A interdição aos
negros
de certos ofícios simples
representa a discriminação
no estágio mais puro
Consta que ao iniciar uma das palestras, durante sua mítica visita
ao Brasil, Jean-Paul Sartre encarou a platéia, vasculhou o recinto
com os olhos incertos que abrigava sob as grossas lentes e disparou a
pergunta acima. O Brasil não era um país de ampla população
negra? Não se tratava, além disso, de uma das raras democracias
raciais do planeta? Sendo assim, onde estavam os negros? Sartre vasculhava
o recinto e não via nenhum. Por que haviam faltado naquele dia?
Antes de prosseguir, façamos uma pausa para explicar por que
a visita de Sartre ao Brasil, ocorrida em 1960, merece ser qualificada
como "mítica". Foi algo que sacudiu o país. O fato de o
maior filósofo, o papa do existencialismo, honrar-nos com sua presença
deixou-nos tontos. E tanto que até hoje ter comparecido a algum
dos eventos de que tomou parte constitui ponto alto do currículo
de quem teve tal sorte. Ainda agora, quando se fez a retrospectiva da
vida de Jorge Amado, lá estava, nos jornais e revistas, sua foto
com Sartre. Quando surge ocasião para publicar fotos do passado
do presidente Fernando Henrique Cardoso, também é obrigatória
aquela em que aparecem ele e a mulher, Ruth, sentados à primeira
fila, durante conferência do mestre. A imagem de Sartre não
ostenta hoje o antigo brilho. Os jovens talvez nem saibam quem foi essa
figura pré-histórica, de um tempo em que pasme-se
não havia internet nem telefone celular. Mas a visita de
Sartre ao Brasil jamais perderá o brilho. Talvez só a visita
de Brigitte Bardot, quatro anos depois, respeitados os diferentes tipos
físicos e as respectivas áreas de atuação
desses dois notáveis cidadãos franceses, possa servir-lhe
de paralelo. Sartre, ele próprio, pode cair no mais lastimável
esquecimento. Sua visita ao Brasil, nunca.
Tal visita é mítica porque constituiu um marco, como os
mitos, e também porque, como os mitos, deixou atrás de si
uma zona de penumbra. Teria ele feito mesmo aquela pergunta à platéia,
ou ela foi inventada por outrem e atribuída a ele como a indagação
perfeita que a um filósofo perfeito cabia fazer naquela hora e
local? Não importa. O que se quer dizer aqui, dada a máxima
vênia, é que o grande Sartre, supondo-se que foi dele mesmo
a pergunta, fez a pergunta errada. Ou melhor: fez a pergunta certa, mas
no local errado. Deveria tê-la feito mais adiante, quando fosse
jantar, no restaurante.
Explique-se. Não surpreende que os negros não estivessem
na conferência. Eles não tinham, e continuam não tendo,
acesso à boa educação. Então como agora, só
uns raros chegavam à universidade. Ir à conferência
de Sartre significaria superar uma série de obstáculos,
começando pelo lar pobre e continuando com a escola precária,
a falta de acesso aos livros e aos bens culturais em geral, a necessidade
de cedo trabalhar para reforçar o orçamento familiar, o
cansaço produzido por pesadas tarefas, o tempo perdido em intermináveis
deslocamentos de ida e volta a distantes periferias. Já no restaurante,
ele levantaria os olhos e perceberia, com muito mais surpresa, que igualmente
não havia negros e não entre os clientes, nisso não
haveria nada de surpreendente, mas entre o próprio pessoal de serviço,
ou seja, entre os garçons. Ora, o ofício de garçom
é relativamente simples. Exige pés resistentes, para andar
de cá para lá a noite toda, e habilidade para segurar uma
bandeja. Não precisa chegar à universidade. Tudo o que se
precisa ler é o cardápio, não O Ser e o Nada.
Em suma, não é preciso vencer uma miríade de obstáculos
educacionais e culturais. E no entanto, salvo exceções,
não há negros entre os garçons no Brasil. Eis a discriminação
no seu ponto mais cruel. Não no ponto de chegada, como é
o caso da universidade, que supõe a superação de
incontáveis obstáculos, mas no ponto de saída, fincada
à porta de um ofício que, sendo simples, em tese estaria
desde sempre ao alcance dos mais desprovidos.
Não só os restaurantes discriminam. Muitas lojas também
não admitem vendedores(as) negros(as). E não é preciso
ser filósofo para saber a causa do fenômeno: é a maldição
da "boa aparência", tenebrosa fórmula que exclui os negros
das profissões que implicam contato direto com o consumidor de
classe alta. Em Nova York, é raro que um restaurante ou uma loja
da Quinta Avenida não empregue negros. Em São Paulo, não
há negros nem nos restaurantes nem nos shopping centers. Eis toda
a diferença entre um país assumidamente racista, mas que
luta para integrar sua sociedade, e uma suposta democracia racial, que
deixa estar para ver como é que fica.
Essas considerações vêm a propósito da Conferência
das Nações Unidas contra o Racismo, que se abre nesta semana
na África do Sul. A delegação brasileira apresentará
propostas que incluem o estabelecimento de cotas para negros na universidade.
O acesso à universidade é crucial, mas talvez seja o caso
de olhar com mais atenção para o que acontece muito antes
disso. O que acontece no acesso a uma profissão como a de garçom,
por exemplo.