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"O primeiro passo para lançar um dicionário é a motivação. Por que fazer um quando já existem tantos? A segunda coisa é delimitar o número de verbetes. A terceira é estabelecer um prazo para terminar", conta Mauro Villar. A motivação foi dada por Antônio Houaiss em pessoa. Ele queria associar seu nome ao mais completo dicionário. Houaiss lembrava sempre que o próprio Aurélio se define como uma obra inframédia, ou seja, que não chega a contemplar nem a metade das palavras do idioma. Houaiss julgava a obra de Aurélio meritória, mas entendia que sua formação de professor de português, excelente por sinal, era fraca em instrumentos teóricos para levá-lo às profundezas do idioma. Outras obras, Houaiss as via defasadas e incapazes de satisfazer quem quisesse ultrapassar os desafios do uso correto do português atual. Não fossem essas razões, havia a mais alta: a ambição de escrever um dicionário que representasse sua própria visão da língua portuguesa. A erudição, somada ao conhecimento e à tenacidade de alguém que levou apenas nove meses para traduzir a obra inaugural da modernidade, o Ulysses, do irlandês James Joyce – enquanto sua mãe morria de câncer –, fez de Houaiss o homem talhado para a tarefa monumental.

Houaiss queria uma obra que reunisse com igual ímpeto os vocábulos utilizados pelos grandes escritores e aqueles gerados pelo linguajar mais comum das pessoas no dia-a-dia. Ele almejava profundidade histórica e modernidade. "Algo que ombreie com o desenvolvimento alcançado em outras línguas românicas, a exemplo do francês, do espanhol, do italiano, do catalão", como escreveu no prefácio do novo dicionário. A definição do tamanho do dicionário só se deu depois que os envolvidos na produção dicidiram que a obra deveria ficar pronta até o ano 2000. Dados o tempo disponível e a complexidade da tarefa, os especialistas reunidos pelo Instituto Antônio Houaiss, organização criada pelo filólogo para o estudo do idioma, estabeleceram que o dicionário teria 228.500 verbetes. Sem disciplina férrea, não passariam da letra A. "Com todo o esforço de organização, a sensação que tínhamos era a de um piloto tentando levantar vôo com um avião ainda em construção", define Mauro Villar.

As primeiras fases do projeto, antes da entrada da editora Objetiva, foram bancadas pelo Instituto Antônio Houaiss com receitas obtidas de fontes privadas e estatais. Conseguiu-se o suficiente para pagar a dezenas de pesquisadores. Os melhores chegavam a ganhar 5.000 reais por mês. Colaboradores técnicos recebiam 2 reais por verbete. Quando o dinheiro acabou, a seis meses do término da obra, todos trabalharam de graça. Toda essa gente produzia o que exatamente? Pequenos textos com os significados das palavras, sinônimos e antônimos, mas igualmente a história ou a etimologia dos vocábulos. A mecânica do trabalho tinha um componente braçal. Foi nessa fase que o computador ajudou muito. Os pesquisadores faziam cópias digitais, com a ajuda de um escâner, de artigos de revistas, jornais, livros e outras fontes. Tudo isso ia para um arquivo digital comum, de forma que as modificações podiam ser instantaneamente compartilhadas. "Sem isso não teríamos conseguido acelerar os trabalhos", lembra Feith. Todos seguiram as orientações de Houaiss, consolidadas em um manual de redação com 100 páginas, que se tornou ainda mais valioso depois de sua morte. Os verbetes também só recebiam o ponto final depois de confrontados com os de outros dicionários. "Começamos pela letra B, mais simples, para 'esquentar' os motores e testar a eficiência de nossa rotina. Depois passamos ao D e, finalmente, enfrentamos o A, a letra mais extensa e complexa", explica Mauro Villar.

