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Claudio
de Moura Castro
Árabe,
islã e
fundamentalismo
"É
perigoso ver um monolito onde
há um mosaico de etnias, culturas
e diversidade religiosa"
Farid era um colega egípcio durante meu doutorado nos Estados Unidos.
Sendo profundamente religioso, logo que alugou um apartamento saiu atrás
de uma igreja. Escolheu a mais próxima, que, por acaso, era batista.
Quando estranhei que um muçulmano passasse a freqüentar uma
igreja batista, tranqüilamente retrucou que era o mesmo Deus.
Esse
pequeno episódio de tolerância dá o mote para desfazer
alguns equívocos perigosos. A imprensa cotidiana mistura árabe
com islã, com fundamentalismo e com terrorismo. Árabe pode
não ser muçulmano, como os libaneses cristãos que
vieram para o Brasil. E muçulmano pode não ser árabe,
como é o caso dos turcos, iranianos, indonésios e outros.
Mas o erro daninho é imputar ao islã uma índole fundamentalista
e intolerante. Pior: supor que mesmo as minorias fundamentalistas endossam
o terrorismo. Desfazer tais equívocos é vital, tratando-se
de uma religião abraçada por 1,3 bilhão de pessoas
um quinto da população do globo.
Historicamente, o cristianismo tem sido mais intolerante que o islã.
Ao longo dos séculos, havia templos e mosteiros católicos
espalhados por quase todos os países islâmicos e não
havia uma só mesquita na Europa. Existiam bairros judeus e sinagogas
em Sevilha, Cairo, Samarcan e outros grandes centros culturais islâmicos.
As Cruzadas eram guerras religiosas apenas para os cristãos. Para
os árabes, significavam não mais do que uma invasão
por nações estrangeiras.
Com a iminente queda de Constantinopla, sede da igreja cristã ortodoxa,
a comunidade religiosa que lá operava tinha a opção
de fugir ou ficar. Como confiava na tolerância religiosa dos muçulmanos
que estavam prestes a ocupar a cidade, preferiu ficar. De fato, estão
lá bem tranqüilos, há mais de 500 anos, rodeados de
muçulmanos.
Por sua índole, o impacto dos mandamentos islâmicos afeta
muito mais o funcionamento da família do que a sociedade ou o sistema
político. É uma religião com a tônica de regular
a vida pessoal e familiar. Embora em sua origem e difusão o islã
tenha sido um movimento com características agressivas e fundamentalistas,
ele secularizou-se, dando lugar à Idade de Ouro do Racionalismo
Islâmico, enquanto a Europa permanecia mergulhada nas trevas da
Idade Média. Lembremo-nos: no primeiro contato da Europa com Aristóteles,
os livros estavam escritos em árabe e tiveram de ser traduzidos.
No mesmo Irã dos rabugentos aiatolás viveu Omar Kayyam,
um poeta respeitado e de grande liderança intelectual na sua época.
Em seu conhecido Rubaiyat, ele não se cansa de louvar Alá,
o vinho e a beleza das mulheres (no Corão, as bebidas alcoólicas
são desaconselhadas, mas não são proibidas).
O que aconteceu nas últimas décadas foi o uso político
da religião. Em países como Turquia, Malásia, Marrocos,
Tunísia e muitos outros, o islã permaneceu em seus eixos
tradicionais. Contudo, no Irã, Líbia, Sudão, Afeganistão,
Palestina e Argélia, a religião foi usada por líderes
políticos, como uma forma de mobilização fanática.
De religião tolerante, virou seita fundamentalista. De uma fonte
de orientação para o comportamento individual, foi transformada
em um grito de guerra, a guerra santa do Jihad. Os movimentos fundamentalistas
islâmicos são movimentos políticos que usam a religião
para recrutar os pobres, os menos educados e os mais vulneráveis.
É uma forma de controle social brandindo a caricatura de uma religião.
Ora, se o islã se presta a tais reinterpretações,
por que imputar a ele a tolerância e não o fundamentalismo?
A razão para isso parece bem sólida, pois, segundo meus
amigos muçulmanos, a natureza do Corão é ser
explícito em seus ensinamentos, diferentemente da Bíblia,
que fala por metáforas e permite interpretações.
O Corão diz o que se deve fazer, o que é aceitável
mas não é bom e o que não se pode fazer. O Corão
é literal em seus ensinamentos. O que não diz que é
proibido não pode passar a sê-lo em interpretação
de algum fanático. Segundo as lideranças intelectuais islâmicas,
as interpretações intolerantes e extremadas defendidas pelos
fundamentalistas colidem com o espírito do Corão.
É
perigoso ver um monolito onde há um mosaico de etnias, culturas,
diversidade religiosa, tolerância, enclaves fundamentalistas e,
no limite, terrorismo desfraldando a bandeira do islã. Corremos
o risco de criar uma outra intolerância contrária, esvaziando
o espaço para o tradicional islã tolerante e empurrando
para os braços dos extremistas grupos e pessoas cuja índole
não podia ser mais diferente.
Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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