamentalistas, ele secularizou-se, dando lugar à Idade de Ouro do Racionalismo Islâmico, enquanto a Europa permanecia mergulhada nas trevas da Idade Média. Lembremo-nos: no primeiro contato da Europa com Aristóteles, os livros estavam escritos em árabe e tiveram de ser traduzidos.

No mesmo Irã dos rabugentos aiatolás viveu Omar Kayyam, um poeta respeitado e de grande liderança intelectual na sua época. Em seu conhecido Rubaiyat, ele não se cansa de louvar Alá, o vinho e a beleza das mulheres (no Corão, as bebidas alcoólicas são desaconselhadas, mas não são proibidas).

O que aconteceu nas últimas décadas foi o uso político da religião. Em países como Turquia, Malásia, Marrocos, Tunísia e muitos outros, o islã permaneceu em seus eixos tradicionais. Contudo, no Irã, Líbia, Sudão, Afeganistão, Palestina e Argélia, a religião foi usada por líderes políticos, como uma forma de mobilização fanática. De religião tolerante, virou seita fundamentalista. De uma fonte de orientação para o comportamento individual, foi transformada em um grito de guerra, a guerra santa do Jihad. Os movimentos fundamentalistas islâmicos são movimentos políticos que usam a religião para recrutar os pobres, os menos educados e os mais vulneráveis. É uma forma de controle social brandindo a caricatura de uma religião.

Ora, se o islã se presta a tais reinterpretações, por que imputar a ele a tolerância e não o fundamentalismo? A razão para isso parece bem sólida, pois, segundo meus amigos muçulmanos, a natureza do Corão é ser explícito em seus ensinamentos, diferentemente da Bíblia, que fala por metáforas e permite interpretações.

O Corão diz o que se deve fazer, o que é aceitável mas não é bom e o que não se pode fazer. O Corão é literal em seus ensinamentos. O que não diz que é proibido não pode passar a sê-lo em interpretação de algum fanático. Segundo as lideranças intelectuais islâmicas, as interpretações intolerantes e extremadas defendidas pelos fundamentalistas colidem com o espírito do Corão.

É perigoso ver um monolito onde há um mosaico de etnias, culturas, diversidade religiosa, tolerância, enclaves fundamentalistas e, no limite, terrorismo desfraldando a bandeira do islã. Corremos o risco de criar uma outra intolerância contrária, esvaziando o espaço para o tradicional islã tolerante e empurrando para os braços dos extremistas grupos e pessoas cuja índole não podia ser mais diferente.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 

 
 
   
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