Se consideramos como primeiro dicionário da história uma pequena lasca de pedra com uma dúzia de vocábulos de um idioma obscuro encontrada na antiga Mesopotâmia, então essa compulsão humana de listar palavras tem pelo menos 2.700 anos, ou 27 séculos. De lá para cá, a evolução foi tremenda. Até o século XIV, por exemplo, as palavras eram organizadas não em ordem alfabética, mas em grupos de significados parecidos. Esse tipo de dicionário sobreviveu aos nossos dias. São os tesauros, dicionários de sinônimos ou de idéias correlatas. Ninguém, porém, traçou tão bem quanto Noah Webster (1758-1843), famoso lexicógrafo americano, quais devem ser os critérios fundamentais para separar as palavras dicionarizáveis das que não merecem essa glória. Aconselhou o sábio que se leve em conta o seguinte:

a linguagem muda constantemente;

a mudança é normal;

a linguagem falada é a linguagem;

o que define a correção é o uso;

todo uso é relativo.

Como toda regra simples, a de Noah Webster é brilhante, mas não esgota a questão: por ter mais verbetes que o Aurélio, o Houaiss é um dicionário, sem dúvida, mais completo. Mas é o melhor? Muito antes de fazerem seus dicionários, Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss já divergiam sobre o número ideal de palavras que uma obra do gênero deve ter. Aurélio sempre foi favorável a uma lista menor concentrada em palavras efetivamente usadas no dia-a-dia. Houaiss pendia para dicionários mais completos, históricos, enciclopédicos. Essa, aliás, é a mais resistente das brigas entre a maioria dos dicionaristas de qualquer idioma. O estudioso americano David Foster Wallace sugere desafiadoramente que, se tamanho e modernidade são documentos, o dicionário de inglês ideal abrigaria tantos termos que pesaria 2 toneladas e teria de ser atualizado a cada meia hora. "Claro que um dicionário assim não tem valor. Por isso é preciso alguém com autoridade para escolher as palavras", diz Wallace. "Aí é que está a beleza autoral, pois toda escolha será inevitavelmente ideológica."

A precaução básica de Houaiss, segundo Mauro Villar, foi evitar a transformação da linguagem de forma muito veloz, o que, para ele, seria catastrófico. Também temia que o ritmo fosse lento demais e seu dicionário registrasse uma língua moribunda e não aquela que pulsa nas ruas, lojas, estádios, estações de metrô e bares. Quando se mede o ritmo que efetivamente empreendeu ao dicionário, nota-se que Houaiss foi muito rápido no gatilho. Para começo de conversa, não teve nenhum tipo de preconceito com os vocábulos de origem estrangeira. Estão lá, devidamente dicionarizadas, as palavras popularizadas pela internet, como site, www, web e hipertexto. O americano Wallace conta que antes da internet só Sigmund Freud, o pai da psicanálise, provocara, no começo do século XX, uma reação tão grande por causa da avalanche de palavras estrangeiras, no caso alemãs, que espalhou pelos idiomas de todo o mundo. Com as reações costumeiras. "Houve uma enorme resistência dos puristas da língua inglesa quando Freud criou ou redefiniu termos como libido, narcisismo ou ansiedade", lembra Wallace. É a mesma situação que se vive em certos círculos intelectuais do Brasil de hoje, cujo paroxismo é o projeto de lei do deputado comunista Aldo Rebelo que prevê multas para quem usar palavras de origem estrangeira.

A própria expansão da língua portuguesa é um exemplo a desmentir a tese do deputado. Os estrangeirismos foram uma fonte inestimável de riqueza do idioma pátrio. Na Idade Média, o português era falado com o uso de apenas 15.000 palavras. Em meados do século XVI, com as grandes expedições marítimas, esse número saltou para 30.000. No fim do século XIX, os dicionários registravam cerca de 90.000 vocábulos. Na década de 80, um levantamento da Academia Brasileira de Letras dava conta da existência de 360.000 palavras. Os "empréstimos" de palavras estrangeiras, longe de empobrecer, tornam a língua hospedeira mais abrangente e culta. "Não poderia ser de outra maneira. Tudo o que vem de fora para simplificar permanece. Não adianta espernear. Quem dirá 'controle de embarque de passageiros' em vez de 'check-in'?", desafia o professor Leodegário de Azevedo Filho, presidente da Academia Brasileira de Filologia e autoridade mundial em Camões. O avanço do inglês sobre os idiomas é visto como fato natural entre filólogos e dicionaristas, devido à liderança tecnológica dos Estados Unidos. A tecnologia de ponta trouxe manuais, apostilas, cursos e termos que consagram o inglês a ponto de hoje ele ser falado por 1 bilhão de pessoas, na maioria bilíngües. Antes do inglês, o francês teve status de língua franca do mundo – e atraía sobre si a mesma fúria nacionalista dos defensores dos idiomas pátrios.

Como mero depositário dos termos de uso corrente, todo dicionário é uma obra hiperdimensionada. Um estrangeiro que fale bem o português básico terá dominado 1.000 vocábulos do idioma. Fora os termos técnicos, as principais línguas escritas usadas atualmente no mundo esgotam-se em 60.000 palavras. No Brasil, os filólogos estimam que o vocabulário básico reúna cerca de 3.000 termos. As populações em geral conseguem se comunicar com 800 a 1.400 palavras. Pessoas cultas valem-se de 3.000 a 5.000 vocábulos. Sabe-se que a obra do romancista Camilo Castelo Branco foi construída com nada menos que 15.000 vocábulos. Maior escritor brasileiro, Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Braz Cubas, lançou mão de 6.700 diferentes palavras. William Shakespeare, cuja obra foi escrita no século XVII, serviu-se de 25.000 vocábulos, dos quais criou pelo menos um quinto. Diante do estoque de palavras usadas pelos gênios acima, fica difícil imaginar quem precise das centenas de milhares de vocábulos contidas em um dicionário para se fazer entender. "A comunicação verbal ou mesmo escrita é complexa. Menos pode ser mais. Às vezes, quem sabe muito pode enrolar-se num vocabulário empolado e não conseguir transmitir o que deseja", diz Reinaldo Polito, professor de expressão verbal, que, entre seus alunos, tem políticos, atores e apresentadores de televisão. Conhecer um número maior de palavras, porém, é sempre uma vantagem. Mesmo que seja apenas uma vantagem potencial. Uma pesquisa da Harvard Business School mostrou que, para galgar um nível hierárquico nas empresas americanas, o funcionário é obrigado a enriquecer seu vocabulário em pelo menos 10%.

A editora Objetiva distribuiu algumas cópias do Houaiss a uma dezena de filólogos e estudiosos do português. Cada um teve de assinar um termo de confidencialidade para não atrapalhar a surpresa que a editora espera criar com o lançamento. O dicionário Houaiss foi bem recebido. "É uma obra aberta, sem preconceitos, que incorpora arcaísmos, indianismos, africanismos, regionalismos brasileiros e até asiaticismos. Isso a torna tecnicamente impecável", define o professor Leodegário. Ele não enxerga, porém, vantagens em tentar ser o mais completo dicionário. É um objetivo inalcançável. "Basta o leitor não encontrar uma palavra no dicionário para amaldiçoá-lo", lembra Leodegário, citando outro filólogo, Oswaldo Serpa: "O destino do dicionarista é conviver com a ingratidão humana".

"Vocês não estão fazendo só um dicionário, estão fazendo poesia", sentenciou o escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, que acompanhou parte dos trabalhos da equipe do Houaiss. Saramago se encantou com a definição do verbete "saudade" apresentada a ele por Mauro Villar: "Sentimento mais ou menos melancólico de incompletude", como reza a primeira das trinta linhas dedicadas ao vocábulo do qual os usuários da língua portuguesa mais se orgulham por o julgarem intraduzível para outros idiomas. Outro ponto relevante do Houaiss é o fato de muitas vezes abandonar o campo do dicionário de língua e ir além, ingressando no enciclopedismo. "No verbete 'filipeta', por exemplo, Houaiss não se contenta em defini-lo como 'promissória fraudulenta'. Vai além, conta o crime e indica o criminoso, Felipe, um capitão da reserva do Exército que nos anos 50 aplicou um golpe no mercado financeiro", lembra o professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras. Uma das razões pelas quais o acadêmico considera a obra uma "revolução literária" é o fato de ter abandonado o recurso, usado em outros similares, de definir um verbete pela utilização sucessiva de sinônimos. "Houaiss ensina o significado", diz o acadêmico. "Se pecado há no novo dicionário, é o de dar mais do que se pede." O julgamento final do que foi conseguido, como Antônio Houaiss deixou escrito no prefácio da obra, caberá, como sempre, ao leitor.

   
 
   
 
   
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